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O Potencial Sujeito

O Potencial Sujeito

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Published by: Thiago Favaretto Tazinafo on Jan 20, 2010
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01/20/2010

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O Potencial Sujeito
Com esse texto eu tentarei, atrevidamente, esboçar um critério natural,no âmbito científico e filosófico, para determinar, se possível, até que momentoda gestação seria válido suspender a gravidez sem incorrer em homicídio. Sema esperança ingênua de resolver a questão, minha intenção última é promover o debate e a reflexão sobre o tema, que não se esgota, evidentemente, emconsiderações acadêmicas.Como sabemos todos, é cláusula pétrea da Constituição assegurar odireito universal à vida humana. A doutrina concepcionista da Filosofia doDireito, como indica o nome, postula o início dessa vida como sendo omomento da concepção, ou seja, quando da fusão entre os gametas. Nessestermos, o aborto intencional equivale a crime de homicídio. A contrapartenatalista, por outro lado, considera o indivíduo um Sujeito de Direito a partir deseu nascimento com vida. Os natalistas, porém, acham por bem que os direitosdo nascituro devem ser garantidos antecipadamente, por corresponder este aum indivíduo em potencial, i.e., expectativa de nascimento com vida.Analisemos sucintamente ambos os pressupostos.A prerrogativa concepcionista, a meu ver, pode ser defendida sob oponto de vista genético tanto quanto teológico.A perspectiva getica, em prinpio, parece confundir mais queesclarecer, pois teríamos sérias dificuldades em encontrar uma definiçãobiológica para “vida humana” em função do número de cromossomos – que édiferente entre portadores de Síndrome de Down, Turner, Klinefelter, etc. eindivíduos “normais” – e do compartilhamento de genes, cuja combinação éúnica para cada indivíduo. Contudo, o positivismo jurídico garante que a vidahumana começa onde
dissermos
que ela deve começar, ou seja, o direitopositivo se permite “atropelar” obstáculos naturais, de modo que podemos, sequisermos, englobar todas as possíveis falhas ao critério gênico e integrá-lasao mesmo.Por essa mesma razão, porém, o critério genético se torna tão “bom”quanto qualquer outro (como o critério do funcionamento do coração, por exemplo); dessa forma, para não andar em círculos, pulemos logo para a justificativa teológica.
 
Esta é, de imediato, suspeita, uma vez que a Constituição, por bem oumal, assegura-nos o Estado Laico. Além disso, a posição calica écontraditória em si mesma, tendo mudado de doutrina quanto ao momento daimplantação da alma algumas vezes, de modo tal que a sombra daarbitrariedade jaz aqui ainda mais espessa. No mais, como lembra HélioSchwartsman em sua coluna
online
1,2 
, incorre em paradoxo: se a alma éimplantada no “instante” da concepção (que não é exatamente um instante,mas um processo de 24 a 48 horas), o que dizer de gêmeos univitelinos, emque o zigoto se divide anormalmente após a fertilização? A alma, que já estavalá, divide-se ao meio ou, providencialmente, já vem aos pares?Seguindo a tendência de fugirmos do dogmatismo em procura de umadecisão mais natural, deixemo-nos seduzir, ao menos por ora, pelo positivismonatalista: o indivíduo é Sujeito de Direito quando do nascimento com vida,tendo seus direitos assegurados durante a gestação por corresponder a umsujeito em potencial. A questão aqui é definir “potencial”.Quando falamos em potencial como sinimo de “expectativa denascimento com vida”, estamos lidando com probabilidade. E há mais de umamaneira de fazê-lo. Em termos de estatística, por exemplo, sabemos que ataxa de aborto espontâneo na fase de pré-embrião chega a cerca de 70% doscasos (quase três em quatro almas rumando ao purgatório “sem mais nemmenos”). Nesse caso, não faz sentido falar em “indivíduo em potencial” antesda nidação porque a expectativa, na verdade, é de o-nascimento. Noentanto, é possível rejeitar essa interpretação, em princípio, argumentando pelaimponderabilidade da vida: por menor que sejam as chances [de nascimentocom vida], não devemos descartá-las. Como analogia, podemos citar ascirurgias de alto risco: mesmo que a probabilidade de sobrevivência dopaciente seja mínima, é preferível arcar com os riscos a condená-lo a umamorte certa. Pode ser, mas talvez estejamos embaralhando as idéias. Afinal,mandar um soldado à guerra é também, nesses termos, uma condenação àmorte em potencial. Mas voltemos ao caso do aborto. Esse contraponto deimponderabilidade à expectativa de não-nascimento é um argumento de
 probabilidade às cegas
: se há potencial de nascimento com vida, devemospreservá-la, por menor que sejam as chances. O problema desse argumento éque ele iguala a contracepção ao aborto. Regredindo, chegamos a um absurdo:
 
um casal fértil que copule gera um humano em potencial. Logo, as pessoasdeveriam fazer sexo o tempo todo! Recusar uma investida equivaleria acondenar ao não-nascimento um indivíduo em potencial. Mesmo o adolescentemais entusiasmado haveria de concordar com a inviabilidade de tal cenário.Mas aí volta o juspositivista a fazer outro corte: “vamos combinar de regredir opotencial apenas até a concepção”. E assim voltamos à estaca zero.Vejamos a questão do potencial sobre outra perspectiva, ilustrada por um exemplo prosaico, mas nem por isso ineficaz.O que significa dizer que “Fulano tem potencial para ser presidente dopaís”?
Strictu sensu 
raciocinando “às cegas”, como antes nada.Lembremos que Calígula nomeara senador um cavalo a que se afeiçoava e,mais recentemente, o hipopótamo Cacareco fora o “candidato” a vereador maisvotado de São Paulo! Pensando
a priori 
é possível que, num eventual golpe deEstado ou circunstância do gênero, venha a apossar a cadeira presidencial umsujeito ou coisa qualquer, talvez um asno ou um bule. Nos debates de primeiroturno de nossa última eleição presidencial, vimos candidatos dirigiremperguntas incisivas a uma pobre cadeira, mas isso não vem tanto ao caso. Meuponto é que, numa interpretação menos cretina, todos entendem que aafirmação “Fulano tem potencial para ser presidente do país” denota a crençado locutor de que Fulano apresenta um conjunto de atributos que se espera deum Chefe de Estado – integridade, carisma, inteligência etc. Dizer que Fulanoapresenta esse potencial é identificar-lhe propriedades internas que, satisfeitasas condições externas (ser candidato oficial e vencer as eleições), deflagra aação (tornar-se presidente).Numa linguagem mais precisa, o potencial é característica intrínseca aum ser que tem a propriedade de, em condições ambientais adequadas,transformá-lo em outra coisa. Em Lógica, aliás, isso encerra uma armadilha,que deixo aqui como provocação: destruir ou negar o Potencial X não equivalea destruir ou negar X, porque X muda de uma coisa a outra.Os conhecimentos atuais em fisiologia humana asseguram-nos que ascondições internas (o potencial) que permitem a um feto nascer com vida estãotodas presentes a partir da 25
a
semana de gestação. Daí até os nove meses,portanto, podemos considerá-lo um indivíduo de Direito em potencial, pois, umavez satisfeitas as condições externas (nascimento com vida), tornar-se-á um

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