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O movimento reformista da geraçao 1870 (Angela Alonso)

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CRÍTICA ECONTESTAÇÃO:o movimento reformistada geração 1870
*
Angela Alonso
 RBCS Vol. 15 n
o
44 outubro/2000
No Brasil de fins do Império formou-se omovimento da “nova geração”, assim autonomea-do numa referência à juventude de seus membros.Os intérpretes passaram depois, convencional-mente, a identificá-lo como “movimento intelectu-al da geração 1870”.À primeira vista, a unidade geracional pareceser mesmo o único critério unificador deste movi-mento. Embora os intérpretes usualmente o subdi-vidam conforme a adesão a correntes intelectuaiseuropéias — cientificismo, positivismo, liberalis-mo, spencerianismo, darwinismo social —, o retra-to mais comum aponta um sincretismo, quandonão um caos teórico: intelectuais imitativos, des-lumbrados com as modas européias
;
suas prefe-rências oscilando ao sabor delas.Pesa sobre a geração 1870 a acusação de terse interessado mais em edificar novos sistemasfilosóficos que em interpretar a realidade nacional,ignorando solenemente, salvo honrosas exceções,como Joaquim Nabuco, os problemas cruciais dasociedade brasileira, sobretudo a escravidão.Mesmo quando se admite um lugar para asidéias, ele é freqüentemente pouco lisonjeiro. Naformulação de Sérgio Buarque, a geração 1870teria incorporado idéias européias essencialmentecomo “ornatos discursivos”. Por princípio artificiaisem relação ao patrimonialismo brasileiro, tais idéi-as forneceriam tão-somente uma forma para oalheamento, a “evasão”, o “secreto horror à nossarealidade” acalentado pelos intelectuais.A controvertida tese de Roberto Schwarz(1989) igualmente tem por ponto de partida que aquestão central perpassando os escritos da geração1870 seria a imitação de teorias estrangeiras.
 
Exis-tiria também uma contradição entre as formas depensar estrangeiras copiadas e os traços coloniaisda realidade brasileira. Schwarz supõe, porém, quecertos membros da geração 1870 tivessem habili-
* Este artigo resume o argumento de minha tese dedoutorado em Sociologia, defendida em maio de 2000na FaculDade de Filosofia, Letras e Ciências Humanasda USP. Agradeço os comentários dos professores JoséMurilo de Carvalho, Élide Rugai Bastos, Eduardo Kugel-mas e Sérgio Miceli, da banca examinadora, e especial-mente ao meu orientador Brasílio Sallum Jr., peloempenho destes cinco anos. Registro também meureconhecimento ao GT de Pensamento Social Brasileiroda Anpocs, pela indicação para a publicação e pelasdiscussões de que meu trabalho muito se beneficiou.Agradeço ainda o parecerista anônimo da RBCS e aleitura cuidadosa de sua editora, Argelina Figueiredo.Sou grata especialmente a Fernando Limongi, pelainterlocução e pela solidariedade.
 
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REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 15 N
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dades para desvelar os fundamentos desta experi-ência social, inacessíveis aos demais: Machado deAssis teria logrado uma obra de valor cognitivosuperior à de seus contemporâneos. Nogueira(1984) aplica esquema similar para Nabuco. Nosdois casos, intelectuais de grande estatura servemcomo ponto de vista para análises que visamproduzir conhecimento acerca dos dilemas estru-turais da sociedade escravista brasileira. Continua-mos sem uma explicação para os “autores meno-res” que compõem a maior parte do movimentointelectual da geração 1870.Nas análises que enfocam diretamente omovimento intelectual, como já veremos, o fenô-meno aparece reduzido ora às posições sociais deseus membros, ora a sistemas de “idéias”, descola-dos das práticas.Acredito que o quadro de imitação resulta dedois procedimentos adotados pelos analistas. Deum lado, a incorporação acrítica das explicações eclassificações construídas por membros da própriageração 1870
 pós-factum
, já na República
,
endos-sando, assim, a clivagem doutrinária como eixoexplicativo do movimento. De outro lado, a supo-sição de uma autonomia do campo intelectual. Porisso tomaram os sistemas intelectuais europeuscontemporâneos como parâmetro de avaliação domovimento. É por comparação a teorias européiase em acordo com as memórias e reconstruções dospróprios agentes que se forma o juízo do movi-mento da geração 1870 como “intelectual” e imita-tivo.Neste artigo apresento uma nova interpreta-ção para o fenômeno. Minha proposta é tomar porponto de vista para a análise do movimento inte-lectual da geração 1870 a experiência social com-partilhada por seus membros. Parto da posiçãomais ou menos consensual na sociologia contem-porânea de que formas de pensar e formas de agirestão em íntima conexão, de sorte que não épossível compreendê-las separadamente. Não setrata de reduzir mecanicamente uma esfera à outra;a questão é, antes,
como
a cultura se vincula àexperiência. A interpretação, por isso, exige umaanálise fina, empírica, do modo pelo qual umacerta experiência social concreta plasma certasformas de pensar.Assim, analiso o movimento intelectual dageração 1870 do ponto de vista da experiênciacompartilhada por seus membros. Dada a inexis-tência de um campo intelectual autônomo no sécu-lo XIX, a experiência da geração 1870 é diretamentepolítica. Por isso adoto a dinâmica política comoângulo de análise. Ao invés de organizar textos epráticas conforme referências teóricas estrangeiras,inscrevo-os na conjuntura política local.Esta mudança de ótica revela que aquelemovimento intelectual nem era alheio à realidadenacional, nem visava formular teorias universais.As teorias estrangeiras não eram adotadas aleatori-amente, sofriam um processo de triagem: havia umcritério
 político
de seleção.O sentido principal do movimento intelectualda geração 1870 foi a intervenção política. Argu-mento que grupos politicamente marginalizadospela ordem imperial recorreram ao repertório es-trangeiro e à própria tradição nacional em busca derecursos para expressar seu descontentamento.Suas opções teóricas adquirem, assim, uma dimen-são inusitada: auxiliaram na composição de umacrítica ao
status quo
imperial.O movimento intelectual revela ser um movi-mento
 político
de contestação. Suas obras expri-mem interpretações do Brasil críticas ao
status quo
monárquico e programas de reformas. Por issoproponho nomeá-lo
reformismo
.A seguir, procuro demonstrar meu argumen-to inicialmente apresentando uma crítica às inter-pretações de que o movimento intelectual foiobjeto e, em seguida, construindo uma nova abor-dagem para suas obras e ações a partir de trêsconceitos-chave: estrutura de oportunidades polí-ticas, comunidade de experiência e repertório.
Movimentos intelectuais ecrise do Império: principais linhasde interpretação
O movimento intelectual da geração de 1870tem sido tema de análises há mais de um século. Ostratamentos que recebeu são muito desiguais emescopo. O movimento tanto compõe uma dimen-são de obras de “interpretação do Brasil”, como asde Raimundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda e
 
