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S164
*Sócio Fundador Associação da Brasileira Multiprofissional de Proteçãoà Infância e à Adolescência (ABRAPIA). Coordenador do Programa deRedução do Comportamento Agressivo entre Estudantes. Diretor daDiretoria dos Direitos da Criança da SOPERJ. Médico da Prefeitura daCidade do Rio de Janeiro.
Como citar este artigo:
Lopes Neto AA.
Bullying 
 – comportamentoagressivo entre estudantes. J Pediatr (Rio J). 2005;81(5 Supl):S164-S172.
Abstract
Objective:
To warn pediatricians about the high prevalence of bullying among students, to raise their awareness about theimportance of their action in the prevention, diagnosis, and treatmentof possible damage to childrens health and development, and aboutthe necessity to instruct families and society on how to face the mostfrequent form of youth violence.
Source of data:
Bibliographic databases and relevant Internetsites were searched for recent articles and texts about the theme.
Summary of the findings:
Aggressive behavior among studentsis a universal problem, tradivionally accepted as natural and usuallydisregarded or not given proper attention by adults. Studies carriedout during the past two decades showed that bullying can haveimmediate and late negative outcomes for children and adolescentswho are directly or indirectly involved. The adoption of continuedpreventive programs in grade schools and in junior high schools hasdemonstrated to be one of the most effective measures for theprevention of alcohol and drug consumption and for the reduction of social violence.
Conclusion:
The prevention of bullying among studentsrepresents an essential public health measure that may allow for totalchildrens development, qualifying them for a healthy and safe socialcoexistence.
 J Pediatr (Rio J). 2005;81(5 Supl):S164-S172:
School violence, juvenile violence.
Resumo
Objetivo:
Alertar os pediatras sobre a alta prevalência da práticade
bullying
entre estudantes, conscientizando-os da importância de suaatuação na prevenção, diagnóstico e tratamento dos possíveis danos àsaúde e ao desenvolvimento de crianças e adolescentes, além danecessidade em orientar as famílias e a sociedade para o enfrentamentoda forma mais freqüente de violência juvenil.
Fonte de dados:
Foram acessados bancos de dados bibliográficose páginas de relevância na Internet, identificando-se artigos e textosrecentes sobre o tema.
Síntese dos dados:
O comportamento agressivo entre estudantesé um problema universal, tradicionalmente admitido como natural efreqüentemente ignorado ou não valorizado pelos adultos. Estudosrealizados nas 2 últimas décadas demonstraram que a sua prática podeter conseqüências negativas imediatas e tardias para todas as criançase adolescentes direta ou indiretamente envolvidos. A adoção deprogramas preventivos continuados em escolas de educação infantil ede ensino fundamental tem demonstrado ser uma das medidas maisefetivas na prevenção do consumo de álcool e drogas e na redução daviolência social.
Conclusão:
A prevenção do
bullying
entre estudantes constitui-seem uma necessária medida de saúde pública, capaz de possibilitar opleno desenvolvimento de crianças e adolescentes, habilitando-os auma convivência social sadia e segura.
 J Pediatr (Rio J). 2005;81(5 Supl):S164-S172:
Violência escolar,violência juvenil.
