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Cap04

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07/09/2014

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CVRVV · A REGIÃO DEMARCADA DOS VINHOS VERDES UM SÉCULO DE HISTÓRIA 
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 A economia é essencialmente agrária.Baseia-se na terra, que fornece o necessário.Esta exigência de subsistência é, de talmodo, a base da economia medieval que,na Alta Idade Média, quando ela seinstalou, se procurou pôr cada famíliacamponesa - unidade socio-económica -numa parcela-tipo de terra, aquela quepermitia a uma família normal viver. Éimpossível ter uma ideia desta grandeRegião, se não se tiver em conta o complexode condições histórico-sociais queinfluenciaram a pulverização deexplorações agrícolas e a natureza dapropriedade actual. Estes factores tiveramextrema importância na forma de culturada vinha tradicional. A configuração geral desta propriedade,ainda hoje é semelhante à forma adquiridano tempo da Reconquista, pela divisão daantiga unidade rural dos romanos - a villa,que corresponde aproximadamente àactual freguesia. Esta forma de propriedademanteve até às normativas europeias, comas consequentes reestruturações, a suafisionomia tradicional. Até ao terceiro quartel do século XX, omodelo de exploração confinava-se a umconjunto de terras de diversa natureza -lameiro, regadio, sequeiro, e oscorrespondentes montados - capazes desustentar uma típica família rural. Dadasas necessidades de subsistência e de umadensa população, sempre houve aqui umagrande variedade de culturas ondepredominavam essencialmente os cereaise a criação de gado. A vinha era relegadapara as bordaduras dos terrenos,manifestando-se através do «enforcado»ou do «arejão» e aproveitados os caminhospara sustentar as tão conhecidas «ramadas».É compreensível que descubramos nacultura da vinha e na produção de vinho,mais de que uma actividade e umcomplemento económico familiar, amanifestação de um cerimonial, umaatitude de identificação cultural e afirmaçãosocial, em que o vinho produzido assumepapel de um verdadeiro cartão de visitaque pretextua longas conversas e se dá aprovar aos amigos... (Miguel MeloBandeira)
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.
9
 A vinha e o vinho
, património paisagístico do Minho,Braga, ASPA, 1994.
 A PROPRIEDADE RURAL DO ENTRE-DOURO-E-MINHOE A INTENSIFICAÇÃO DA CULTURA DA VINHA 
 
CVRVV · A REGIÃO DEMARCADA DOS VINHOS VERDES UM SÉCULO DE HISTÓRIA 
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NOTÍCIA DA PRIMEIRA EXPORTAÇÃO
Segundo o Visconde de Villarinho deS. Romão, num excerto da sua obra
O Minhoe suas Culturas
, escrevia que:
«... as exportações, principalmente as do Minho, datam de ephocas bem mais remotas que muitos julgam, sendo iniciadas pelos pescadores do Norte, que desde tempos immemoraveis exerciam sua arriscada industria nas costas da Gran--Bretanha. Os portuguezes, como primeiros navegadores, foram os que na Europa firmaram a nova orientação commercial, referindo auctorisados escriptores que muito antes dostratados firmados por Eduardo III, em 1353, jáos portugueses traficavam em vinhos com a Inglaterra».
Com o florescimento das relações comerciaisentre Portugal e a Inglaterra, durante o séc.XIV, após a Guerra dos Cem Anos, o nossopaís já exportava vinho. Com a assinaturado Tratado de Windsor, em 1396, foramcriadas as condições propícias à actividadecomercial. E terá sido por Viana do Casteloque se iniciou o tráfico de vinhos oriundosde Monção e da Ribeira Lima, durante oreinado de D. Afonso IV, mais precisamentepor volta do ano 1353. Rumavam à TerraNova e eram trocados por bacalhau. Nessetempo, a fronteira portuguesa seguia aolongo do rio Minho até perto de Ourense,o que justificaria o que o cronista DuarteNunes de Leão escreveu «os riquíssimosvinhos de Monção e Ribadávia, como bebidade nobres».Nesta região, as exportações cresceramsubstancialmente a par do incremento daprópria viticultura incentivadas,principalmente, pelo predomínio da colóniainglesa que se havia instalado em Viana doCastelo e cujos agentes fiscalizavam asculturas, limitando as zonas de melhorqualidade. Os livros da alfândega, datadosde meados do séc. XVI, e os acórdãos daCâmara, dão-nos notícia de exportação devinhos e respectivas taxas.Na comunicação que apresentou nas Jornadas Vitivinícolas de 1962, escreve oConde D’Aurora
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: «O curioso livroseiscentista (1613) -
The book of carning and serving and all the feasts if the year for the serviceof a Prince or other estate
 - fala-nos, entreoutros vinhos servidos na Grã-Bretanha,do célebre Orey, nome que davam os britânicos ao Vinho Verde». Segundo oConde, «indubitavelmente foi o de Monção,vinho verde - eager wine - e não o actual Alvarinho, pois era vinho tinto ou, antes,clarete, devido às castas pouco tintureiras(estas últimas só apareceram após a invasãoda filoxera)»
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.O volume das exportações, principalmentepara Flandres, Inglaterra e Mar do Norte, justificaria o estabelecimento de uma ououtra feitoria inglesa em Monção e Vianado Castelo:«Entre outras casas, devo mencionar a quefoi dos Condes da Barca, no largo do SantoHomem Bom, ainda existente e onde atéhá pouco foi a sede da firma britânica HuntRoop Teage & C.º, grande importadora de bacalhau e exportadora de Vinho Verde». A influência inglesa foi incontestável parao mercado dos vinhos portugueses. Estaimportância é bem notória pela leitura dacorrespondência e diário do inglês ThomasWoodman, mandado em 1703 pelo pai aViana, para se informar de preços, colheitas,qualidades e escolha dos vinhos a importar.Segundo Woodman, foram eles quemandaram vir tanoeiros ingleses paraensinar, em Monção, a fazer barris deexportação, apesar de existirem tanoeirosnacionais, pelo menos, desde 1448 emSantarém e em Viseu (Cerqueira Machado).Depois da Restauração de 1640 e com aperda da margem de Ribadávia, assiste-sea uma diminuição da exportação pela barrade Viana a ponto de desinteressar ospróprios ingleses. O certo é que as firmas britânicas que mantinham o comércio deViana e do Porto foram-se fixando no Douroe abandonando a região de Monção, aindaque continuassem a levar alguns dosmelhores vinhos desta Região para umaclientela mais exigente. Este prestígio foi--se mantendo, mais ou menos inalterável,até à criação da Real Companhia Vinícolado Norte de Portugal.
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 Itinerário do primeiro vinho exportado de Portugal para a Grã-Bretanha
 [Jornadas Vitivinícolas], CVRVV, 1962.
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Refere ainda a expressão do tratadista Vilarinhode São Romão «a tradição de as castas haverem sido trazidas de Borgonha, pelo Duque de Borgonha».
 A PROPRIEDADE RURALDO ENTRE-DOURO-E-MINHOE A INTENSIFICAÇÃODA CULTURA DA VINHA 
 
