INTRODUÇÃO
Breve nota histórica
Quem visitasse a Venezuela no dia 27 de fevereiro de 1989 teria uma surpresa. A outrora“democracia modelo da América Latina” enfrentava uma gigantesca explosão de insatisfaçãopopular, a maior de sua história republicana e uma das maiores da história latino-americana.Literalmente, milhões de pessoas correram às ruas para protestar contra as condiçõeseconômicas e sociais do país, que sofria com a desvalorização de sua principal comódite, opetróleo. Nas palavras de um comentarista venezuelano, “Caracas viveu dias de Beirute”(Maringoni, 2008), com protestos, saques e depredações. De fato, a revolta ficaria conhecida pelonome de “Caracaço”, embora essa denominação talvez não faça justiça às suas dimensõesnacionais (Jones, 2008).A resposta do governo Carlos Andrés Perez foi
manu militari
e direcionada para os barrios,grandes aglomerados de população pobre que em muito lembram as favelas brasileiras. Omovimento foi, afinal, abafado no segundo dia de protestos, mas a repressão deixou um saldo depelo menos quinhentos mortos e centenas de desaparecidos, sendo que o total de assassinatospode ter sido muito maior (Jones, 2008). A fratura social estava exposta. “Esta foi uma reação dospobres contra ricos”, reconheceu Héctor Alonso López, político governista da Acción Democrática(AD). Perez ainda sobreviveria no cargo por mais alguns anos, mas o que tinha em mãos era umapresidência fantasma, sem legitimidade, que terminaria de forma inglória após um processo de
impeachment
. Mudança mais profunda, o próprio Estado Liberal Democrático, moldado pelabonança petroleira da década de 1970, estava ruindo. As formas indiretas (delegadas) departicipação política encontravam-se desmoralizadas, vistas como artificialismos de meraaparência democrática, verdadeiramente a serviço das grandes petrolíferas e dos 3,5% dapopulação que não se encontravam em situação de pobreza ou de miséria
(Harnecker, 2003).Em contexto similar ao do Caracaço, inserem-se, também, a chamada “Guerra do Gás” (em2003, na Bolívia) e os protestos ocorridos no Equador (2005). Reunidas, as três revoltaspopulares foram o estopim de um movimento jurídico batizado com o nome de “NovoConstitucionalismo Latino-Americano” ou “
Un constitucionalismo sin Padres
”. Esse novoconstitucionalismo parece ter seu
marco zero
normativo com a promulgação da Constituição daRepública Bolivariana da Venezuelana (1999), desdobrando-se e desenvolvendo-se com as novasconstituições do Equador (2008) e da Bolívia (2009). Suas raízes históricas, contudo, são maisprofundas, e penetram séculos de história sul-americana e mundial.Nesse sentido, o novo constitucionalismo parte de postulados clássicos da teoriaconstitucional, repetindo, por exemplo, o tradicional catálogo de direitos de proteção individual.Por outro lado, procura superar o constitucionalismo clássico no que este não teria avançado,sobretudo no que se refere às possibilidades de articulação e releitura da categoria soberaniapopular, como condição necessária de legitimação das instituições e de gestão do próprio Estado.Indo mais longe, o Estado deverá ser refundado sobre os escombros das promessas liberais nãocumpridas, promovendo-se sua reconstrução a partir de uma “nova geometria do poder”.