Bullying
 comportamento agressivo entre estudantes
Bullying  aggressive behavior among students
Aramis A. Lopes Neto*
0021-7557/05/81-05-Supl/S164
Jornal de Pediatria
Copyright © 2005 by Sociedade Brasileira de Pediatria
A
RTIGO
 
DE
R
EVISÃO
Introdução
A violência é um problema de saúde pública importantee crescente no mundo, com sérias conseqüências individu-ais e sociais
1-4
, particularmente para os jovens, que apare-cem nas estatísticas como os que mais morrem e os quemais matam
5
.Hoje em dia, é consenso que a violência pode serevitada, seu impacto minimizado e os fatores que contri-buem para respostas violentas mudados. Segundo De-barbieux & Blaya
6
, não se trata de uma questão de fé, masde uma afirmação baseada em evidências. Exemplos bemsucedidos podem ser encontrados em todo o mundo,desde trabalhos individuais e comunitários em pequenaescala, até políticas nacionais e iniciativas legislativas.Uma das formas mais visíveis da violência na sociedadeé a chamada violência juvenil, assim denominada por sercometida por pessoas com idades entre 10 e 21 anos
7,8
.Grupos em que o comportamento violento é percebido antesda puberdade tendem a adotar atitudes cada vez maisagressivas, culminando em graves ações na adolescência ena persistência da violência na fase adulta
4,7,9,10
.Quando abordamos a violência contra crianças e ado-lescentes e a vinculamos aos ambientes onde ela ocorre,
 
Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(Supl), 2005
S165
Bullying
 Lopes Neto AA
a escola surge como um espaço ainda pouco explorado,principalmente com relação ao comportamento agressivoexistente entre os próprios estudantes. A violência nasescolas é um problema social grave e complexo e, prova-velmente, o tipo mais freqüente e visível da violência juvenil
9,11-13
.O termo violência escolar diz respeito a todos oscomportamentos agressivos e anti-sociais, incluindo osconflitos interpessoais, danos ao patrimônio, atos crimino-sos, etc. Muitas dessas situações dependem de fatoresexternos, cujas intervenções podem estar além da compe-tência e capacidade das entidades de ensino e de seusfuncionários. Porém, para um sem número delas, a soluçãopossível pode ser obtida no próprio ambiente escolar.O comportamento violento, que causa tanta preocupa-ção e temor, resulta da interação entre o desenvolvimentoindividual e os contextos sociais, como a família, a escola ea comunidade. Infelizmente, o modelo do mundo exterior éreproduzido nas escolas, fazendo com que essas institui-ções deixem de ser ambientes seguros, modulados peladisciplina, amizade e cooperação
3
, e se transformem emespaços onde há violência, sofrimento e medo.
Bullying
Estudos sobre as influências do ambiente escolar edos sistemas educacionais sobre o desenvolvimento aca-dêmico do jovem já vêm sendo realizados, mas é neces-sário também que tais influências sejam observadas pelaótica da saúde.A escola é de grande significância para as crianças eadolescentes, e os que não gostam dela têm maior proba-bilidade de apresentar desempenhos insatisfatórios, com-prometimentos físicos e emocionais à sua saúde ou senti-mentos de insatisfação com a vida. Os relacionamentosinterpessoais positivos e o desenvolvimento acadêmicoestabelecem uma relação direta, onde os estudantes queperceberem esse apoio terão maiores possibilidades dealcançar um melhor nível de aprendizado
14
. Portanto, aaceitação pelos companheiros é fundamental para o desen-volvimento da saúde de crianças e adolescentes, aprimo-rando suas habilidades sociais e fortalecendo a capacidadede reação diante de situações de tensão
15
.A agressividade nas escolas é um problema universal
3,9
.O
bullying
e a vitimização representam diferentes tipos deenvolvimento em situações de violência durante a infânciae adolescência. O
bullying
diz respeito a uma forma deafirmação de poder interpessoal através da agressão. Avitimização ocorre quando uma pessoa é feita de receptordo comportamento agressivo de uma outra mais poderosa.Tanto o
bullying
como a vitimização têm conseqüênciasnegativas imediatas e tardias sobre todos os envolvidos:agressores, vítimas e observadores
16
.Por definição,
bullying
