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Ciências da educação e pedagogia

Ciências da educação e pedagogia

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Published by: Claudemir de Quadros on Nov 26, 2009
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Ciências da educação e pedagogia
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Philippe Meirieu“É verdade que as ciências da educação trazem, cada uma em seucampo, a colheita de fatos verificáveis. Mas a pedagogia não é,exatamente, a ciência da educação. Ela é uma prática da decisãoconcernente a esta última. A incerteza é seu prêmio. Incertezaconjetural, aumentada pela mobilidade vertiginosa das referênciascontemporâneas; mas incerteza essencial desde que oconhecimento e a ação sejam conjugados numa teoria da prática.”
(Daniel Hameline e Jacques Piveteau. Prefácio ao livro de Neil Postman,
Ensinar é resistir 
(Paris: Le Centurion, 1981, p. 6).
A relação entre as ciências da educação e a pedagogia não é simples e areflexão sobre essa relação é cada vez mais importante. Somente esta reflexão bemconduzida pode nos permitir superar as polêmicas estéreis que são desenvolvidas,desde alguns anos, em torno dessa questão e que, apesar de absorverem umaenergia considerável, contribuem muito largamente para ‘embaralhar as cartas’ nocampo educativo.
O que é o pedagogo?
Sabe-se que o pedagogo era, na Grécia antiga, o primeiro dos escravos;aquele que tinha a confiaa do mestre, que deveria cumprir uma missãoparticularmente delicada: acompanhar a criança à escola. Mas ele não agia somentepara decidir o itinerário para levar à classe (as classes não existiam ainda, ao menostal como s as conhecemos - elas o m mais que dois culos!). Suaresponsabilidade era de outra importância, porque o pedagogo devia escolher asdisciplinas a serem ensinadas à criança (esgrima ou matemática? Natação oupoesia?), assim como os preceptores encarregados de ensinar. Na realidade, deacordo com seus mestres, ele decidia o tipo de homem que se queria formar, oequilíbrio dos saberes que deveriam ser ensinados, bem como os todos epessoas que lhe convinham melhor 
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Disponível em <http://www.meirieu.com/index.html>. Tradução livre.
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Pode ser que haja algum exagero no papel desempenhado pelo pedagogo na Grécia. Mas, se épossível que a exatidão histórica da descrição seja contestada por alguns, todos reconhecem queessa apresentação tem o mérito de constituir uma imagem forte e chamar à reflexão. Ela investe apedagogia, como dito por Daniel Hameline, sob o signo do guia: “Todo o educado, de qualquer sorte, é uma pessoa deslocada que, sob a conduta de outro deve deixar um lugar para ganhar outro”. (Enciclopédia universal, artigo pedagogia, tomo 17, Paris, 1992, p. 725).1
 
