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Discípulos involuntários de Descartes – críticas de Vigotski a teorias dualistas das emoções
 Achilles Delari Junior 
 GETHC – Grupo de estudos em teoria histórico-cultural
Umuarama-PR, 14-11-2009
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DISCÍPULOS INVOLUNTÁRIOS DE DESCARTES
críticas de Vigotski a teorias dualistas das emoções
Achilles Delari Junior
*
 
Este é um material para fins didáticos, no apoio ao trabalho de nosso grupo de estudos em teoria histórico-cultural de Umuarama, como uma primeira aproximação à teoria das emoções de Vigotski (1931-33/2004)e todo o quadro de referências que este autor submete à crítica, ainda que, como lhe é habitual, sem aofinal apresentar exatamente uma proposta completa de superação do que é criticado. De qualquermaneira, no próprio movimento de negação da psicologia tradicional realizado por Vigotski, podemosperceber o contorno das suas próprias posições, daquilo que ele afirma no próprio ato de negar. O capítulo18 da obra “Teoria das emoções”, de 1931-33, é particularmente interessante nesse sentido, por seucaráter sintético. Critica tanto a teoria das emoções de Descartes
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, quanto algumas de suas supostasoposições posteriores, que ao final das contas não podem fazer mais do que manter-se no quadro domesmo dualismo daquele pensador – seja pelo reducionismo ao fisiológico (James
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/Lange
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), seja pelaabstração a um psiquismo independente com relação aos processos neuro-funcionais (Freud
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eScheler
5
/Lotze
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). Desse modo, Vigotski aponta, ao mesmo tempo, os limites fundamentais da teoria dasemoções de Descartes e os de seus “discípulos involuntários” (VIGOTSKI, 1931-33/2004 – p. 211). Aspectosafirmativos quanto a uma postura com a qual Vigotski atina são também indicados no texto, sobretudo pormenções à visão de Chabrier
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. Sem seguir a exata ordem de exposição do texto, mas procurando manter alógica interna de sua organização conceitual, partirei aqui da comparação entre aspectos da teoria deDescartes com proposições de James/Lange, para em seguida falar de duas tentativas mal sucedidas desuperar as lacunas deixadas por tal confronto: a de Freud e a de Scheler/Lotze. Por último, apresentareialgumas anotações sobre as alusões a Chabrier, relacionando emoções com ideologia e propondo aimpossibilidade de separação substancial entre emoções inferiores e superiores. Um caminho apenasesboçado por Vigotski, cujo desenvolvimento atual talvez venha a ser de interesse para o leitor.
1 Distinção e semelhanças entre Descartes e James/Lange
Descartes James/Lange
 
Postula uma diferença absoluta entre os animais e ohomem:
 
Teoria das paixões concerne ao homem, mas namedida em que o homem é um
 
animal superior 
 
Animais Homem
 
Os animais sãocompletamente carentesde emoções
 
Só o organismo humanoexperimenta emoções
 
 
Não têm paixões da alma= já que não têm alma.
 
Paixão = vantagemdistintiva do homem
 
Trata-se de uma teoria “
 zoopsicológica
” dasemoções. E isso se apresenta nos seguintes princípios:a) origem animal das paixões humanasb) caráter comum das emoções dos animais e dohomemc) natureza inata, reflexa e animal das emoções= Toda teoria das paixões concerne ao homem = ainda permanecerá o
dualismo
, na forma de“emoções inferiores” X “emoções superiores”
*
Psicólogo e pesquisador, mestre em Educação pela Unicamp, na área “Educação, conhecimento, linguagem e arte”. E-mail:delari@uol.com.br 
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René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês.
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William James (1842-1910), filósofo e psicólogo norte-ameriano.
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Carl Georg Lange (1834-1900), anatomista dinamarquês.
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Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista judeu-austríaco.
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Max Scheler (1874-1928), filósofo alemão.
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Rudolf Hermann Lotze (1817-1881), filósofo e lógico alemão, formado em medicina, versado em biologia, precursor da psicologia.
 
