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Capítulo 14
Eu dormi por horas.Quando acordei, Tara tinha ido embora.Senti uma punhalada de pânico, até perceber que ela tinha dobrado o cobertor,lavado o rosto no banheiro (toalha molhada), e calçado seus sapatos. Ela medeixou uma pequena nota, também, em um envelope velho que já continha oinício da minha lista de compras. Dizia, “Ligarei para você mais tarde. T” – umanota concisa, e não exatamente sugerindo amor de irmã.Fiquei um pouco triste. Calculei que não seria a pessoa favorita de Tara por um bom tempo. Meu ombro estava muito melhor, e decidi que dirigiria até oSupercentro do Wal-Mart em Clarice e faria todas as minhas compras numaúnica viagem. Também, lá não veria tantas pessoas conhecidas, e não teria quefalar sobre o tiro.Era muito reconfortante ser anônima na grande loja. Fiz tudo lentamente, lirótulos, e até mesmo selecionei uma cortina de chuveiro para o banheiro da casageminada. Gastei tempo completando minha lista. Quando transferi as sacolasdo carrinho para o carro, tentei levantar todo o peso com meu braço direito.Estava praticamente fedendo a virtude quando consegui voltar para a casa narua Berry.O furgão da Floricultura Bon Temps estava na entrada de carros. Toda mulhertinha um pequeno estímulo em seu coração quando o furgão da floriculturaparava, e eu não era exceção.“Tenho uma entrega múltipla aqui”, disse a esposa de Bud Dearborn, Greta.Greta tinha o rosto achatado e era pequena e gorda como o xerife, mas suanatureza era feliz e confiante. “Você é uma garota de sorte, Sookie.”“Sim, senhora, eu sou”, eu concordei, com só um pouquinho de ironia. Depoisde Greta ter me ajudado a carregar minhas sacolas, ela começou a levar as florespara dentro.Tara me enviara um pequeno vaso de margaridas e cravos. Eu sou muito fã demargaridas, e o amarelo e branco parecia bonito na minha pequena cozinha. Ocartão só dizia “De Tara”.Calvin me mandou um arbusto pequeno de gardênia embrulhado em tecido,com um grande laço. Estava pronto para sair do balde plástico e ser plantadotão logo o perigo de uma geada tivesse passado. Fiquei impressionada com aconsideração do presente, considerando que o arbusto de gardênia perfumariameu quintal por anos. Porque ele teve que ligar para encomendar, o cartãocarregava a mensagem convencional “Pensando em você – Calvin”.De Pam veio um buquê variado, e o cartão dizia, “Não leve mais tiros. Da ganguedo Fangtasia”. Aquilo me fez rir um pouco. Automaticamente pensei emescrever notas de agradecimento, mas não trouxera meus artigos de escritório.No caminho pararia na farmácia e compraria. A farmácia do centro da cidadetinha um canto que era uma papelaria, e também aceitava pacotes para a picapeda UPS. Você precisava se diversificar em Bon Temps.Coloquei minhas compras de lado, suspendendo sem jeito a cortina de chuveiro,e fui me arrumar para o trabalho.Sweetie Des Arts foi a primeira pessoa que vi quando passei pela entrada deempregados. Ela carregava uma braçada de toalhas de cozinha, e estava com seuavental amarrado. “Você é uma mulher difícil de matar”, ela observou. “Como você está se sentindo?”
 
“Estou bem”, eu disse. Parecia que Sweetie estava me esperando, e apreciei ogesto.“Soube que você se abaixou justo no momento certo”, ela disse. “Comoconseguiu? Você ouviu algo?”“Não exatamente”, eu disse. Sam saiu mancando do escritório, usando sua bengala. Estava de cara feia. Com certeza eu não queria explicar minha pequenaexcentricidade para Sweetie perto de Sam. Eu disse, “Só tive umpressentimento”, e dei de ombros, o que foi inesperadamente doloroso.Sweetie sacudiu sua cabeça, atendendo meu apelo interior, e se virou paraatravessar o bar de volta à cozinha.Sam indicou com sua cabeça o escritório, e com um coração afundado eu o seguipara dentro. Ele fechou a porta atrás de nós. “O que você estava fazendo quandofoi baleada?” Ele perguntou. Seus olhos brilhavam de raiva.Eu não seria culpada pelo que tinha me acontecido. Me ergui diretamente paraSam, encarando seu rosto. “Estava só devolvendo e pagando livros da biblioteca”, eu disse entre dentes.“Então porque ele acharia que você era metamorfa?”“Não faço idéia.”“Com quem você esteve??”“Fui visitar Calvin, e eu tinha...” Minha voz morreu enquanto me dava conta dealgo.“E quem pode dizer que você cheira como um metamorfo?” Pergunteilentamente. “Ninguém senão outro metamorfo, certo? Ou alguém com sanguemetamorfo. Ou um vampiro. Alguma coisa sobrenatural.”“Mas não tivemos nenhum metamorfo estranho por aqui ultimamente.”“Você foi onde o atirador esteve, para farejar?”“Não, a única vez em que estive no local do tiroteio, estava muito ocupadogritando no chão com sangue jorrando da minha perna.”