• Embed Doc
  • Readcast
  • Collections
  • CommentGo Back
Download
 
63
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 34 : 63-83 OUT. 2009
RESUMO
Mario Procopiuck 
REDES DE POLÍTICAS PÚBLICAS E DEGOVERNANÇA E SUA ANÁLISE A PARTIR DAWEBSPHERE ANALYSIS
1
Klaus Frey
Com o presente artigo propõe-se uma discussão sobre a Policy Websphere Analysis como abordagemmetodológica de análise de arranjos organizacionais e suas relações expressas no ciberespaço, buscandoexplicitar lógicas de políticas públicas em contexto de redes de políticas. Sob essa abordagem, serãoapresentados resultados de uma pesquisa que buscou apreender e interpretar a lógica relacional, sustenta-da em valores e normas subjacentes aos arranjos organizacionais, das práticas sociopolíticas destinadas aviabilizar a difusão social de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) em Porto Alegre e Curitiba.Será apresentada a morfologia reticular de tais arranjos, por meio de gráficos construídos a partir de sítiosde Internet e hyperlinks, que, em essência, constituem-se em meios representativos de potenciais espaços deinteração política e de valores sociopolíticos comunicados por organizações articuladas em arranjos de governança representados na esfera virtual.
 
 Entendemos que a mais importante contribuição da PolicyWebsphere Analysis para a compreensão da esfera pública contemporânea, pelo menos até este momento,consiste na possibilidade de delineamento dos novos espaços de apresentação e discussão de informações,idéias, ações e projetos, tendo estes espaços crescente importância para a atuação das redes de políticas em processos de governança pública.
PALAVRAS-CHAVE:
 Policy Websphere Analysis
;
 Hyperlink Analysis
;
Social Network Analysis
;
 RedesSociotécnicas de Políticas
;
 governança pública
.
I. INTRODUÇÃOEste artigo pretende contribuir para a discus-são sobre as possibilidades de análise de arranjosorganizacionais e suas relações expressas nociberespaço, enfatizando o potencial da
 policywebsphere analysis
como abordagem metodológicacapaz de explicitar a formação e articulação deredes de políticas públicas apoiadas na
Web
. Oestudo de complexos contextos sociopolíticos emque se articulam diferentes atores para concreti-zar ações junto a comunidades locais passa a re-querer sofisticadas abordagens metodológicas, decunho tanto qualitativo quanto quantitativo. Éimportante que tais abordagens permitam levar emconsideração aspectos sociológicos, políticos,tecnológicos e ideológicos que sustentam e dãosentido aos fluxos informacionais estruturantes dearranjos organizacionais sob lógica reticular. Nesses arranjos, a interatividade comunicati-va passa crescentemente a catalisar forças com potencial de gerar, ampliar e democratizar novosespaços de governança pública emergentes da for-mação de constelações sociopolíticas compostas por atores públicos, semipúblicos e privados, to-dos com interesses diversos, mas convergindo para determinadas esferas da vida sociopolítica. Nessa perspectiva é que, em termos teóricos, pro- põe-se, neste artigo, a abordagem da
 Policy
1
Este artigo está baseado em resultados dos projetos de pesquisa
Governança e redes sociais na era digital 
, sobcoordenação do Professor Klaus Frey e financiado peloConselho Nacional de Desenvolvimento Científico eTecnológico (CNPq);
 Redes técno-sociais e a gestão demo-crática da cidade
, com coordenação-geral da ProfessoraTamara Egler (cf. EGLER, 2006), que contou com o apoiodo Fundo Regional para o Desenvolvimento da Internet para a América Latina e o Caribe (FRIDA-LACNIC); e daDissertação de Mestrado em Gestão Urbana, de MarioProcopiuck, apresentada na Pontifícia Universidade Cató-lica do Paraná (PUC-PR) (cf. PROCOPIUCK, 2007). Uma primeira versão deste artigo foi apresentada no SeminárioTemático 25 – Políticas públicas: métodos e análises
– 
,
 
doXXXI Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), reali-zado entre 22 e 26 de outubro de 2007, em Caxambu, Mi-nas Gerais.
Rev. Sociol. Polít.
, Curitiba, v.
17
, n.
34
, p. 63-83, out. 2009Recebido em 2 de fevereiro de 2009.Aprovado em 25 de fevereiro de 2009.
 
