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com as multidões contra o império

com as multidões contra o império

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ANTÓNIO NEGRI: COM AS MULTIDÕES CONTRA O IMPÉRIO, PARA A CONSTRUÇÃODE UMA NOVA ESQUERDA
Luigi Bordin UFRJ/UCAM
Sobre do/s
ou três planos, pelo menos, Marx continua a ser fundamental para o nosso tempo. O primeiro é o plano da exploração, o fato de existirem pobres e ricos e que os ricos vivam à custados pobres. Este é um fato maldito e verdadeiro. Sobre ele Marx põe a questão em termos muitoimportantes. O segundo plano é o plano da alienação. Esse é um problema absolutamentefundamental para o mundo de hoje, uma vez que as dinâmicas de transformação do trabalhointelectual, a espetacularização e a mediatização do saber, que são todas formas de objetivaçãoda comunicação dos valores, constituem formas e estruturas colossais de alienação. Outro problema essencial que Marx colocou foi o ponto de vista da resistência: isto é, os filósofos devemdeixar de interpretar o mundo para transforma-lo, no sentido em que há um momento da fundaçãodo próprio pensamento filosófico que é um momento de rebelião e intolerância, de recusa dastorpezas e injustiças do mundo
(A.
Negrij.
 A partir da minha descoberta antropológica ou ética do comunismo, comecei ler Marx, sempre deforma que não se reduzia à ortodoxia. O problema era compreender até que ponto o marxismocorrespondia à experiência da classe operária, que não era simplesmente uma espécie de motor da prática revolucionária, ou um objeto, ou um material para a construção do partido, mas umsujeito cheio de história, de emoções políticas e civis, que conseguia exprimir-se como tal. Deste ponto de vista, a história da luta de classes era no fundo muito mais importante do que o projetoteórico marxista. O concreto era mais importante que o abstraio. A militância, o ponto de vistasubjetivo, era infinitamente mais importante que todas as teorias que poderiam ser criadas ao seu redor. A criatividade do agir da classe operária e mais genericamente do proletariado, dos pobres,da gente humilde, da intelectualidade livre, uma liberdade construída na necessidade, eramalgumas coisas que se tomavam absolutamente centrais em cada projeto teórico. Este foi omarxismo que vivenciei, como teorizei, como o expressei. Portanto, uma posição de militânciaabsolutamente fundamental e central e entendida não como uma utopia para construir o futuro,mas como uma utopia presente (A.
Negri)
Introdução
Diante duma esquerda bastante confusa e incapaz de análises, propostas e ações positivas,para enfrentar à altura a ofensiva neoliberal, aparece salutar confrontar-nos com as posiçõesde António Negri, um dos filósofos políticos mais importantes da esquerda radical hoje.Apresentaremos aspectos do seu pensamento filosófico-político: sua contribuição aomarxismo italiano da esquerda radical, seu encontro com a ética e ontologia de Espinosa ecom a filosofia francesa de Deleuze, Guattari e Foucault. Em particular focalizaremos suacrítica radical ao poder imperial no contexto do paradigma do "biopoder" hoje, e sua reflexãosobre a resistência das multidões na perspectiva da construção de uma nova esquerda.
1. Negri e "operaismo italiano": a sociedade como fábrica social
A trajetória de Negri como intelectual remonta aos inícios dos anos 60 quando se tornou,ainda jovem, professor titular da universidade de Pádua (Itália) ocupando-se de teoria
 jurídicae constitucional e administrando cursos sobre a Doutrina do Estado. Sempre seconsiderou comunista nunca, porém, fez parte do PCI: o partido comunista italiano.Militou, ao invés, na esquerda extraparlamentar, nos movimentos operários que, não sesentindo representados pelos partidos e sindicados da esquerda oficial, se assumiamcomo movimentos autónomos: "autonomia operária", "poder operário", etc. Nesse tempo,os teóricos dessas correntes, como Mário Tronti (1), António Negri (2) e outros, em suasanálises sobre o Keynesianismo, tinham explicitado como a estratégia keynesiana, comsua proposta da intervenção do Estado na economia, não era tanto uma concessão aosdireitos dos trabalhadores, mas representava uma resposta do capital ao êxito das lutasoperárias contra a exploração (3). Interpretaram pois "o plano do capital" como umaestratégia para enfrentar a insurgência da classe operária que, desbordando suas lutas
 