Provavelmente, Joseph François Chabrier (? - ?), autor de “Les emotions et les etats organiques” - obra publicada em Paris, pela Alcan em
 
1911
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Discípulos involuntários de Descartes – críticas de Vigotski a teorias dualistas das emoções
 Achilles Delari Junior 
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2 Distinção e semelhanças entre as teorias explicativa/organicista e descritiva/teleológica
Teoria explicativa (organicista)
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Teoria descritiva (teleológica)
 
Representada por James e Lange
 
Postula uma explicação fisiológica das emoções
 
Mantém um dualismo na oposição:“emoções superiores” X “emoções inferiores”
 
Como explicar os “
valores
”, por exemplo?
 
Eles são inacessíveis ao estudo
 psicofísico
e
 psicofisiológico
 Mantém-se o dualismoExige uma complementação/correção por outra teoriaNessa vertente está a chamada “psicologia teleológica
 
Busca descrever
 
Não pretende explicar
 
Rompe com a psicologia naturalista (causal)
 
Trata-se da “Grande psicologia”
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3 Semelhança e distinções entre as teorias “teleológicas” de Freud e Scheler/Lotze
Freud Scheler
 
A “grande psicologia” impõe um enfoque distinto aoda “psicologia didática” oficial e ao da “psicologiamédica”. Sendo assim seguem-se duas orientações:1) é desnecessário conhecer as vias nervosas, paraentender, por exemplo, “o medo”.2.1) inervações motoras, sejam:a) reflexos, oub) energias2) O afeto inclui:2.2) sensação de dupla natureza:a) percepção de atividadesmotrizes realizadasb) sensação direta deprazer-desprazeros quais dão tônusfundamental ao afeto
 
Também representa uma reação à inconsistência dateoria reflexa das emoções.
 
Diferente de Freud, rechaça [totalmente] a análisecausal.
 
Desenvolve uma fenomenologia (descrição) da vidaemocional.
 
Fala em dois tipos de lei:a)
Leis causais
, relativas a dependênciaspsicofísicas – servem para os processoscorporaisb)
leis lógicas
(até então “esquecidas”), sãoindependentes do psicofísico – servem para osatos emocionais superioresMas não se deduz que isso seja a “SUBSTÂNCIA” doafeto {= o afeto pertence a outra substância}
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Os termos entre parênteses não são sinônimos dos que os antecedem. Contudo, são categorias que acrescentam às primeiras. A teoria explicativatenta explicar as emoções pela via organicista. A teoria descritiva, não pretende explicar, nesse sentido não busca determinações, não édeterminista. Segundo Vigotski, Espinosa “era um determinista” (1930/1991 – p. 87), no sentido de buscar as causas, portanto, a explicação dosfatos por sua gênese. A categoria tradicionalmente oposta à do “determinismo”, em filosofia, é a da “teleologia” (nesse contexto, ela significaocuparmo-nos dos fins, não das origens; das manifestações, não das causas). Portanto, o “teleológico” aparece aqui como adjetivo complementarao “descritivo”, o qual Vigotski também costuma denominar “fenomenológico”. “Teleológico”, é claro, não é uma categoria totalmente apropriadapara Freud, pois em alguns momentos de sua trajetória buscou abertamente o determinismo, seja no campo biológico, seja depois o determinismopsíquico como tal – entretanto, como se verá nas anotações que virão em seguida, Vigotski relaciona Freud ao teleológico justamente por ele vir arelegar a um segundo plano as determinações materiais, caindo assim numa modalidade particular de dualismo, oposto, mas complementar àquelemantido por James/Lange. Estando todos estes, nesse sentido, sob a mesma categoria de “discípulos involuntários de Descartes”.
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Vigotski não explicita o conceito de “Grande psicologia” à qual adere Freud. Talvez fosse uma psicologia voltada ao que é “grandioso” na vidahumana, o mais elevado, como os valores, a cultura, as artes. Contudo, em Freud, estes são tomados só como objeto de estudo, não como princípioexplicativo. Também talvez “grande” por pretender-se superior àquela que se presta apenas a fins didáticos, acadêmicos, o que parece mais cabível.
 