compreende todas as atitudesagressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem semmotivação evidente, adotadas por um ou mais estudantecontra outro(s), causando dor e angústia, sendo executa-das dentro de uma relação desigual de poder
3,11
. Essaassimetria de poder associada ao
bullying
pode ser con-seqüente da diferença de idade, tamanho, desenvolvi-mento físico ou emocional, ou do maior apoio dos demaisestudantes
3,11,17
.Trata-se de comportamentos agressivos que ocorremnas escolas e que são tradicionalmente admitidos comonaturais, sendo habitualmente ignorados ou não valoriza-dos, tanto por professores quanto pelos pais.A adoção universal do termo
bullying
foi decorrente dadificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante arealização da Conferência Internacional Online
School Bullying and Violence
, de maio a junho de 2005, ficoucaracterizado que o amplo conceito dado à palavra
bullying
dificulta a identificação de um termo nativo correspondenteem países como Alemanha, França, Espanha, Portugal eBrasil, entre outros
18
.As pesquisas sobre
bullying
são recentes e ganharamdestaque a partir dos anos 1990, principalmente comOlweus, 1993; Smith & Sharp, 1994; Ross, 1996; Rigby,1996
3
. Estudos indicam que a prevalência de estudantesvitimizados varia de 8 a 46%, e de agressores, de 5 a30%
3,19
.A escola é vista, tradicionalmente, como um local deaprendizado, avaliando-se o desempenho dos alunos combase nas notas dos testes de conhecimento e no cumpri-mento de tarefas acadêmicas. No entanto, três documentoslegais formam a base de entendimento com relação aodesenvolvimento e educação de crianças e adolescentes: aConstituição da República Federativa do Brasil, o Estatutoda Criança e do Adolescente e a Convenção sobre os Direitosda Criança da Organização das Nações Unidas. Em todosesses documentos, estão previstos os direitos ao respeito eà dignidade, sendo a educação entendida como um meio deprover o pleno desenvolvimento da pessoa e seu preparopara o exercício da cidadania.Todos desejamos que as escolas sejam ambientes segu-ros e saudáveis, onde crianças e adolescentes possamdesenvolver, ao máximo, os seus potenciais intelectuais esociais. Portanto, não se pode admitir que sofram violênciasque lhes tragam danos físicos e/ou psicológicos, que teste-munhem tais fatos e se calem para que não sejam tambémagredidos e acabem por achá-los banais ou, pior ainda, quediante da omissão e tolerância dos adultos, adotem compor-tamentos agressivos.A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção àInfância e à Adolescência (ABRAPIA) desenvolveu o Progra-ma de Redução do Comportamento Agressivo entre Estu-dantes, objetivando investigar as características dessesatos entre 5.500 alunos de quinta à oitava série do ensinofundamental e sistematizar estratégias de intervençãocapazes de prevenir a sua ocorrência.Apesar de o estudo ter sido realizado em pouco maisde 1 ano, de setembro de 2002 a outubro de 2003, foipossível reduzir a agressividade entre os estudantes,favorecendo o ambiente escolar, o nível de aprendizado,a preservação do patrimônio e, principalmente, as rela-ções humanas (Tabela 1 e 2).
 
S166
 
Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(supl), 2005
Classificação
O
bullying
é classificado como direto, quando as vítimassão atacadas diretamente, ou indireto, quando estão au-sentes. São considerados
bullying
direto os apelidos, agres-sões físicas, ameaças, roubos, ofensas verbais ou expres-sões e gestos que geram mal estar aos alvos. São atosutilizados com uma freqüência quatro vezes maior entre osmeninos. O
bullying
indireto compreende atitudes de indi-ferença, isolamento, difamação e negação aos desejos,sendo mais adotados pelas meninas
3,11,19-21
.Uma nova forma de
bullying
, conhecida como
cyber-bullying
, tem sido observada com uma freqüência cada vezmaior no mundo. Segundo Bill Belsey, trata-se do uso datecnologia da informação e comunicação (
e-mails
, telefo-nes celulares, mensagens por
 pagers
ou celulares, fotosdigitais,
sites
pessoais difamatórios, ações difamatórias
online
) como recurso para a adoção de comportamentosdeliberados, repetidos e hostis, de um indivíduo ou grupo,que pretende causar danos a outro(s)
22
. A vitimizaçãoatravés de telefones celulares foi admitida por 14 a 23% dosadolescentes entrevistados em três pesquisas
23-25
.
