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Sob-o-risco-do-Real

Sob-o-risco-do-Real

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06/01/2014

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Sob o Risco do Real
Jean-Louis Comolli
Um
. Nossas fantasias e nossas necessidades são roteirizadas. Uma mão invisível alinha os  processos supostos a nos conduzir. s sociedades deslizam-se va!arosamente da "poca das representa#$es % teatro das institui#$es& com"dias ou tra!"dias dos poderes& espet'culo das rela#$es de for#a % ()uela das pro!rama#$es* da cena ao roteiro. o cidadão não " mais solicitado tanto ser um espectador % en!rena!em da representa#ão e& ao mesmo tempo& ator  por dele!a#ão % )uanto a permanecer no seu lu!ar de consumidor& impotente at" mesmo  para compreender o pro!rama do )ual ele participa. +emasiadamente desi!ual& o ,o!o não " mais um ,o!o. ace a esta crescente roteiriza#ão das rela#$es sociais e intersub,etivas tal como " divul!ada e finalmente !arantida/ pelo modelo 0realista1 da telenovela& o document'rio não tem outra escolha a não ser se realizar sob o risco do real. 2 imperativo de 0como filmar1 % cora#ão do trabalho do cineasta % coloca-se como a mais violenta necessidade* não mais como fazer o filme& mas como fazer para )ue ha,a filme3  pr'tica do cinema document'rio não depende& em 4ltima an'lise& nem dos circuitos de financiamento& nem das possibilidades de difusão& mas simplesmente do bem )uerer % da boa !ra#a % de )uem ou o )u5 escolhemos para filmar* indivíduos& institui#$es& !rupos. 2 dese,o est' no posto de comando. s condi#$es da e6peri5ncia fazem parte da e6peri5ncia. brindo-se ()uilo )ue amea#a sua pr7pria possibilidade o real )ue amea#a a cena/& o cinema document'rio res!ata& ao mesmo tempo& a possibilidade da continuidade da representa#ão* " a trilha do document'rio )ue serpenteia de 0lemanha no 8ero1 Roberto Rossellini/ a 09 a :ida Continua1 bbas ;iarostami/& de 0<ela Continua#ão do =undo1 <ierre <errault/ a 0<ouco a <ouco1 Jean Rouch/. 2s filmes document'rios não são somente abertos para o mundo* eles são atravessados& furados& transportados pelo mundo. 9les se apresentam de uma maneira mais forte )ue eles mesmos& maneira )ue os ultrapassa e& ao mesmo tempo& os funda.
Dois
. >o,e em dia os roteiros não se contentam mais em or!anizar o cinema de fic#ão& os filmes de televisão& os ,o!os de vídeo& as a!5ncias matrimoniais& os simuladores de v?o.  ambi#ão deles ultrapassa o domínio das produ#$es do ima!in'rio para colocar em sua responsabilidade as linhas de ordem )ue en)uadram a)uilo )ue se deve precisamente nomear 0nossas1 realidades* da bolsa de valores (s pes)uisas& passando pela publicidade& meteorolo!ia e com"rcio. 2s 0previsionistas1 não são utopistas e o poder dos  pro!ramadores não " virtual. ssim& mil modelos re!ulam os dispositivos sociais e econ?micos )ue nos mant5m em sua depend5ncia. =as todos procedem de um motivo
 
4nico* o homem& ser da lin!ua!em )ue a lin!ua!em ultrapassa& manifesta )ue est'& não faz muito tempo& em condi#$es de asse!urar a maestria sobre o mundo& traduzindo-o numa 0lín!ua1& a)uela do roteiro& )ue ser'& ela& inteiramente !overn'vel como podem ser a lín!uas da cibern"tica& da inform'tica& da !en"tica& da estatística..../. <or isso " )ue os roteiros& )ue se instalam em todo lu!ar para a!ir e pensar/ em nosso lu!ar& se )uerem totalizantes& para não dizer totalit'rios. <ro!ramas )ue não se ocupam da)uilo )ue est' no real e lhes escapa& )ue se ima!inam sem restos& sem e6terioridade& sem tudo )ue seria fora do c'lculo como se fala de e6tra-campo ou e6tra-cena/.  versão do mundo )ue eles nos prop$em " acabada& descri#ão fechada. 2ra& " uma sorte para n7s/ )ue o mundo tomado na tela dos c'lculos esperneia& permanece impalp'vel& al"m do perfeito e do imperfeito. Se precisasse de um e6emplo cruel& este seria a)uele da !uerra moderna& cada vez mais pro!ram'tica propa!andista/ e pro!ramada idealizada/& por"m& da mesma maneira& trincada pela dist@ncia )ue não se dei6a encurtar entre as telas dos computadores e a lama dos caminhos. Lon!e de 0toda-fic#ão de tudo1& o cinema document'rio tem& portanto& a chance de se ocupar das fissuras do real& da)uilo )ue resiste& da)uilo )ue resta& a esc7ria& o resíduo& o e6cluído& a parte maldita. <ensemos& por e6emplo& 0nessas pessoas dos barracos1 filmadas  por Robert Aozzi& mas tamb"m em 0J4lia1& filmada por +omini)ue Bros& ou nas crian#as de 0Brandes como o =undo1& de +enis Bheerbrant % mas poderiam ser ainda os her7is de 0=oi& un Noir1& Jean Rouch& ou mesmo a)uele her7i de 0Nanoo1& Robert lahertD. 9stes  persona!ens são precisamente a)ueles )ue produzem buracos ou borr$es nos pro!ramas pro!ramas sociais& escolares& m"dicos ou mesmo coloniais/& )ue escapam da norma ma,orit'ria& assim como da contra-norma minorit'ria cada vez melhor roteirizada pelos  poderes* contudo& eles vivem& não lhes faltando nem sofrimento nem ale!ria& presenciando an!4stias& d4vidas ou felicidades )ue não são& ou são pouco& a)uelas dos modelos en!lobantes. 9u creio )ue a renova#ão contempor@nea do document'rio na ran#a e na 9uropa tem a ver com esta necessidade entre outras/ sentida por todos n7s* )ue as representa#$es )ue n7s fabricamos do mundo dei6aram de d'-lo por acabado ou definitivamente domado e disciplinado por n7s. E sua maneira modesta& o cinema document'rio& ao ceder espa#o ao real& )ue o provoca e o habita& s7 pode se construir em fric#ão com o mundo& isto "& ele  precisa reconhecer o inevit'vel dos constran!imentos e das ordens& levar em considera#ão ainda )ue para os combater/ os poderes e as mentiras& aceitar& enfim& ser parte interessada nas re!ras do ,o!o social. Servidão& privil"!ios. Um cinema en!a,ado& diria eu& en!a,ado no mundo.
 