fora da fábrica, as estendiam também aos estudantes, às mulheres, aos desempregados,etc. Tinham compreendido que a reprodução burguesa da classe trabalhadora envolvianão só o trabalho na fábrica mas também no lar e na sociedade, isto é, a própriasociedade como um todo estava tornando-se uma grande fábrica social. O conceito declasse operária tinha pois que ser redefinido para incluir nela, também, os trabalhadoresfora da fábrica.O mais importante, porém, foi que se compreendeu que, se a classe operária se tinhatornado, sob a estratégia capitalista, parte do capital, todavia, através da resistência e daluta, ela sempre podia, também, se constituir como um poder autónomo, como a base deum novo poder constituinte, para perturbar o processo de acumulação e com issodesligar-se do capital. A crise económica vinha, dessa forma, reinterpretada em termosdas relações de poder entre as classes, considerando a competição como sendo apenasum dos elementos dessa relação (4).A partir dessas análises e dessas lutas, implementou-se, nos anos 60-70, uma fecundaleitura estratégica do "O Capital" que permitiu ver como, na teoria, há sempre duasperspectivas: a do capital em contraposição àquela da classe operária. Disso deriva que aanálise de toda categoria e de todo fenómeno deve ser sempre dupla: fora dessas duasperspectivas não há "objetividade".O capital nos aparece, pois, como relação de classe que é sempre, também, uma relaçãode luta. De um lado, a classe capitalista tenta impor sua ordem social com todas suascategorias e determinações, de outro, a classe operária procura afirmar seus interessesautónomos questionando "as regras de jogo" da sociedade capitalista. Trata-se deesclarecer a importância e o significado que cada uma dessas determinações e "regras"possuem para a classe operária, e não simplesmente aceitá-las como "objetivamentedadas".
2. Negri e Espinosa: para uma filosofia coletiva da liberdade
Uma referência importante no pensamento de Negri, depois de Marx, foi Espinosa sobre oqual escreveu um importante livro (5). Nesse tempo, 1979, ele encontrava-se detido naprisão sob a acusação de incentivar com suas obras a revolução de grupos armados,embora nunca ele tivesse sido a favor da luta armada. A solicitação para escrever estelivro foi fundamentalmente ética: "uma tentativa - como ele confessou - de descobrir arazão da minha resistência, de por que não me arrependia, por que resistia, por quecontinuava a combater. Eu tinha necessidade do eterno para confrontar-me como oestado de exceção, era necessário redescobrir Deus, redescobrir a dignidade, redescobrir os valores que são absolutamente fundamentais e com os quais não se rompe" (6).
O
que interessava a Negri, no estudo da ética e da política de Espinosa, não era tanto agénese do Estado burguês e sua crise mas as alternativas teóricas e as possibilidadessubjetivas da revolução em ato (7). Com efeito, para Espinosa a democracia não é apolítica do indivíduo egoísta em busca do seu interesse, mas a ação da "multidão"organizada na produção. Isto é, Espinosa propunha, já naquela época em 1600, que amultidão se tornasse Estado, eliminando dessa forma cada solução jurídica idealista. Opensamento de Espinosa se apresenta pois, segundo Negri, como uma filosofiaalternativa à filosofia, ideologicamente hegemónica, funcional ao desenvolvimento daburguesia que se dobra à ideologia do mercado, na forma determinada imposta pelo novomodo de produção, em que a mistificação do mercado se torna utopia dedesenvolvimento. "Diante de uma política hegemónica que quer o político como o reino daastúcia e do domínio, Espinosa afirma o político como
 poder moderado,
isto é, comoconstituição determinada de consenso e de organização para a liberdade coletiva" (8). Afilosofia de Espinosa, enquanto filosofia humanista que acompanha as revoluçõesburguesas, foi uma filosofia da apropriação, como a de Hobbes. Só que Espinosa recusa
 
