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27 A importância da confiança interpessoal para a consolidação do Programa de Saúde da Família

27 A importância da confiança interpessoal para a consolidação do Programa de Saúde da Família

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MA S I   VR S RHM S 
777
1
Escola de Administraçãoda Universidade Federal doRio Grande do Sul – EA/ UFRGS Rua WashingtonLuis 855, Centro. 90010-460 Porto Alegre RS.valentim@gmail.com
A importância da confiança interpessoalpara a consolidação do Programa de Saúde da Família
The importance of interpersonal trustfor the consolidation of Brazil’s Family Health Program
Resumo
Vive-se em um país cuja realidade apon-ta significativas discrepâncias socioeconômicas. A saúde, direito social universal garantido pelaConstituição Federal, se constitui em um dos prin-cipais desafios do Estado e em uma das mais cruéisdesigualdades no Brasil. Visando também a redu-ção das mesmas, a gestão do Sistema Único deSaúde regra-se por princípios como a universali-dade de acesso e a integralidade da atenção. OPrograma de Saúde da Família (PSF), desenvol-vido pelo Governo Federal como uma ferramenta para alcançar estes princípios, é caracterizadocomo estratégia de gestão da política nacional desaúde. Este artigo tem como objetivo analisar aimportância da confiança, entre os principais ato-res ativos do PSF, para sua consolidação comoestratégia de reordenamento do sistema. Utilizou-se aporte teórico sobre confiança e políticas pú-blicas de saúde do governo, o qual se constituiuem base para a análise, desenvolvida a partir dateia de relacionamentos existentes entre os prin-cipais envolvidos no PSF. Após o estudo das rela-ções entre seus personagens, concluiu-se que aconfiança possui importância ímpar em todasmas, principalmente, sobre a figura do AgenteComunitário de Saúde, o qual se constitui no prin-cipal elo de ligação entre a população atendida eos demais atores do processo.
Palavras-chave
 
Saúde, Políticas públicas, Con- fiança, Programa Saúde da Família
Abstract 
 Brazil is characterized by significant social and economic discrepancies. Although guar-anteed by the Brazilian Constitution as a uni-versal social right, healthcare is a major chal-lenge for the State, constituting one of the cruelest types of inequality in Brazil. Designed to evenout these inequalities, Brazil’s National HealthSystem (SUS) is ruled by principles that includeuniversal access and all-round care. Developed by the Brazilian Government as a tool for imple-menting these principles, the Family Health Pro-gram is a management strategy for its National Health Policy. This paper analyzes the impor-tance of trust between the main players in thisProgram as a crucial factor for its consolidationas a strategy for reorganizing this system. Theo-retical input on trust and Government health policies served as the basis for this analysis, built up by the network of relationships among thosemost deeply engaged with this Program. After ex-amining the many different relationships amongthe players, we conclude that trust is significant and relevant for all of them but, more particular-ly for the Community Health Agents who formthe main links between the assisted populationand other players in this process.
Key words
 
 Health, Government policies, Trust,Family Health Program
Igor Vinicius Lima Valentim
1
Alexandra Jochims Kruel
1
 
