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1.2 – ASPECTOS ÉTICOS, DEONTOLÓGICOS E JURÍDICOS EM DOENTES COMVIH/SIDAHá 25 séculos, adiantava já Hipócrates, no Juramento que aos médicos do seutempo propunha, iniludíveis pilares éticos, em que apelava ao modelo da virtude(“exercerei a minha profiso com pureza”); recusava a maleficiência (“oadministrarei venosos nem pessários abortivos”); afirmava a beneficiência (“quandoentrar numa casa não levarei outro propósito que não seja o bem e a saúde do doente”);chamava a atenção para a finalidade do agir (“tratarei os doentes da forma que lhes sejamais proveitosa”); lembrava a confidencialidade (“guardarei reserva de quanto vir eouvir”); enunciava a dignidade e atendia a vulnerabilidade (“o cometereiintencionalmente faltas injuriosas ou acções corruptoras, evitando principalmente asedução das mulheres jovens, livres ou escravas”).Segundo Almeida (2003, p. 6)
alicerçado no respeito primeiro que ao ser humano era devido, propunha aos médicosuma atitude de bondade e de serviço, numa quase oblação que só encontrava paralelo na maisamorosa figura paternal. Mais que o “médico-amigo”, era proposto o “médico–pai” que ao seu filho prodigaliza o melhor da sua vida.
Já de um trecho do Juramento de Florence Nightingale (1983), citado por Leone,Privitera e Cunha (2001, p.383), “Comprometo-me solenemente diante de Deus e das pessoas desta assembleia a passar toda a minha vida a exercer fielmente a minha profissão (…). Dedicar-me-ei completamente ao bem-estar daqueles que foremconfiados aos meus cuidados”, transparece a exigência de uma reflexão ética naenfermagem.Por outro lado, se a “responsabilidade essencial do enfermeiro é assegurar umaassistência personalizada e global ao indivíduo, à família e à comunidade” (AcordoEuropeu de Estrasburgo, 1973), ajudando com todas as suas forças a pessoa que está emnecessidade, ele não pode prescindir, na prática, de uma reflexão sobre os juízos devalor, devendo qualificar as suas acções sob os aspecto do bem que se deve fazer e domal que se deve evitar.Como refere Leone, Privitera e Cunha (2001, p.383)
desde 1983 até hoje, a enfermagem sofreu muitas transformações, dilatando o seu campo de acção e ressentindo-se do desenvolvimento da biomedicina e daevolução cultural em questões de saúde. Agora, exige-se do enfermeiro não só umaboa preparação técnico-científica, mas também um melhor conhecimento dos problemas éticos.
 
Spagnolo, Di Pietro e Fasanella, (1991), citado por Leone, Privitera e Cunha(2001), perante essas exigências e para melhor definir as normas de comportamento profissional, foram propostos, a seu tempo, diversos Códigos de Deontologia aplicada àenfermagem, quer a nível nacional, quer internacional, e, nas escolas para enfermeiros profissionais, dedica-se um espaço cada vez mais amplo ao ensino da ética profissional.Todavia, os Códigos de deontologia profissional não abrangem toda a ética, jáque parte desta ética se refere essencialmente a todos os valores do Homem e só outra parte se limita a sublinhar os deveres do profissional, inspirando-se em princípiosmorais baseados em teorias éticas diferentes e favorecendo opções operativas que,muitas vezes, se opõem umas às outras.De acordo com Sgreccia (1991) citado por Leone, Privitera e Cunha (2001, p.383)
(…) enquanto profissão empenhada numa assistência personalizada (que visao doente na sua unicidade e irrepetibilidade individual) e global(que considera todoo contexto em que o paciente vive, para melhor compreender as suas necessidades),a enfermagem deve ter como referência primária o próprio Homem, o valor da pessoa humana, desde a concepção até à morte, e exigir a participação do pacientena própria gestão das decisões sobre a sua saúde, e ver, na vida física e corporal, ovalor em que se baseiam os outros valores da pessoa.