“Mas talvez agora você possa pegar algo.”Sam baixou os olhos para sua perna duvidosamente. “Choveu, mas eu suponhoque valha uma tentativa”, ele concedeu. “Eu devia ter pensado nisso. Certo, hojeà noite, depois do trabalho.”“É um encontro”, eu disse de forma irreverente enquanto Sam afundava em suacadeira rangente. Coloquei minha bolsa na gaveta que Sam mantinha vazia e saípara checar minhas mesas.Charles estava firme no trabalho, e me deu um aceno de cabeça e um sorrisoantes de se concentrar no nível de cerveja do jarro que ele segurava na torneira.Uma de nossas bêbadas regulares, Jane Bodehouse, estava sentada no bar comCharles em sua mira. Não parecia deixar o vampiro desconfortável. Eu vi que oritmo do bar estava de volta ao normal; o novo barman fora absorvido no panode fundo.Depois de eu ter trabalhado aproximadamente por uma hora, Jason entrou.Crystal estava aconchegada na curva de seu braço. Ele estava mais feliz do queeu já o tinha visto. Estava excitado com sua nova vida e muito satisfeito com acompanhia de Crystal. Me perguntei quanto tempo aquilo iria durar. Mas aprópria Crystal parecia ser da mesma opinião.Ela me disse que Calvin sairia do hospital no dia seguinte, e iria para casa, emHotshot. Fiz questão de mencionar as flores que ele me enviou, dizendo a elaque eu cozinharia algo para Calvin, para comemorar sua volta para casa.Crystal estava certa de estar grávida. Mesmo através do nó do cérebrometamorfo, eu podia ler aquele pensamento tão claro quanto um sino. Não era a
 
primeira vez que eu descobrira que alguma garota “saindo” com Jason tinhacerteza de que ele seria papai, e eu esperava que desta vez fosse tão falso quantoda última. Não que eu tivesse algo contra Crystal... Bem, eu estava mentindo amim mesma. Eu tinha algo contra Crystal. Crystal era parte de Hotshot, e elanunca abandonaria isto. Eu não queria que uma sobrinha ou sobrinho meufosse criado naquela comunidade estranha e pequena, dentro da pulsanteinfluência mágica da encruzilhada que formava seu centro.Crystal estava fazendo segredo de sua menstruação atrasada para Jason porenquanto, determinada a ficar quieta até que tivesse certeza do que istosignificava. Eu aprovei. Ela mamou uma cerveja enquanto Jason derrubou duas,e então eles saíram para ir ao cinema em Clarice. Jason me deu um abraço nocaminho, enquanto eu distribuía drinques para um grupo de oficiais da lei. Alcee Beck, Bud Dearborn, Andy Bellefleur, Kevin Pryor, e Kenya Jones, e maisa nova atração de Arlene, investigador de incêndios premeditados DennisPettibone, estavam todos reunidos em volta de duas mesas juntas em um canto.Havia dois estranhos com eles, mas eu soube bem facilmente que eram tirastambém, parte de alguma força tarefa. Arlene podia até querer servi-los, mas eles estavam claramente no meuterritório, e claramente falavam sobre alguma merda grande. Quando eu estavapegando os pedidos de bebidas, eles suspenderam a conversa, e a retomaramquando me afastei. Claro, o que eles diziam com suas bocas não fazia nenhumadiferença para mim, considerando que eu sabia o que cada um e todos elesestavam pensando.E eles todos sabiam disto muito bem; e todos se esqueceram. Alcee Beck, emparticular, morria de medo de mim, mas mesmo ele estava totalmenteesquecido da minha habilidade, apesar de eu já a ter demonstrado para eleanteriormente. O mesmo podia ser dito de Andy Bellefleur.“O que a convenção de oficiais da lei no canto está tramando?” PerguntouCharles. Jane tinha cambaleado para o banheiro feminino, e ele estavatemporariamente sozinho no bar.“Deixe-me ver”, eu disse, fechando meus olhos, assim eu podia me concentrarmelhor. “Bem, eles estão pensando em transferir a vigilância policial peloatirador para outro estacionamento esta noite, e estão convencidos de que oincendiário está conectado aos atentados a bala, e que a morte de Jeff Marriotestá conectada a tudo, de alguma forma. Eles estão até mesmo imaginando se odesaparecimento de Debbie Pelt está incluído neste grupo de crimes, já que elafoi vista pela última vez abastecendo na interestadual, no posto de gasolina maispróximo de Bon Temps. E meu irmão, Jason, desapareceu por um tempoalgumas semanas atrás; talvez isto seja parte do quadro, também.” Eu sacudiminha cabeça e abri meus olhos para descobrir que Charles estavaperturbadoramente perto. Seu único olho bom, o direito, encarava firme o meuesquerdo.“Você tem talentos muito incomuns, jovem mulher,” ele disse depois de ummomento. “Meu último empregador colecionava o incomum.”“Para quem você trabalhava antes de vir para o território de Eric?” Perguntei.Ele se voltou para pegar o Jack Daniel’s.“O Rei do Mississippi,” ele disse.Eu senti como se alguém tivesse puxado tapete de baixo dos meus pés. “Por que você deixou o Mississippi e veio para cá?” Perguntei, ignorando os assobios damesa um metro e meio distante dali.
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