778
   V  a   l  e  n   t   i  m ,   I .   V .   L .   &   K  r  u  e   l ,   A .   J .
 
Introdução
O processo de redemocratização do Brasil trou-xe, junto com a ‘Constituição Cidadã’, de 1988,um novo sistema de atenção à saúde, no qual oEstado configurava-se como responsável por suaexecução e qualquer cidadão brasileiro teria di-reito de acesso aos serviços e ações de saúde. O jádenominado Sistema Único de Saúde (SUS) foiformalizado pela Constituição, na qual foramdefinidos princípios, diretrizes, características eorganização do mesmo, melhor detalhados pos-teriormente na Lei Orgânica de Saúde.A própria Constituição Federal de 1988 jáexigia uma mudança contundente no modelo deatenção à saúde até então em vigência. Do mo-delo centralizado na medicalização, nos hospi-tais e no caráter curativo, passaria-se a um mo-delo voltado para as ações de prevenção e de pro-moção da saúde, baseado em atividades princi-palmente coletivas.Do homem individual, passou-se à visão dohomem integral, membro de uma família e deuma comunidade, além de possuidor de umahistória de vida e de saúde. Mas, se por um lado,o discurso versa a respeito da vida em comuni-dades e do trabalho em equipe, por outro, perce-be-se que as relações sociais são cada vez maisdominadas pela competição e pelo excesso deindividualismo.Já no espectro do SUS, surgem dois progra-mas: o Programa de Agentes Comunitários deSaúde (PACS) e o Programa de Saúde da Família(PSF), os quais se tornaram a base para a estra-tégia de Saúde da Família. Ambos os programassão baseados em pressupostos que defendem enecessitam da cooperação e do trabalho em equi-pe. Entretanto, não é uma tarefa simples que pes-soas com histórias de vida diferentes e possuido-ras de objetivos e personalidades distintas traba-lhem em conjunto em função de um objetivo es-tipulado. Embora colegas de trabalho possamser pressionados a cooperar, deve existir umadisposição voluntária por parte dos indivíduospara que o relacionamento atinja da melhormaneira possível os resultados desejados.Esperar que os integrantes de um grupo coo-perem voluntariamente é uma tarefa especial-mente difícil, quando, como supramencionado,o homem em sociedade torna-se cada vez maiscompetitivo e individualista. Desta forma, a con-fiança entre as pessoas é um dos itens de maiorinfluência sobre as relações entre elas e, conse-qüentemente, sobre o resultado do trabalho emcoletividade.Deseja-se, neste artigo, investigar teorica-mente em que medida a existência da confiançanas relações entre os envolvidos é importantepara o êxito e a consolidação de uma estratégiade gestão da política pública de saúde nacional.Para tanto, utiliza-se o caso do PSF, estratégiaque tem, como uma de suas bases, visitas do-miciliares às casas da população atendida, ecomo um grande objetivo a promoção da saú-de dos cidadãos brasileiros.
Confiança
A confiança permeia a vida de um indivíduo emdiversos momentos e relações, com conseqüên-cias que afetam, de maneira importante, tanto asua trajetória, quanto a daqueles com os quaisinterage
1
. Desde sua raiz etimológica, seu signifi-cado remete ao credo em algo ou em alguém.A confiança é considerada a base de qualquerrelacionamento afetivo, sendo um fator de rele-vância para o sucesso ou insucesso de diversasrelações. Na vida em sociedade, a confiança nopoder público, no sistema monetário, e nas insti-tuições de uma maneira geral, se mostra neces-sária, inclusive, para a manutenção da ordem
1
.Quando o assunto é trabalho, tanto a confi-ança entre os colegas quanto aquela entre indiví-duos e organizações irão trazer significativos im-pactos para a maneira como a pessoa se relacio-na, produz e como é percebida pelas demais, apor-tando conseqüências, também, para a organiza-ção
2,3
. Conseqüentemente, entende-se o motivoda confiança se encontrar, cada vez mais, no cen-tro das atenções quando o assunto é a teorizaçãosobre as sociedades contemporâneas
1,4
.Partindo-se do princípio que, então, a confi-ança é importante para as relações sociais, ela éencarada
4
como uma maneira de reduzir a com-plexidade, já que nem sempre existem alternati-vas para uma pessoa, que não a de confiar. Faz-se necessário entender, afinal, quais os compo-nentes do construto confiança.A decisão de confiar ou não em alguém é in-fluenciada por um componente constituído pelo julgamento racional do indivíduo, com base noque ele julga “boas razões”
1,5
. Porém, para queesta avaliação possa ser realizada, é importanteque esta pessoa disponha de uma base de infor-mações. Esta base, tratada como familiaridade
4
,é formada pelo conhecimento prévio do obser-vado, engloba as experiências anteriores e as in-formações a respeito do mesmo, constituindoelementos de uma dimensão cognitiva do cons-
 