64
REDES DE POLÍTICAS PÚBLICAS E DE GOVERNANÇA
Websphere Analysis
 para a identificação, delinea-mento e análise das emergentes esferas públicasvirtuais que se formam em torno de políticas pú- blicas específicas.Como tentativa de melhor compreender a rea-lidade das estruturas relacionais delineadas nociberespaço por organizações atuantes na políticade difusão social de Tecnologias de Informação eComunicação nas cidades de Curitiba e Porto Ale-gre, o presente artigo, com base na análise de da-dos obtidos em pesquisa empírica, tem por obje-tivo: 1) apresentar métodos de aplicação da abor-dagem
 Policy Websphere Analysis
para identifi-car, visualizar e analisar as novas configuraçõesde redes sociotécnicas de políticas; e 2) apresen-tar e analisar uma rede de atores de governança, procurando compreender as relações, expressasno ciberespaço, entre organizações do setor pú- blico, do setor privado e do terceiro setor comrelevância para a governança no âmbito da políti-ca em questão.II. ABORDAGEM TEÓRICO-CONCEITUALPARA O ESTUDO DAS REDES SOCIOTÉC- NICAS DE POLÍTICAS Nesta seção do trabalho são inicialmente apre-sentados alguns fundamentos da análise de políti-cas públicas; na seqüência, é discutida a aborda-gem das redes de políticas públicas comoferramental de análise das novas práticas degovernança em sistemas sociais policêntricos; fi-nalmente, pretendemos formular o atual desafioinerente ao estudo de redes sociotécnicas de polí-ticas.Com vistas a explicitar efeitos e explicar leis e princípios próprios das políticas, os estudos en-volvendo políticas públicas no Brasil, principal-mente até as últimas décadas do século passado,tenderam a ser descritivos e com distintos grausde complexidade analítica e metodológica. Muitasvezes foram conduzidos de modo dissociado demacroprocessos, centrando-se emmicroabordagens tendentes a realçar análises es-truturais com foco voltado para instituições, ou procuravam delinear processos de negociação res-tritos a políticas setoriais específicas (FREY, 2000, p. 213-214).Mais recentemente, como alternativasmetodológicas para a investigação de políticas públicas, foram propostas novas abordagens,como o fez Frey (2000) ao tratar da
 Policy Analysis
como instrumento analítico capaz de re-alçar a dinâmica relacional típica de políticasconflitivas que se desenvolvem em contextossociopolíticos crescentemente interativos e nosquais diferentes tipos de atores buscam alcançar,ao mesmo tempo, resultados particulares e coleti-vos. A
 Policy Analysis
 permite,
 
 pois, abordar si-multaneamente as inter-relações institucionais, os processos políticos e o conteúdo da política arti-culada.A
 Policy Analysis
compreende procedimentosmetodológicos que visam identificar e apreender elementos formadores ou constitutivos da com- plexa esfera de ação sociopolítica em distintas ati-vidades analiticamente manejáveis. O enfoque da
 Policy Analysis
permite descrever as relações in-ternas e os contornos externos, por mais tênuesque sejam, das redes político-administrativas com- postas por diferentes tipos de atores pertencentesao setor público, ao setor privado e à sociedadecivil organizada.A abordagem em questão permite a observa-ção de microprocessos sem ignorar sua inserçãoem macroprocessos de elaboração e execução de políticas e de programas articulados em uma es-fera pública ampliada. Com isso, facilita a identi-ficação das instituições envolvidas, das perspecti-vas estratégicas por elas adotadas e dos fluxos dediferentes recursos que as ligam e as tornaminterdependentes em processos sociopolíticos particulares, para cujas características o foco deanálise é voltado.A
 Policy Analysis
, portanto, tem por objetivouma melhor compreensão da complexidaderelacional, cada vez mais interativa e dinâmica, dosistema político-administrativo em ação, ou seja,na elaboração e execução de políticas públicas.Além disso, oferece importantes instrumentosavaliativos desenhados especialmente para a ob-tenção de subsídios para o aprimoramento da ges-tão pública e dos processos políticos ao permitir  pôr em evidência o posicionamento dos diferen-tes atores e os efeitos de suas decisões no seuentorno relacional.Com este enfoque da
 Policy Analysis
, é pos-sível, por conseguinte, ampliar a abrangência ana-lítica, superando limitações impostas pelas abor-dagens que se restringem a considerar isolada-mente a dimensão institucional (
 polity
) ou a di-mensão político-processual (
 politics
) da política.
 
