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Apontamentos sobre a integralidade dos direitos humanos

Apontamentos sobre a integralidade dos direitos humanos

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Texto de Marcelo Alexandrino da Costa Santos
Texto de Marcelo Alexandrino da Costa Santos

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Categories:Types, Research, Law
Published by: Marcelo Alexandrino da Costa Santos on Jan 09, 2010
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Apontamentos sobre a integralidade dos direitos humanos
Marcelo Alexandrino da Costa Santos
1
(Rio de Janeiro, 2008)
Todos os direitos humanos o universais,indivisíveis interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitoshumanos de forma global, justa e equitativa, em pé de igualdade e com a mesma ênfase. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração, assim como diversoscontextos históricos, culturais e religiosos, é dever dos Estados promover e proteger todos os direitoshumanos e liberdades fundamentais, sejam quais forem seus sistemas poticos, econômicos eculturais
(Artigo 5º da Declaração e Programa deAção de Viena, 1993).I.É fato que várias Constituições ao redor do globo, assim como diversas normasde direito internacional, não apenas positivam direitos civis e políticos, mas tambémreconhecem expressamente a existência de direitos sociais, culturais e econômicos
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. Sendo este um ponto pacífico, as questões que ora se põem são:(a) existe algo que distinga, ontologicamente, os direitos sociais, culturais eeconômicos dos direitos civis e políticos?(b) a concretização dos direitos sociais, culturais e econômicos é exigível, outrata-se de meras declarações de intenção, que isentam o estado de responsabilidade, no plano fático-jurídico, quanto à implementação de ações garantidoras do gozo de taisdireitos?(c) o que se encontra por detrás da visão cindida dos direitos humanos e quais asconseqüências práticas daí advindas? Nas linhas seguintes, buscaremos respostas adequadas a essas indagações.II. Conforme aponta Christian Courtis
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, não é raro nos depararmos com opiniõesque negam o valor jurídico dos direitos econômicos, sociais e culturais, atribuindo-lhescaráter meramente político, a despeito da privilegiada posição hierárquica ocupada pelasConstituições e pelos tratados internacionais que os consagram. Dessa forma, somenteos direitos civis e políticos obrigariam o Estado frente aos particulares - que poderiam,unicamente em relação a tais direitos, buscar sua plena observância e estritocumprimento pela via judicial.Alguns argumentos são levantados em defesa dessa tese. Por exemplo, aquelesegundo o qual os direitos civis e políticos importariam em obrigações negativas, deabstenção, do Estado, enquanto os direitos econômicos, sociais e culturais estariamatrelados a obrigações positivas. Associado a esse argumento, eso de que,diferentemente do que ocorre com os direitos econômicos, sociais e políticos, aobservância dos direitos civis e políticos nada custaria ao erário; logo, a promoção
 
daqueles estaria subordinada à existência de recursos – não os havendo, as obrigações jungidas a tais direitos seriam inexigíveis. Não é difícil imaginar-se, porém, que para assegurar que particulares oinvadam a esfera de liberdade alheia, ou que, uma vez invadida, esta seja restabelecidacom a devida reparação de eventuais prejuízos, exige-se uma série de providênciasativas do Estado. Basta que se pense nas funções de segurança e de justiça, para que se perceba que a promoção dos direitos civis e políticos implica a realização de prestações,o de abstenção, mas igualmente positivas por parte do poder blico
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. Conseqüentemente, a concretização desses direitos também exige o dispêndio derecursos.Por outro lado, os direitos econômicos, sociais e culturais não estão totalmentedissociados de obrigações estatais negativas. Afinal, como ressalta Christian Courtis, “elderecho a la salud conlleva la obligación estatal de no danar la salud; el derecho a laeducacn supone la obligación de no empeorar la educacn; el derecho a la preservación de um medio ambiente sano implica la obligación de no destruir el médioambiente”
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.Constata-se, pois, que tanto os direitos civis e políticos, quanto os direitoseconômicos, sociais e culturais impõem obrigações positivas e negativas ao Estado. Adiferença estaria em que estes últimos têm nas prestações positivas o seu núcleo, a suaessência; daí a importância simbólica de tais prestações no processo de identificaçãodesses direitos. No entanto, essa diferença, a despeito de seu valor heurístico, não justifica a separação dos direitos em classes incomunicáveis: na verdade, os direitos,sejam sociais, econômicos e culturais, ou civis e políticos, dialogam constantemente.Pode-se avançar ainda mais nessa linha de raciocínio, quando se constata que aregulamentação de direitos tradicionalmente considerados civis e políticos assumeatualmente alguns contornos sociais. Pense-se, por exemplo, na relativização dosdireitos relativos à propriedade, ao contrato e à empresa, em razão da função social, da proteção do consumidor, da preservação do meio ambiente e de outros interesses queclaramente excedem às liberdades civis
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. E mais: há direitos cuja classificação nãoencontra resposta na dicotomia obrigação positiva / obrigação negativa, como é o casodos direitos de sindicalização e de greve.Como se percebe, os direitos humanos merecem tratamento holístico, integral,indivisível, porquanto há espaços em que eles nítida e estreitamente se interligam,combinando obrigações de caráter negativo e positivo
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,que exigem ou não a utilizaçãode recursos públicos, revelando qualquer classificação como meramente convencional edesprovida de força hierárquica
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. III. A despeito do que acaba de ser afirmado, é certo que ainda subsiste a idéiade que os direitos econômicos, sociais e culturais estão unicamente relacionados a prestações estatais positivas e, portanto, ao dispêndio de recursos financeiros. Destaforma, haveria uma condicionante de ordem econômica, que, pondo de lado aintegralidade dos direitos, relegaria aqueles a uma segunda categoria, cuja concretizaçãoseria inexigível em face do Estado.Como visto, tal idéia parte de uma concepção simplista, que ignora o fato de queos direitos – sejam eles de que categoria forem – envolvem um complexo de obrigaçõesnegativas e positivas e, portanto, nem sempre o cumprimento de uma dada prestaçãoimportará em gasto para os cofres públicos. Para além disto, desconsidera que a própriaatividade legislativa é uma forma de prestação positiva que não implica dispêndio extraao erário, podendo regular determinadas situações para que os direitos possam seconcretizar, criando conseqüências jurídicas relevantes desprendidas da permissão
 
