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2. A PLURALIDADE FAMILIAR E O PROJETO MONOPARENTAL
A demanda por filhos é atravessada por discursos que se inscrevem no planonormativo sobre maternidade e no plano axiológico das práticas dos sujeitos noagenciamento dessas questões. Embora a reprodução se apresente para os sujeitos comouma opção, haja vista a dissociação com o exercício da sexualidade por meio dos recursoscontraceptivos e da RA, ela recoloca em questão, de forma permanente, a família. Aexistência de tensões na atualidade, dentro do núcleo conjugal, parece não significar umenfraquecimento da família enquanto modelo. Ao contrário, a própria intensidade dosconflitos em torno da instância familiar confirma a sua relevância.De acordo com o jurista português Otero, o homem está diante de uma situação querepresenta uma ‘subvero da tradicional distinção entre pessoa e coisa’. Em tal‘encruzilhada existencial’, o autor justifica o protagonismo médico e jurídico, emborareconheça, por outro lado, o desconhecimento ou a falta de argumentos norteadores paratratar o dilema posto.
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Por outro lado, como vimos anteriormente, a antropóloga francesa Héritier sugereque as fórmulas de RA que nós chamamos ‘novas’ - doação de óvulos ou esperma e ventrede aluguel - eram fórmulas que já existiam em outros tempos e em outras sociedades.
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OTERO, Paulo.
 Personalidade e identidade pessoal e genética do ser humano: um perfil constitucional dabioética
. Coimbra: Almedina, 1999, p. 14.
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 Nesse sentido, propõe-se a seguinte questão orientadora: quais os pressupostosinformativos e formativos para o conceito/representação de família, que estão presentes na jurisprudência, na literatura jurídica e nos projetos de leis que tratam da regulamentação doacesso às tecnologias de reprodução medicamente assistidas?Ocorre que, no mundo dos fatos, existem vários conceitos/representações sobrefamília operando concomitantemente. Entretanto, quando se pensa em fixar um padrãoconceitual, moral e normativo de configuração familiar, há um modelo que se pretendehegemônico e, do ponto de vista político, mais desejável em relação aos demais. Essahipótese é mais visível quando se trata do acesso às tecnologias conceptivas, pois elasenvolvem muito mais que práticas individuais autonomamente desenvolvidas, em relaçãoàs quais já não se cogita uma censurabilidade, notadamente no que diz respeito aos direitosde filiação dos filhos. O recurso à RA envolve um elemento complicador: a possibilidadede deliberação quanto à exigência/necessidade de um pai e de uma mãe para o ser geradosob os auspícios do uso da tecnologia médica disponível (mesmo que ainda não o seja paratodos). Nesse sentido, a pertinência da discussão aqui proposta apóia-se no dado primordialque diz da relevância e necessidade da família confrontando-se com desenvolvimentotecnológico, com moralidades distintas e com as limitações normativas e contingenciais dasrelações entre homens e mulheres.Há que se destacar entre essas construções normativas as diferentes percepções quehomens e mulheres têm em relação a uma demanda por filhos. Essa diferença é importante porque desmitifica a idéia de que é o par conjugal que assegura e garante as condições paraa formação de um núcleo familiar. O que se observa é que não necessariamente a existênciado par, da relação conjugal – seja em um casamento formal ou em uma união estável – é ocritério decisivo para a constituição de uma base, no sentido de um momento prévio e43
 
 preparatório, para a formação de laços estáveis e seguros para a promoção de uma‘verdadeira família’.
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Vargas, em seu estudo sobre as representações de mulheres de camadas popularessobre a necessidade de se ter um filho, apontou uma característica peculiar na relação entrea temporalidade de uma relação conjugal e a perenidade de um filho. A autora refere que asmulheres que participaram de sua pesquisa informam sobre a existência de uma relaçãomais permanente e duradoura com o filho que desejavam, a qual se contrapõe à relaçãoconjugal concebida como temporária, provisória e predestinada à finitude.
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Tal observão é importante para analisarmos o critério da conjugalidade eestabilidade para o acesso à RA. Esse critério formal não encontra seu correspondente nasrepresentações de família entre casais de classes populares que passam pelos processos deRA, como observou-se no trabalho citado de Vargas. Como se verificou na análise dos projetos de leis que tratam da regulamentação das práticas em RA, o critério daconjugalidade e a estabilidade é recorrente.
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A família consta como referência importante na construção das identidades, tantoem camadas médias – orientadas em uma perspectiva individualista – como nos chamadossegmentos populares – orientado por 
ethos
considerado tradicional.
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Inserida nesta lógica diferenciada para constituição das identidades entre segmentos populares e a classe média está a hierarquização das mulheres entre aquelas que ‘não
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A expressão ‘verdadeira família’ não pretende eleger, tão pouco estabelecer critérios para a determinaçãodaquilo que possa ser considerado uma família de verdade. Ao contrário, aponta para a dificuldade que se temem vislumbrar e reconhecer diferentes estilos de vida familiar, como o trabalho pretende demonstrar.
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VARGAS, Eliane Portes. Op. Cit., p. 321
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Na narrativa daquelas mulheres, a autora observou que o desejo de ter filhos está apoiado na idéia dereprodução familiar e de continuidade de valores geracionais aprendidos. A continuidade dos laços se dá emfunção da percepção/responsabilização das mulheres em função dos limites demarcados do seu papel nafamília. Não é a conjugalidade por si, como ordinariamente se poderia crer, que estabelece o elo, o vínculoque garantiria a estabilidade e a segurança jurídica nas relações.
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O que diferencia estes dois universos, segundo Vargas, é o fato de que, nos segmentos nos quais o valor indivíduo é prevalente, a construção das identidades ocorre antes por contraste do que por similaridade. Nascamadas populares, ao contrário, a referência ao universo familiar se impõe, e sua relevância recai namanutenção e continuidade dos laços com a família de origem.Cf. VARGAS, Eliane Portes. Op. Cit., p. 322.
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