65
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 34 : 63-83 OUT. 2009
A
 Policy Analysis
caracteriza-se justamente por  permitir a confluência dessas duas dimensões eseu tratamento concomitante com a dinâmica dasações estratégicas envolvidas em redes (FREY,2000; MARQUES, 2003, p. 18), sendo estasestruturadas com lastro em valores simbólicos queinterferem nos fins da articulação coletiva, nosfluxos materiais e imateriais e nos meiosrelacionais, utilizados com propósitos voltados aoalcance de objetivos conjuntos em dados contex-tos sociopolíticos.A abordagem das
redes de políticas
, por umlado, oferece bases teórico-conceituais que per-mitem a apreensão, com maior grau de objetivi-dade, de processos e estruturas na elaboração eexecução de políticas públicas, os quais ocorremem um ambiente político de crescente fluidezinstitucional. Por outro lado, passam a oferecer ferramental metodológico que permite apreender relações empiricamente observáveis e, a partir dis-so, representar agrupamentos (
clusters
), proces-sos de intercâmbio de recursos, fluxos de influ-ências, interdependências de metas e objetivos; e,finalmente, analisá-los sob as diferentes perspec-tivas dos atores envolvidos. Com isso, é possíveldefinir e analisar posicionamentos dos atores co-letivos ou individuais na respectiva estruturareticular, sendo esta estrutura constituída a partir da confluência de interesses condicionados por valores coletivos comuns e, pelo menos parcial-mente, conflitantes.Em termos metodológicos, sob a perspectivadas
redes de políticas
, em primeiro lugar, é identi-ficado o conteúdo a partir do qual se define o con-texto e o escopo em que os jogos políticos sãotravados e, subseqüentemente, é possível a apre-ensão de ações colaborativas relacionadas a pro-cessos interativos convergentes para determina-das assuntos ou interesses. Ao tratar processual-mente tais interações, como constitutivas do ci-clo das políticas, as
redes de políticas
podem ser vistas sob influências de conjuntos de regras for-mais e informais que governam as interações en-tre o Estado e os interesses organizados. Essasregras, nesse processo, podem ser qualificadascomo instituições por normalmente serem de na-tureza geral, basearem-se em práticas e significa-dos compartilhados, serem de conhecimento damaioria dos atores e por se estruturarem e estabi-lizarem-se em decorrência de repetitivas interaçõesem redes (MARCH & OLSEN, 1994, p. 250).Essas regras constituem-se em condicionantes queservem de diretrizes para o comportamento es-tratégico dos atores políticos, voltado ao delinea-mento e execução de ações formais e informaisdesses atores em determinada esfera ou setor da política.Considerando concomitantemente o conteúdomaterial que define o escopo de uma dada políticae seu âmbito institucional, que interfere na sualógica e dinâmica processual, torna-se possívelidentificar e analisar as configurações de redestemáticas, de maior ou menor grau de abertura. Aestrutura relacional típica das redes de políticas é passível de se revestir de identidade própria, fren-te a outras configurações, pela possibilidade da participação ser tendencialmente mais ampla eaberta. O fluxo de entrada e saída de atores, cadaum com seus diferentes pontos de vista sobre osresultados, tende a tornar as interações fluídas eformar uma ampla gama de centros instáveis detomada de decisão. Em contrapartida, há menoscontatos formalmente institucionalizados entregrupos e governos – portanto, menos regras for-mais a serem necessariamente seguidas. Logo,tendem a existir tentativas de imposição de pon-tos de vista e/ou negociações de compromissosno processo de tomada de decisão, uma vez que aunanimidade é raramente possível. Os canais decomunicação são caracterizados por os atores poderem expressar publicamente suas opiniões,sem, contudo, possuírem qualquer garantia de queserão seguidos pelos demais. Isso dependerá daforça de convencimento de seus argumentos e dacredibilidade e reputação institucional ou pessoalde cada ator. Nas
redes temáticas abertas
, a re-compensa dos atores reside na possibilidade deinfluenciarem os resultados da política.Diante de tais características é mais provávelque nessas redes a elaboração de políticas de ca-ráter público seja mais plural e com tendência amaiores possibilidades de conflitos. Aliado a isso,elas tendem a desenvolver-se geralmente em no-vas áreas em que inexiste um grupo dominante eonde não há instituições formalmente estabelecidasque possibilitem a exclusão de interessados(BLOM-HANSEN, 1997, p. 676; EVANS, 1998;KLIJN, 1999; ZURBRIGGEN, 2005). Nas novasarenas públicas interativas em surgimento, os ato-res buscam, portanto, interferir estratégica e arti-culadamente em diferentes dimensões da políticacom vistas a formular, defender e selecionar cur-
of 00

Leave a Comment

You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...
You must be to leave a comment.
Submit
Characters: ...