Hojemacau -- 30-10-2009
Trata-se, em suma, de um domínio jurídico onde não há soluções fáceis ou respostas unívocas.Um estudo de direito comparado revela diversas posições: há Estados que aceitam a extradiçãode nacionais ao passo que outros a recusam total ou parcialmente. A soberania estadual é, também aqui, o ponto de referência: ao nível do direito internacionalgeral não existe uma obrigação jurídica de prestar assistência a outros Estados. Tal obrigação,para existir, deverá resultar de tratados multilaterais, bilaterais, ou de outras fonteseventualmente aplicáveis (como Resoluções do Conselho de Segurança da ONU), sendo aindapossível prestar auxílio mesmo na ausência de qualquer instrumento, normalmente sobcondição de reciprocidade.No caso presente, não existe um acordo bilateral que regule a cooperação penal entre Portugal eMacau. O tratado de extradição entre Portugal e a China de 2007 (ratificado em 2009) não seaplica a Macau visto que se trata de matéria contida no âmbito da autonomia da RAEM e nãoestá publicado em Macau. Existe um acordo de entrega de infractores em fuga separado entrePortugal e Hong Kong e está prevista, desde 2001, a negociação de um acordo semelhante entrePortugal e Macau (por disposição inserida no acordo de cooperação jurídica e judiciária entreMacau e Portugal de 2001), que ainda não foi concluído. Ainda assim, terá interesse mencionarque o tratado bilateral entre Portugal e a China é peremptório: «A extradição será recusada se(
…
) a pessoa reclamada for um nacional da Parte requerida no momento em que o pedido deextradição é recebido» (art. 3). Visto que Pedro Chiang terá a nacionalidade portuguesa, importa chamar a atenção para o quedispõe a Constituição da República Portuguesa, no seu art. 33.°:
“
3. A extradição de cidadãosportugueses do território nacional só é admitida, em condições de reciprocidade estabelecidasem convenção internacional, nos casos de terrorismo e de criminalidade internacionalorganizada, e desde que a ordem jurídica do Estado requisitante consagre garantias de umprocesso justo e equitativo
”
. Esta redacção, que resulta da quarta revisão constitucional, nãoconfigura uma proibição absoluta de toda e qualquer extradição de nacionais, mas impõe umasérie de condicionalismos, repetidos na lei sobre cooperação judiciária internacional em matériapenal, a Lei n.° 144/99, de 31 de Agosto.Tais condicionalismos incluem desde logo uma limitação material: só no âmbito de factosqualificáveis como terrorismo ou
“
criminalidade internacional organizada
”
é que a extradição ouentrega será possível. A julgar pela nota de imprensa do CCAC de 14 de Abril de 2008, estaráexcluída qualquer questão de terrorismo, carecendo de apoio factual a alusão a explosivosconstante da página da Interpol, ao que parece. Restará apurar a questão do crime organizadointernacional. Se o requisito da criminalidade organizada estivesse preenchido (e tal parecedifícil: ao que se sabe, nenhum dos casos conexos ao processo Ao Man Long envolvecriminalidade organizada), importaria de seguida indagar os dois outros que a Constituiçãoportuguesa formula.Em primeiro lugar, surgiria a questão de saber se há reciprocidade, garantida por tratado; vimos já que não há acordo bilateral, mas esta matéria teria ainda de ser relacionada com asconvenções da ONU contra a corrupção e sobre crime organizado (em vigor em Portugal e naRAEM), e com o citado acordo de cooperação jurídica e judiciária entre a RAEM e Portugal de2001.Por fim, dever-se-ia decidir se Macau garante um processo justo e equitativo, nomeadamenteface às exigências da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, para cujo conhecimento énecessário ter em conta a vasta jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.Este ponto configuraria como que um julgamento do sistema penal de Macau, matéria damáxima sensibilidade.Porém, todo este percurso parece inviável. Em especial, a China, tal como Portugal, igualmenterejeita a extradição de nacionais. Neste ponto, os dois Estados estão de acordo.Se a extradição não puder ter lugar, que fazer? Ao abrigo do princípio aut dedere aut judicare (oEstado requerido deve extraditar ou julgar), que visa evitar espaços de impunidade (naterminologia de influência anglófona:
“
santuários
”
ou
“
safe havens
”
) o julgamento terá de terlugar em Portugal, para o que Portugal deverá solicitar a Macau os elementos necessários e aRAEM terá de adoptar as providências adequadas. No tratado bilateral de extradição entrePortugal e a China, os passos a dar são regulados nos seguintes termos: «a Parte requerida, apedido da Parte requerente, submeterá o caso à autoridade competente respectiva para efeitosde instauração de processo criminal de acordo com o seu direito interno. Para este efeito, a Parterequerente fornecerá à Parte requerida documentos e meios de prova relativos ao caso
”
.É necessário ter ainda em conta a legislação de Macau sobre cooperação judiciária internacional
http://www.hojemacau.com/news.phtml?id=36943&today=30-10-2009&type=espuma (2 of 3) [15/11/2009 12:56:27]
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