Fatores de risco
Fatores econômicos, sociais e culturais, aspectos inatosde temperamento e influências familiares, de amigos, daescola e da comunidade, constituem riscos para a manifes-tação do
bullying
e causam impacto na saúde e desenvolvi-mento de crianças e adolescentes
9,21
.O
bullying
é mais prevalente entre alunos com idadesentre 11 e 13 anos, sendo menos freqüente na educaçãoinfantil e ensino médio
14,17,26
.Entre os agressores, observa-se um predomínio dosexo masculino, enquanto que, no papel de vítima, não hádiferenças entre gêneros. O fato de os meninos envolve-rem-se em atos de
bullying
mais comumente não indicanecessariamente que sejam mais agressivos, mas simque têm maior possibilidade de adotar esse tipo decomportamento. Já a dificuldade em identificar-se o
bullying
entre as meninas pode estar relacionada ao usode formas mais sutis
3,14
.Considerando-se que a maioria dos atos de
bullying
ocorre fora da visão dos adultos, que grande parte dasvítimas não reage ou fala sobre a agressão sofrida
22
,pode-se entender por que professores e pais têm poucapercepção do
bullying
, subestimam a sua prevalência eatuam de forma insuficiente para a redução e interrupçãodessas situações
19,27
. A ABRAPIA identificou que 51,8%dos autores de
bullying
admitiram não terem sido adver-tidos
3
. A aparente aceitação dos adultos e a conseqüentesensação de impunidade favorecem a perpetuação docomportamento agressivo.A redução dos fatores de risco pode prevenir o compor-tamento agressivo entre crianças e adolescentes. Os esfor-ços devem ser direcionados para a diminuição da exposiçãoà violência no ambiente escolar, doméstico e comunitário,além daquela divulgada pela mídia
28
.
Formas de envolvimento dos estudantes
As crianças e adolescentes podem ser identificadoscomo vítimas, agressores ou testemunhas de acordo comsua atitude diante de situações de
bullying
. Não háevidências que permitam prever qual papel adotará cadaaluno, uma vez que pode ser alterado de acordo com ascircunstâncias
27
.A forma de classificação utilizada pela ABRAPIA teve ocuidado de não rotular os estudantes, evitando que estes
Tabela 1 -
Percepção dos estudantes quanto à prática de
bullying
nas escolas
Dados da pesquisa inicial da ABRAPIA
40,5% dos alunos admitiram estar diretamente envolvidos ematos de
bullying
, sendo 16,9% como alvos, 12,7% comoautores e 10,9% ora como alvos, ora como autores;60,2% dos alunos afirmaram que o
bullying
ocorre maisfreqüentemente dentro das salas de aula;80% dos estudantes manifestaram sentimentos contrários aosatos de
bullying
, como medo, pena, tristeza, etc.41,6% dos que admitiram ser alvos de
bullying
disseram nãoter solicitado ajuda aos colegas, professores ou família;entre aqueles que pediram auxílio para reduzir ou cessar seusofrimento, o objetivo só foi atingido em 23,7% dos casos;69,3% dos jovens admitiram não saber as razões que levam àocorrência de
bullying
ou acreditam tratar-se de uma forma debrincadeira;entre os alunos autores de
bullying
, 51,8% afirmaram que nãoreceberam nenhum tipo de orientação ou advertência quantoà incorreção de seus atos.
Tabela 2 -
Percepção dos estudantes quanto à prática de
bullying
nas escolas
Alterações detectadas na avaliação finaldo projeto da ABRAPIA
79,9% dos alunos admitem saber o que é
bullying
;redução de 6,6% de alunos alvos;redução de 12,3% de alunos autores de
bullying
;a indicação da sala de aula como local de maior incidência deatos de
bullying
caiu de 60,2% para 39,3%, representandouma queda de 24,7%;o número de alunos que admitia gostar de ver o colega sofrer
bullying
reduziu-se em 46,1%;entre os alunos alvos que buscaram ajuda, o sucesso dasintervenções para a redução ou cessação do
bullying
teve umcrescimento de 75,9%;o desconhecimento sobre o entendimento das razões quelevam à prática de
bullying
reduziu-se em 49,1%;aqueles que admitiram o
bullying
como um ato de maldadepassou de 4,4% para 25,2% das respostas, representando umaumento de 472,7%;o número de alunos autores de
bullying
que admitiu terrecebido orientações e advertências quanto à incorreção deseus atos passou de 45,6% para 68%, representando umcrescimento de 33,4%.
Bullying
 Lopes Neto AA
of 00

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