Uma das raízes mais profundas da dura realidade africana é o mercado de escravos,explorado por árabes e europeus entre os séculos XVI e XIX. Naquele período, mais deONZE milhões de seres humanos foram capturados por portugueses, holandeses,ingleses e franceses, e transportados à força, principalmente para as plantations dosEstados Unidos e para as possessões portuguesas na América.Encerrado o período escravagista, no século XIX, as potências coloniais mantiveram ocontrole sobre a África, que se tornou fonte de minerais e matéria-prima para aflorescente indústria européia. No processo de colonização, muitas tribos e naçõesinimigas acabaram unidas à força pelos colonizadores. Por causa disso, as fronteirasdos Estados e regiões refletiam muito mais os interesses estrangeiros do que a históriados povos locais.
"O tráfico de escravos vai de certa maneira desarticular não só as economias locaismas desorganizar os pequenos reinos, as pequenas formações sociais existentes nolitoral do continente, possibilitando futuramente a possibilidade de uma colonização,de uma dominação desses povos. Essa dominação ocorre de uma forma violenta ouestabelecendo fronteiras artificiais, cortando, na maior parte das vezes, segmentos egrupos étnicos. Isso pode ser notado na Conferência de Berlim(final do século XIX),onde as principais potências européias dividem aleatoriamente, segundo seusinteresses, o continente africano."(
Prof. Dr. Carlos Serrano-Depto. de Antropologia daUSP)
BANDUNG: TENTATIVA DE UNIÃO DOS PAÍSES DO TERCEIRO MUNDO
Quando o líder nacionalista Jomo Kenyatta falava em pan-africanismo, ele tinha emvista, provavelmente, muito mais uma estratégia geopolítica do que cultural ou étnica.O objetivo era defender os interesses geopolíticos comuns dos países africanos. Damesma forma, e também no começo dos anos 50, outro líder nacionalista, o egípcioGamal Abdel Nasser, defendia um ideal pan-arabista, que centralizasse os interessesdo povo árabe. Nos dois casos, do pan-arabismo e do pan-africanismo, essa unidadeserviria de cimento político e ideológico contra os interesses imperialistas.Foi com esse propósito, de unir os países do Terceiro Mundo, que se realizou aConferência de Bandung, na Indonésia, em abril de 1955. A conferência proclamou-serepresentante dos países não alinhados nem ao bloco soviético nem ao blococapitalista, mas favoráveis à criação de sociedades igualitárias.A Conferência soou como um sinal de alerta para as potências coloniais. Dez anosantes, Sukarno havia liderado o processo de independência da Indonésia, ex-colônia daHolanda. Além disso, em 1954, um ano antes de Bandung, a França havia sido expulsada Indochina.Outra iniciativa importante para acelerar o processo de descolonização foi a realização,em 1958, da 1ª Conferência dos Povos da África, em Acra, capital de Gana. Naocasião, os países fecharam um acordo de ajuda mútua contra a Grã-Bretanha, França,Bélgica e Portugal. Àquela altura, a descolonização do continente já estava emandamento.
INDEPENDÊNCIA: EFEITO DOMINÓ
Na Argélia, onde a luta de libertação havia começado em 54, o processo foi maisdoloroso. Os colonos franceses, ou pés pretos, recusaram-se a entregar as terras aosargelinos e atacaram os nativos com violência. A independência da Argélia seriareconhecida pela França somente em 1962, durante o governo do general Charles deGaulle.No Quênia, a revolta nacionalista ganhou impulso em 1952, quando membros doskikuyu, a tribo mais numerosa do país, formaram uma organização clandestina, osMau-Mau, contra os colonizadores britânicos. O Quênia obteve a independência em 63e elegeu como seu primeiro presidente o líder Jomo Kenyatta.
CONGO BELGA: INDEPENDÊNCIA X DITADURA