preparatório, para a formação de laços estáveis e seguros para a promoção de uma‘verdadeira família’.
Vargas, em seu estudo sobre as representações de mulheres de camadas popularessobre a necessidade de se ter um filho, apontou uma característica peculiar na relação entrea temporalidade de uma relação conjugal e a perenidade de um filho. A autora refere que asmulheres que participaram de sua pesquisa informam sobre a existência de uma relaçãomais permanente e duradoura com o filho que desejavam, a qual se contrapõe à relaçãoconjugal concebida como temporária, provisória e predestinada à finitude.
Tal observação é importante para analisarmos o critério da conjugalidade eestabilidade para o acesso à RA. Esse critério formal não encontra seu correspondente nasrepresentações de família entre casais de classes populares que passam pelos processos deRA, como observou-se no trabalho citado de Vargas. Como se verificou na análise dos projetos de leis que tratam da regulamentação das práticas em RA, o critério daconjugalidade e a estabilidade é recorrente.
A família consta como referência importante na construção das identidades, tantoem camadas médias – orientadas em uma perspectiva individualista – como nos chamadossegmentos populares – orientado por
ethos
considerado tradicional.
Inserida nesta lógica diferenciada para constituição das identidades entre segmentos populares e a classe média está a hierarquização das mulheres entre aquelas que ‘não
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A expressão ‘verdadeira família’ não pretende eleger, tão pouco estabelecer critérios para a determinaçãodaquilo que possa ser considerado uma família de verdade. Ao contrário, aponta para a dificuldade que se temem vislumbrar e reconhecer diferentes estilos de vida familiar, como o trabalho pretende demonstrar.
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VARGAS, Eliane Portes. Op. Cit., p. 321
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Na narrativa daquelas mulheres, a autora observou que o desejo de ter filhos está apoiado na idéia dereprodução familiar e de continuidade de valores geracionais aprendidos. A continuidade dos laços se dá emfunção da percepção/responsabilização das mulheres em função dos limites demarcados do seu papel nafamília. Não é a conjugalidade por si, como ordinariamente se poderia crer, que estabelece o elo, o vínculoque garantiria a estabilidade e a segurança jurídica nas relações.
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O que diferencia estes dois universos, segundo Vargas, é o fato de que, nos segmentos nos quais o valor indivíduo é prevalente, a construção das identidades ocorre antes por contraste do que por similaridade. Nascamadas populares, ao contrário, a referência ao universo familiar se impõe, e sua relevância recai namanutenção e continuidade dos laços com a família de origem.Cf. VARGAS, Eliane Portes. Op. Cit., p. 322.
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