Três
. Sobre a )uestão 0o )ue " o document'rio13 não h' outra resposta senão a )uestão  posta por ndr" Aazin* 0o )ue " o cinema31 2 cinema não " o ,ornalismo& se bem )ue este como a)uele perten#am ( ordem das narrativas. Somente nossa ce!ueira e nossa surdez&  provocadas eFou escolhidas& podem e6plicar )ue n7s tomemos as informa#$es a!enciadas  por um ,ornal ou por um pro!rama televisual ou não/ como a afirma#ão transparente do )ue aconteceu. Uma testemunha& uma palavra& um documento e a pr7pria narrativa podem remeter aos fatos& a eles fazer refer5ncias e estabelecer rela#$es& contudo& separam-se deles  por meio de uma elabora#ão )ue& ainda )ue lhes se,a relativa& processa-os nas formas )ue não são mais as deles. Nada do mundo nos " acessível sem )ue os relatos nos transmitam uma versão local& datada& hist7rica& ideol7!ica.  crítica maior )ue n7s devemos diri!ir ( mídia& a!entes da informa#ão& se refere ( cren#a na chamada 0ob,etividade1& por meio da )ual ela mascara fre)uentemente o car'ter eminentemente prec'rio& fra!ment'rio e& por fim& sub,etivo& do )ue " tão somente o seu trabalho. Sub,etivo " o cinema e& com ele& o document'rio. Não " necess'rio recordar essa verdade % contudo& !eralmente perdida de vista % )ue o cinema nasceu document'rio e dele con)uistou seus primeiros poderes LumiGre/. 9le conver!e para o ,ornalismo& para o mundo dos acontecimentos& dos fatos& das rela#$es& elaborando a partir deles ou com eles as narrativas filmadasH e se separa do ,ornalismo na medida em )ue não dissimula estas narrativas& não as ne!a& mas& ao contr'rio& afirma seu !esto& )ue " o de rescrever os acontecimentos& as situa#$es& os fatos& as rela#$es em forma de narrativas& conse)uentemente& de rescrever o mundo& mas do ponto de vista de um su,eito& escrita a)ui e a!ora& narrativa prec'ria e fra!ment'ria& narrativa declarada e )ue faz dessa confissão seu pr7prio princípio. Iais % aleat7rios e fr'!eis % sem d4vida& foram e ainda são para al!uns os roteiros do cinema de fic#ão de Renoir e Rossellini a ;iarostami&  passando por Bodard/H mas cada vez menos fr'!eis& se posso dizer& na medida em )ue o instrumento do roteiro " retirado do )uadro das fic#$es cinemato!r'ficas para servir (s fic#$es políticas& econ?micas& sociais ou militares.  partir daí& l7!ico retorno das coisas& um funcionalismo estreito& um pro!rama rí!ido re!e cada vez mais as fic#$es industriais da televisão ao cinema e das s"ries dos 0Navarro1 ao 0Iitanic1/. Iriunfo da sociedade do espet'culo a constatar-se neste duplo movimento de !eneraliza#ão e de enri,ecimento do roteiro. ssim como o mercado& o espet'culo incita a estandardiza#ão.
Quatro
. <assando e repassando pelas dobras& sempre mais lisas no caso da fic#ão& o cinema  perdeu& em parte& seu p" sobre o mundo. <ro!ram'tico& o cinema não se anuncia mais como o profeta do desconhecido de um mundo por vir& mas ele o a,usta sobretudo como uma repeti#ão do conhecido.

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