Leone, Privitera e Cunha (2001, p.384) referem que
do reconhecimento de uma exigência na área da enfermagem, deriva aurgência da formação ética dos enfermeiros, como meio importantíssimo paramanter sempre vivos os profundos ideais ínsitos, desde sempre, no serviço deenfermagem, ideais que nunca poderão desaparecer, enquanto a Humanidade sededicar à assistência dos doentes.
A pessoa como sujeito de direitos e deveres
Para Pacheco (2002), a pessoa é um ser único, singular, livre e autónomo. Ser único e singular porque, apesar de cada pessoa – enquanto ser biológico – ter emcomum vários aspectos, todos eles inticos em qualquer ser humano, ésimultaneamente diferente de todas as outras pessoas. Ser livre e autónomo por estar dotado de liberdade e vontade própria, o que lhe confere desde logo direito à suaautonomia e a participar em todas as decies que lhe dizem respeito. Estascaracterísticas específicas de todos os seres humanos levam-nos imediatamente aafirmar que qualquer relação entre pessoas é sempre muito mais complexa, na medidaem que, por um lado somos também todos seres com autonomia e vontade própria.
 
Segundo a mesma autora, em toda e qualquer relação interpessoal torna-senecessário que cada ser humano seja capaz de respeitar a pessoa do outro na suaalteridade, o que passa por reconhecer os limites da sua própria liberdade. Pode-se entãoconcluir que toda a relação entre pessoas implica sempre direitos e deveres de cada umadas partes. De facto, toda a pessoa tem direitos, que decorrem da sua liberdade eautonomia, e também tem deveres, decorrentes não só da sua consciência moral masainda do respeito pela liberdade e autonomia daqueles com quem se relaciona. Neste sentido, ainda para Pacheco (2002), numa relação no contexto doscuidados de saúde, podemos falar em direitos e deveres de todos os profissionais desaúde, contemplados nos respectivos códigos deontológicos, e também em direitos edeveres dos utentes. Deste modo, quando analisamos e confrontamos a Carta dosDireitos e Deveres dos Doentes com os Códigos Deontológicos dos profissionais desaúde, verificamos que há uma correspondência manifesta entre os direitos dos doentese deveres dos enfermeiros.Para a Comissão Nacional para a Humanização e Qualidade dos Serviços deSaúde, que se encontra sob a tutela do Ministério da Saúde, todas as pessoas têmdireitos e esses direitos são indiscutíveis e inalienáveis, encontrando-se descritos naDeclaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada em 1948 pelas Nações Unidas, eestão garantidos pela Constituição da República Portuguesa. Quando alguém adoecenão perde nem vê diminuídos os seus direitos de cidadania, mas a circunstância de estar doente, por breve prazo ou de forma crónica, atribui maior importância a alguns dessesdireitos e confere características especiais a certos direitos fundamentais, dadas as suasconsequências práticas para o doente. Neste sentido, fala-se em direitos do doente, não por a falta de saúde conceder novos direitos, mas apenas por a situação de doença exigir uma aplicação especial dos direitos universais, entre os quais se conta com o direito deviver em condições saudáveis, a ver a saúde protegida, a ter uma educação para estilosde vida saudáveis, a ter acessos aos cuidados de saúde. Todos estes pressupostosassentam na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Constituição da RepúblicaPortuguesa, na Lei de Bases da Saúde (Lei 48/90, de 24 de Agosto), no EstatutoHospitalar (DL 48357, de 27 de Abril de 1968), no Regulamento Geral dos Hospitais(DL 48358 de 27 de Abril de 1968) e que se encontra exposto com pormenor na Cartados Direitos e Deveres dos Doentes, da Direcção Geral da Saúde.Segundo Pacheco (2002), a Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes surgecomo uma garantia de que todos os seus direitos e deveres seo devidamente
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