original – como, por exemplo, o reconhecimento de entidades sindicais para assegurar uma maior amplitude ao direito de associação – ou impondo restrições e obrigações às pessoas privadas em prol de interesses da sociedade – como ocorre com os direitoslaborais, ambientais e consumeristas. Por fim, deixa de lado a noção de que aconcretização dos direitos pode ser alcançada com a prestação de serviços prestados pelo Estado exclusivamente (v.g., jurisdição, redes de saúde e educação públicas) oucom a repartição de obrigações com pessoas de direito privado (v.g., destinação derecursos do FGTS para o sistema financeiro de habitação).Percebe-se assim que, justamente por enfeixarem um amplo espectro deobrigações, os direitos econômicos, sociais e culturais podem oferecer uma ampla gamade opções de concretização, que o desde o respeito até a promão. Logo, éevidentemente falsa a idéia de que trata-se de direitos que não podem ser opostos aoEstado em razão de eventual falta de recursos previamente afetados à sua satisfação. Emesmo o argumento da insuficiência econômica perde o sentido diante da autolimitaçãoque o Estado cria à sua discricionariedade quando assume obrigações no camponacional (notadamente por meio de cláusulas constitucionais) ou no campointernacional.IV. Constatadas a autolimitação que obriga o Estado e a correspondenteexigibilidade dos direitos econômicos, sociais e culturais, desponta a necessidade deimplementação de condições concretas de “exigir el cumplimento de esta autolimitación por parte del sujeto obligado (el Estado) y por iniciativa de los sujetos beneficiários (las personas)”
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. Está-se diante da questão da justiciabilidade dos direitos econômicos,sociais e culturais, ou seja, da existência de mecanismos jurídicos de cobrar-se e obter-se o cumprimento dos deveres e obrigações estatais correlatos a esses direitos. E neste ponto, novamente, muitas nações ressentem-se da visão distorcida da segregação dosdireitos civis e políticos dos econômicos, sociais e culturais, que confere apenas àqueleso
 status
de direitos verdadeiros e, portanto, dotados de exigibilidade perante instâncias judiciais
.Esse olhar míope sobre os direitos humanos tem raízes históricas indissociáveisde sua natureza de produtos culturais ocidentais, por vezes positivados para atender àhegemonia e às ideologias próprias do capitalismo
. Nesse contexto, a cio dosdireitos humanos em dois blocos (falsamente) incomuniveis “tem levado àcristalização do pensamento liberal de que os direitos individuais, também chamados dedireitos civis e políticos, estão devidamente resguardados por instrumentos deexigibilidade e justiciabilidade”, em detrimento dos direitos econômicos, sociais eculturais 
.O casamento do liberalismo com os direitos civis e políticos, celebrado por Francisco de Vitoria
, encontrou em John Locke não apenas um protetor, mas alguémdisposto a levar os pensamentos daquele a extremos que, de o exagerados,encontravam nos direitos humanos próprios a justificativa para a supressão dos direitoshumanos alheios.Segundo Locke, o estado civil seria o aperfeiçoamento do estado natural – paraele, um estado de igualdade e liberdade, mas não de licença –, a confirmação deste por uma autoridade, juíza e garantidora da fruição do que é outorgado ao gênero humano por aquele outro estado.Por graça do estado natural, todos os seres humanos seriam beneficiários da leida natureza, que asseguraria a paz desde que respeitadas a integridade física e a propriedade. Segue daí que todos os seres humanos também seriam dotados do poder deexecutar a lei da natureza (afinal, dela seriam indistintamente beneficiários), impondo

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