779
 C i   ê n c i   a  & S  a  ú  d  e  C  ol   e  t  i   v a  , (   3  )   :  7  7  7 - 7  8  8  , 0  0  7 
truto
1
. Estas informações a respeito do observa-do podem incluir a identificação de valores
2
osquais o observador considera como característi-cos de uma pessoa confiável, como o respeito oua honestidade.As ditas “boas razões” não se constituem emmotivo suficiente para que uma pessoa confie emoutra. Ainda dentro de uma dimensão cognitiva
1
,a confiança é influenciada também pela realidadecoletiva cognitiva
4
, ou seja, a percepção por partedo observador de que as demais pessoas tambémconsideram o observado como confiável. Quan-do uma pessoa acredita que as outras não confi-am no observado, o processo de construção daconfiança pode ser dificultado
4
.Assumir que a confiança é constituída ape-nas por elementos cognitivos se mostra demasi-adamente ingênuo. As emoções e sentimentosexistentes entre as pessoas se constituem em par-te importante das relações entre elas e, conse-qüentemente, influem diretamente na constru-ção da confiança, visto que investimentos emoci-onais são feitos por ambas as partes
1
. Esta di-mensão emocional da confiança contribui, se-gundo os autores, para a base da dimensão cog-nitiva, a partir do conhecimento que uma que-bra da relação de confiança ameaça trazer sofri-mento emocional para os envolvidos na relação,inclusive para o traidor.Uma das principais ameaças às relações deconfiança é o ‘segredo sistemático’
6
, ou seja, aproposital sonegação de informações entre osenvolvidos – um comportamento oposto àtransparência.Também se constitui em um elemento influ-enciador da confiança nas relações interpessoaisa ‘confiança personalizada’
7
. Ela é caracterizadacomo a propensão do observado em, usualmen-te, confiar em outras pessoas, englobando suasexpectativas, características pessoais e elementosnos quais costuma confiar.Em adição à dimensão cognitiva e à emocio-nal, a confiança também possui aspectos relaci-onados ao comportamento dos indivíduos
1
. Ouseja, a decisão de confiar em alguém é baseadatambém na observação do comportamentoalheio. Por um lado, o observador analisa se ocomportamento do observado demonstra queele é confiável
1,6
. Por outro lado, o observadortambém percebe se o observado parece confiarnele – guardando uma relação estreita com a re-ciprocidade: na medida em que o observadorpercebe que o observado parece confiar nele, tendea reciprocamente ter uma maior propensão aconfiar no observado
4
.Um outro componente importante da dimen-são comportamental da confiança é a represen-tação
4,8
, ou seja, um comportamento propositalpor parte do observado, com o intuito de pare-cer ser confiável para o observador, pode influ-enciar sua opinião se este observador considerarcomo verdadeiro – e não como uma representa-ção – aquele comportamento “forjado”.As dimensões da confiança tratadas neste tra-balho não devem ser consideradas de maneiraisolada, visto que uma serve de suporte para aoutra, estando intimamente ligadas.Como abordado anteriormente, a confiançaentre os colegas de trabalho traz impactos signi-ficativos para o resultado do mesmo. Quando otrabalho realizado envolve aspectos de impor-tância extrema, como a saúde dos cidadãos, aresponsabilidade do resultado aumenta aindamais, exigindo a maior dedicação possível porparte dos envolvidos. Neste caso, a cooperaçãoentre os indivíduos em prol de um objetivo co-mum ganha destaque.A confiança e a cooperação estão ligadas, emparte, com o prazer no trabalho e, sem a primei-ra, não pode existir nem cooperação nem coleti-vidade no trabalho
6
. Porém, Gambetta
9
conside-ra que a confiança não é pré-condição para acooperação, sendo um resultado dela, construí-da e fortalecida ao longo das experiências.Para os fins deste trabalho, considera-se que,se por um lado, é possível trabalhar e cooperarcom pessoas nas quais não se confia, o trabalhotende ser a muito mais frutífero quando existeconfiança entre os indivíduos
2, 3, 9, 10
.
Políticas públicas de saúde no Brasil– o Sistema Único de Saúde
A partir de 1988, com a promulgação da Consti-tuição Federal, o Brasil passou a contar com umnovo olhar sobre o atendimento à saúde de seuscidadãos. Considerada como um direito social,cuja responsabilidade formal é do Estado
11
, asaúde passou de uma concepção sabidamenteexcludente, centralizadora, medicalizada e hospi-talocêntrica para a idéia de atendimento integral,voltado especialmente para a prevenção e para apromoção de saúde, descentralização político-administrativa e de participação da sociedade.Tal concepção não nasce direta e exclusiva-mente da Constituição Federal de 1988, no en-tanto. O texto referente à saúde da própria CartaMagna é resultado de um longo processo anteri-or, gestado desde a década de 70 do século XX,

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