Discípulos involuntários de Descartes – críticas de Vigotski a teorias dualistas das emoções
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Scheler possui uma ética fundamentada em Pascal
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=.
ordem do coração. lógica do coração. razão do coração
 
Tal ética encontra justificação rigorosa na análise deScheler dos seguintes sentimentos.
sentimentos éticos. sentimentos sociais. sentimentos religiosos
[ter o afeto “substância” própria, está relacionado, paraVigotski, à necessidade do nascimento de uma:]
Psicologia profunda dos afetos
.
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Ela tenta preservar-se causal e determinista.
 
Mas sua causalidade é puramente psíquica [asubstância própria dos afetos é a mente, o neuro-funcional (corpo) não é a substância dos afetos].
 
Opõe-se ao superficialismo da “psicologia acadêmica”.
 
Não encontra linguagem comum com a psicologiafisiológica.
 
Freud diz não haver como debater com James/Lange{ver p. 215}.
 
Devem também ser submetidos à análisefenomenológica os seguintes sentimentos:.
sentimento de vergonha. sentimento de medo. sentimento de pavor . sentimento de honra
Há lugar para o problema da ORDEM dedesenvolvimento desses sentimentos nos planos
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:a) individual; eb) genérico.“Assim, o intento de preservar um examepuramente causal dos fatos psicológicos e, aomesmo tempo, de não levar à ruína a psicologiaconsiderada como uma ciência autônoma e denão por seus problemas nas mãos da fisiologia,obriga a psicologia profunda a reconhecer
aabsoluta independência substancial dos proces-sos psíquicos e a autonomia da causalidade psí-quica
” (VIGOTSKI, 1931-33/2004 - p. 215 – grifomeu)
 
Trata-se de uma teoria puramente descritiva dossentimentos superiores =
oposta à teoria fisiológica
 
 
Unida à metafísica e a um sistema metafísicodeterminado =
baseado na impossibilidade dededução genética dos sentimentos
 
 
Retorna à divisão cartesiana:
 paixões espirituais
x
 paixões sensíveis
Lotze
Próximo a Scheler estava [anteriormente] Lotze, autorque afirmou (mas sem desenvolver em detalhe) que:1) A vida dos sentimentos superiores tem:.
natureza intencional . natureza cognitivo-avaliativa
2) Há uma “lógica do coração”2.1 No
sentimento de valor 
das coisas (e desuas relações) => nossa
razão
tem
um meio
,sério e importante, de revelar a verdade.
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Em notas sobre intervenções de Vigotski em apresentações internas de seu grupo, entre 1931-1934, ele alude à “psicologia dos
cumes
(nãodetermina a “profundidade”, mas o “cume” da personalidade)” (1934/1991 – p. 130). Critica a “psicologia superficial” (fenomenológica) e a“psicologia profunda” (psicanalítica), que quer explicar o homem por suas “profundezas”, sua natureza subterrânea. A psicologia dos “cumes”,“elevações”, visa a compreender o ser humano a partir dele mesmo. Como em Marx: “ser radical é tomar as coisas pela raiz, mas a raiz para ohomem é o próprio homem”. Assinalemos que o “próprio homem” define-se como ser
social 
,
simbólico
e
histórico
. Em oposição à tônica da“psicologia profunda”, com seu ser humano
individual 
,
biológico
e
a-histórico
. Sete anos antes, discutindo a “Crise da psicologia”, Vigotski já notavaque “a psicanálise mostra suas tendências profundamente estáticas e não dinâmicas, conservadoras, antidialéticas e antihistóricas.” (1927/1991, p.299), o que é reiterado em 1934: “a psicologia profunda afirma que as coisas são o que eram” (VIGOTSKI, 1934/1991 – p. 130).
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Blaise Pascal (1623-1662), físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês.
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Aqui Vigotski dá a entender que haja algum lugar para o problema da gênese das emoções nesse sistema, mas logo abaixo sugere não haver talpossibilidade. Conferindo com a tradução inglesa (VIGOTSKI, 1931-33/1999), nota-se que não há uma omissão da negativa, e a tradução espanholaparece correta, não demandando confrontar com o russo, em princípio. Pode-se interpretar que o lugar para a “ordem” esteja “posto”, mas nãoesteja necessariamente desenvolvida a explicação sobre como algum sentimento derivado pode emergir com relação ao originário.

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