Vê-se que uma tal ‘função pedagógica’ não é, atualmente, tornada desusada,na medida em que se agita sempre - mais que nunca? - de saber qual homem nósvamos formar e como nós podemos conseguir isso. Pois, se há um fenômeno maior que caracteriza a modernidade, é o acabamento das grandes ‘teorias de referência’que permitiram fundar a educação. Com efeito, quando existe, numa sociedade,uma ‘verdade revelada’, reconhecida consensualmente ou imposta por um poder qualquer - que esta verdade seja da ordem mitológica, teológica, filosófica ou política- sabe-se ‘a quem e como educar as crianças’. Isso é tão pouco discutido que algunsoriginais como Durkheim, no século 19, qualificava de perigosas utopias. Mas,atualmente, ‘onde o céu é visto’, onde as grandes explicações histórico-filosóficas domundo (como o marxismo) não funcionam mais, onde a economia das nossassociedades liberais não são mais capazes de assegurar a inserção de todos e arestauração do laço social pelo emprego, a questão de saber ‘a quais valores, aquais saberes e por quais métodos ensinar as crianças’, tornou-se uma questãomaior para as instituições públicas e uma questão privada a qual se vê confrontadotodo educador e a qual ele deve, necessariamente, responder - ao menosimplicitamente - desde que tenha ‘uma criança sobre seus braços’. Salvo a nosprecipitarmos nos novos ‘sistemas de pensamento’ suscetíveis de nos aportar asrespostas todas prontas - tentação que não cessa de renascer e do que as múltiplasformas de ‘integralismos’ é um signo inquietante - nós somos ‘condenados à reflexãopedagógica’, mesmo que não tenhamos alguma ideia sobre o que queremos paranossas crianças.
O que caracteriza os escritos pedagógicos?
Mas, para avançar sobre esta via e nos ajudar na reflexão, afirmo quedispomos, essencialmente, de ‘tratados de pedagogia’ que emanam, sobretudo, defilósofos, aos quais se ajuntaram ‘ensaios pedagógicos’. Estes foram redigidos, namaior parte, por homens engajados e militantes, homens preocupados comdificuldades educativas do quotidiano e que nos dizem da sua revolta relacionada àsinjustas cometidas para com a inncia, de sua inquietude sobre os meiosperigosos ou insuficientes postos à sua disposição para educar os ‘pequenoshomens’, de sua preocupação de respeitá-los e prover-lhes ‘alimentação intelectual’e afeição necessárias ao seu desenvolvimento. Para simplificar e clarificar um poucoas coisas, podemos chamar esses homens de pedagogos.
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Se considera, em geral, Rousseau como o primeiro dos pedagogos da épocamoderna. Parece ser possível pensar que Rousseau é, sem dúvida, o primeiro ahaver insistido sobre a necessidade de acompanhar as criaas no seudesenvolvimento, de estimular sistematicamente sua curiosidade e de por a situaçãode construir, ele mesmo, os conhecimentos mais que receber passivamente. Éverdadeiro, também, porque Rousseau compreende o laço profundo que une‘pedagogia’ e ‘política’, métodos educativos e construção da democracia. Ele foicapaz de devolver ao indivíduo a capacidade de se emancipar de toda forma detutela e associar-se livremente com outros no seio de um ‘pacto social (não se negaque uma primeira versão do contrato social existe já no
Emílio
). Mas Rousseau é umteórico da educação que inscreve suas especulações educativas numa filosofiacoerente sem, no entanto, executá-las ele mesmo. Foi preciso a ação de seudiscípulo suíço Pestalozzi, para vermos como alguns se bateram concretamentepara por em prática suas ideias, conseguir teorizar e comprometer-se a descrever suas dificuldades.Assim, Pestalozzi, ao tentar educar os órfãos de Stans (o exército bonapartistahavia arrasado a cidade e matado a maior parte dos adultos quando Pestalozzi,adepto das ideias da revolução francesa, aceita abrir um orfanato), como DomBosco, ao recuperar ‘crianças das ruas’, ou Korczak, ao recolher crianças judias dogueto de Varsóvia, pode seguir o mesmo traço de um discurso pedagicoemanente de práticos que se envolviam com a rude tarefa de ‘educar sem obrigar’,de desenvolver as personalidades autonomamente e de dar as ferramentasnecessárias para se integrarem na sociedade, despertar as inteligências dosmoleques e de socializar todos.Isso também se pode perceber no discurso mais contemporâneo, de Freinet eMontessori: a mesma preocupação em propor métodos e atitudes educativas quepermitam à criança crescer livremente por meio da associação a seus semelhantes,numa relação nova em que a violência e arbitrariedade não regeriam mais asrelações entre os homens. Esse discurso é, muito largamente, o discursoconveniente, geralmente generoso, percebido bem pelos intelectuaiscontemporâneos como particularmente ingênuo, pleno de ‘bons sentimentosemesmo de boas intenções (daquelas que se diz que ‘o caminho para o inferno estápavimentado’). Se não são, evidentemente, discursos científicos, mas sim ‘discursosliterários’, os textos que fazem somente apelo à emão, que diabolizam osnomeados ‘métodos tradicionais’, são discursos que servem, um pouco, para
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