CRÍTICA E CONTESTAÇÃO: O MOVIMENTO REFORMISTA DA GERAÇÃO 1870
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Florestan Fernandes, amalgamado às explicaçõesda formação do Estado e da sociedade nacionais,quanto é incorporado como a atmosfera do oito-centos, espécie de “espírito de época”, nos estudosculturais sobre o
 fin-de-siècle
(por exemplo, Skid-more, 1976).Os estudos
 
diretamente sobre o tema podemser agrupados em duas grandes vertentes: umaperspectiva cognitiva considera o movimento inte-lectual do ponto de vista de sua capacidade degerar teorias sociais, situando-o no plano da histó-ria das idéias; outra, prática, caracteriza o movi-mento como produtor de ideologia modernizadorapara novos grupos sociais, particularmente umanova classe média.A ótica da história das idéias é a mais tradici-onal no tratamento do movimento intelectual. Osdois principais nomes nesta linha são Cruz Costa eAntonio Paim. Embora ambos divirjam em vários eimportantes pontos, concordam em tomar o movi-mento do ângulo da produção de textos.No caso de Paim e de seus seguidores, não hápretensão de relacionar texto e contexto. Antes ocontrário.
 
A explicação privilegia o valor heurísticodas obras e extirpa qualquer característica exógenaao próprio campo das idéias. O conceito operató-rio é a noção de “influência”. O movimento intelec-tual aparece como feixe de réplicas nacionais delinhas de pensamento europeu, compondo “esco-las de pensamento” (Paim, 1966).Este passo tem por efeito tomar um fenômenodisseminado no período — a formulação de inter-pretações do Brasil e de projetos de reforma —como desiderato de grandes sistemas de pensa-mento. De outro lado, supõe uma anterioridadelógica das idéias: a ação política dos “intelectuais”não é nem mesmo aventada. O levantamento siste-mático de autores e obras é louvável. Mas atribuiraos agentes o propósito de produzir conhecimentode valor teórico universal tem o efeito de elevá-los àcategoria de filósofos. O metro heurístico suprime aconjuntura: toda conexão com a problemática soci-al contemporânea desaparece.Cruz Costa, de outro lado, propõe-se a co-nectar correntes intelectuais européias ao processode formação da sociedade nacional brasileira, jo-gando o foco para o modo pelo qual as idéiaseuropéias se conformam à “experiência america-na” (Cruz Costa, 1956, p. 436). O padrão daformação nacional e o rescaldo colonial no planodas idéias são apresentados como obstáculos aodesenvolvimento de escolas nativas de pensamen-to, fazendo a reflexão pender mais para a sociolo-gia que para a metafísica. Por isso, o estudo da“história das idéias
no
Brasil” deve se concentrarnos anos 1870 e no positivismo, momento deorigem de uma sociologia nacional. A investigaçãosublinha os processos de “deformação” das teoriasestrangeiras no Brasil de modo a servir como“instrumentos de ação, principalmente de açãosocial e política”, para grupos sociais específicos.Dada a ênfase em uma perspectiva prática,seria de esperar aqui uma avaliação da
ação
políti-ca. No entanto, o material empírico aparece, comoem Paim, organizado conforme autores e escolaseuropéias. Embora o propósito geral seja conectaras “doutrinas” européias e a experiência brasileira,precisamente a chave desta conexão é excluída daanálise: todo o pensamento “não-sistemático”, nãoimediatamente “sociológico”, é expelido da análise— como os escritos de Silva Jardim e de JoaquimNabuco. O liberalismo do Segundo Reinado prati-camente não é mencionado.Mesmo rivais, as duas linhagens convergiramna circunscrição de um campo intelectual no fimdo Império, a partir dos critérios e informações deum dos agentes (Sílvio Romero, talvez o maisfaccioso deles), e na cristalização do movimentointelectual como “escolas”. Contribuíram, assim,para a naturalização da “Escola de Recife”, da“Igreja Positivista”, do “Darwinismo Social”, do“Castilhismo”, do “Positivismo Ilustrado”. Porqueevitam o reconhecimento direto dos agentes queproduzem o “pensamento” do período, ambos ostrabalhos deságuam na constatação de um volunta-rismo político ou de uma ingenuidade teóricacomo características da geração 1870.Estas duas versões de
 
história das idéias sãomuito influentes. Suas categorias foram acatadas eincorporadas pela bibliografia especializada, comose descrevessem instituições, com distinção claraentre membros e não-membros. Mesmo estudosque recusaram as explicações de Cruz Costa ouPaim recorreram às suas categorias e fontes.

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