a conclusão hobbesiana da subjeção ao absolutismo. A diferença entre Hobbes eEspinosa está no sentido ontológico que Espinosa atribui à apropriação. Ele parte, não dohorizonte do soberano, mas da liberdade coletiva: a liberdade da multidão. Espinosarecusa a apropriação reduzida só ao interesse egoísta e a revolução burguesa reduzidasó à conservação política ou a mera transformação funcional das estruturas de domínio.Apropriação para ele é sinónimo da nova força produtiva. Enquanto em Hobbes acategoria da apropriação se traduz na subjeção autoritária ao soberano, Espinosadesmistifica tudo isso. Ele é, pois, o ante-Hobbes por excelência: mantém o tema daapropriação como tema central e exclusivo, recusando, porém, distorcer-lhe o sentidonum horizonte de interesses egoístas (9). Nessa releitura do pensamento de Espinosa,Negri implicitamente propõe também uma nova leitura da história do pensamento políticoda modernidade. Parece-lhe que, contra o filão clássico do pensamento burguês que, deHobbes a Rousseau a Kant e Hegel, constitui o conceito de soberania e de uma práticade alienação política, se ponha uma corrente de pensamento verdadeiramentesubversiva, que, de Maquiavel a Espinosa e Marx, assume a vida, a razão e a liberdadecomo o contrário da ordem capitalista e de cada mistificação do Estado.Em resumo, Negri encontra na filosofia de Espinosa uma ética e uma ontologia daimanência e da potência constitutiva da ação produtiva, não do indivíduo, possessivo eegoísta, mas das multidões que, a partir de suas necessidades corporais e materiais e deseus desejos, nos impulsionam para a busca da nossa liberdade.
3. Negri e a fecunda relação com Foucault, Deleuze e Guattari
Com seu exílio em Paris em 1983, começou para Negri uma nova fase de produçãointelectual aonde ele vai conjugar seu marxismo com algumas importantes contribuiçõesda filosofia pós-estruturalista francesa. Nessa época escreve "O poder 
constituinte,ensaio sobreis alternativas da modernidade" 
(10).Segundo Negri, as tendências marxistas de pensamento, sempre foram tendênciasabertas às transformações e, por isso, capazes de identificar os elementos da própriatransformação presente no real. Do ponto de vista filosófico ele acredita que hoje se devafalar de marxismo em termos infinitamente mais amplos do que se falou em relação aomarxismo na sua tradição, na sua ortodoxia. Não acredita que se possa falar de ummarxismo perene: um marxismo que se reproduza como uma espécie de dogma. E
 reconhece que foi extremamente importante a contribuição da filosofia francesa pós-estruturalista, de Foucault a Guattari e Deleuze, para a recuperação de toda uma série dedimensões subjetivas, que foram próprias do movimento revolucionário e do marxismo, dentrodaquilo que é a crítica do cotidiano (11). Como sabemos, o último Foucault começou conceber o poder não como uma instância centralizada, mas como um conjunto pluralizado demecanismos de censura e de gratificação. Em particular, mostrou como, através deestratégias anónimas colocadas em ação por "biopoderes", isto é, por formas de gestãopolítica da vida, o poder chega ao controle da reprodução, da consciência e da corporeidade(12). De Foucault Negri mutuou a ideia de "biopoder" e de resistência; de Deleuze e Guattari,tomou diversos conceitos, entre os quais o da singularidade, da multiplicidade e dapositividade do desejo que lhe permitiram aprofundar seu conceito de multidões e também aideia de resistência (13). Negri se apropriou de diversos conceitos importantes dessespensadores, todavia os reinterpretpu criativamente inserindo-os dentro da sua perspectivateórica marxista politicamgtnlÊ. comprometida. Na medida que valoriza estes filósofos, sabe,porém, distanciar-se deles quando necessário. Dá-se conta, por exemplo, de que as análisesdo biopoder de Foucault foram uma grande contribuição, mas constata também que ele nãoentendeu a dinâmica real de produção na
sociedade biopolítica
(14). Por outro lado, por quanto se refere a Deleuze e Guattari, nota que eles "descobrem a produtividade dareprodução social[....] mas conseguem articulá-la apenas de forma superficial e efémera,como um horizonte caótico e indeterminado, marcado pelo evento inalcançável" (15). A essaaltura, deve-se ter presente, também, como houve toda uma série de interpretações

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