CVRVV · A REGIÃO DEMARCADA DOS VINHOS VERDES UM SÉCULO DE HISTÓRIA 
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BASES DE UMA POLÍTICA COMERCIAL
É a partir de 1640, com a restauração daindependência, que, em quase todas asprovíncias de Portugal, se difunde o cultivoda vinha. Por esta altura já eram notáveisos vinhedos de Trás-os-Montes e AltoDouro e os do Entre-Douro-e-Minho. Ocomércio interno e externo do vinho nacidade do Porto, a partir do século XVII,era abastecido principalmente pelos vinhosproduzidos nestas regiões.Os vinhos do Douro chegavam em barcasaté à cidade, e os do Noroeste faziam-sepor via terrestre, em carros de bois até aoVale do Ave e depois, com recurso àcabotagem, pelas vias fluviais navegáveis aNorte deste rio. Estas, eram de primordialimportância, e sabe-se que o vinho eratransportado sobretudo pelos rios Cávado,Lima e Minho.Em 1654, é fundado no Porto o primeiro
 sindicato do vinho
, e é nessa época que secomeça a estabelecer a distinção entre
vinhocomum
, de consumo local, e
vinho fino
 ou
 generoso
, destinado à exportação para aFlandres e Inglaterra.Os vinhos, verdes ou maduros, ao entrarou ao sair do burgo pagavam a respectiva
 sisa
, imposto que era cobrado peloMunicípio e destinado a subsidiar as obraspúblicas, tais como rompimento de novosarruamentos, arranjos de praças, jardins,miradouros, aquedutos, fontanários,calçadas e tantos outros melhoramentoscitadinos. (Pinto Ferreira)
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Durante o século XVII intensifica-se ocomércio de exportação efectuado pela barra do Douro para o Brasil, Portugalinsular e ultramarino. Esta intensificaçãodo comércio teve como consequêncianatural, o surgimento de novas plantaçõesque contribuíram para o alargamento dacultura da vinha no NW.Em 1703, celebra-se em Lisboa o Tratadode Methwen, assinado por Monteiro Paim,em nome de D. Pedro II, e por JohnMethwen, embaixador do governo inglês.Neste tratado, anula-se a proibição feitaem 1684 e 1685 da entrada no nosso paísde panos ingleses com a condição dosvinhos portugueses entrarem em Inglaterrapagando apenas 2/3 da taxa que pagariamos vinhos franceses.Os vinhos do Dão, Bairrada, Monção,Ribeira Lima e Algarve foram, na primeirametade do século XVIII, sériosconcorrentes do vinho do Douro.«Em 1731, através do Porto da Figueira,sem contrabando nem patente de vinhodo Porto, saíram 400 pipas para aInglaterra.O comércio e a cultura dos vinhos do AltoDouro estavam ameaçados por dois factorescuja acção se acentuava cada vez mais, e,em particular, a partir da assinatura doreferido Tratado: a concorrência naInglaterra dos vinhos de outras regiõesportuguesas e o desenvolvimento docomércio vinícola com as colónias, foramfactores que estimularam intensamente acultura da vinha no reino» (HelderMarques)
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.Este crescimento do consumo sobretudono século XVIII, que ocorre igualmentenoutros países europeus, e que se acentuaainda pelo aumento da população urbana,é designado por Enjalbert como o períododa democratização do vinho.
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 A economia do vinho e o crescimento do Porto nos séculos XVII ao XIX 
, Porto, in O Vinho na História Portuguesa Séc. XIII-XIX [Ciclo de Conferênciaspromovido pela Academia Portuguesa da História], Porto, FEAA, 1982.
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 Região Demarcada dos Vinhos Verdes. Ensaio de  geografia humana
, Porto, FLUP, 1985.
 A PROPRIEDADE RURALDO ENTRE-DOURO-E-MINHOE A INTENSIFICAÇÃODA CULTURA DA VINHA 

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