E-books Românticos e Eróticos
cidade pequena, tosca, acidentada e com um charme de velho Oeste que sempre a atraiu. Convidativamente situada entre asMontanhas Ghost ao norte e uma reserva indígena Shoshone ao sul, atraía um número respeitável de turistas no verão etambém caçadores e andarilhos no outono e no inverno. Não havia pilotos na área para levar os caçadores às montanhas, nemvôos de busca e resgate em caso de emergência. A situação não seria melhor se sua avó tivesse arrumado as coisas para elano céu.O que Kate certamente fizera, admitiu com um lampejo pesaroso. Não havia muita coisa que Katherine Winfield Fortunenão tivesse feito ou tentado na vida. Fizera tudo do jeito dela, sempre com seu estilo legendário. Foi ela quem ensinou Rockya voar quando tinha dezesseis anos e se havia alguma maneira de mexer os pauzinhos lá do céu, Kate já teria descoberto.As memórias tomaram conta de Rocky. Ainda achava difícil acreditar que Kate estava morta. Como uma mulher tão cheiade vida permitiu que a morte a levasse em um desastre de avião em alguma selva esquecida por Deus? Kate era mais forte doque isso. E muito boa como piloto para permitir que o avião onde estava caísse tão facilmente. Lutaria como nunca paramantê-lo no ar; e aí, quando ficasse claro que isso não seria possível, arranjaria um jeito de pousá-lo. E teria escapado.Mas não escapou.Com a garganta apertada, Rocky engoliu em seco. Meu Deus, como ela sentia falta dela. Kate sempre compreendeu suanecessidade de independência, sua necessidade de andar com suas próprias pernas e se libertar do dinheiro Fortune, daCosméticos Fortune, das expectativas Fortune. Com sua morte, ela lhe deu os meios de fazer isso. Graças a Kate, ela tinhaseus aviões, experiência de vôo nas montanhas e o treinamento médico de emergência que Kate insistiu que ela completassequando conseguiu sua licença de piloto comercial. Ela cuidara de tudo.Exceto um campo de pouso.Seu primo Kyle, que herdara o rancho de sua avó, ofereceu generosamente que ela usasse suas instalações, mas o orgulhoobstinado de Rocky impediu que ela aceitasse. Cresceu com vantagens que a maioria das pessoas nunca sequer sonhou e jáera hora de provar que podia ficar sobre seus próprios pés. Isso significava não receber favores da família: teria sucesso oufracasso tudo por ela mesma.O que significava que ainda precisava de uma pista de pouso. E a única outra pista privada na área era de Luke Greywolf.O lugar havia pertencido à Douglas Aeronautics e Luke o havia comprado por quase nada — de acordo com os locais,não porque planejasse reabrir o antigo serviço de vôo que faliu durante a crise do petróleo da década de 70, mas porque oterreno era barato e perto da reserva. Ele transformou o maior prédio da propriedade em uma clínica e acrescentou umestacionamento, mas fez poucas mudanças além dessas. O hangar ainda estava enferrujado e a pista esburacada e sem uso — e era sobre isso que ela queria falar com o médico.Ouvira dizer que ele era um homem razoável, então não via motivos para que não fizessem negócio… exceto pelo cartazna frente da clínica. Feito de madeira e pintado de cinza, seria singelo se não fosse pela cara de um lobo que havia sidoentalhada por mão talentosa. Tinha a forte sensação de que o cartaz dizia muito sobre Luke Greywolf. Se fosse algo parecidocom o lobo que tinha em seu nome e protetor de seu território, fazer um negócio com ele não seria tão fácil como esperava.Mas ela não era a neta de Kate Fortune por acaso. Sua avó lhe ensinou que quando uma mulher queria algo de umhomem, tinha de eliminar todos os impedimentos, e foi isso que fez. Olhando para o espelho se examinou rapidamente esorriu. Ela hoje estava parecendo Allie! Claro que todo mundo achava que ela se parecia com sua irmã gêmea, mas não era bem assim. Eram idênticas, mas era Allie que adorava maquiagem e glamour e nascera com o estilo que a tornara a escolha perfeita para modelo da Cosméticos Fortune.E Rocky não a invejava nem um pouco. Detestaria a confusão e amolação de nunca poder sair em público sem se preocupar se o rímel estava borrado ou o cabelo sem vida.Mas num dia em que precisava que tudo funcionasse, decidiu que parecer com sua irmã não lhe faria mal. Olhandocriticamente para sua imagem no espelho, se sentiu satisfeita. Do jeito que ela estava vestida hoje, se Lucas Greywolf recusasse sua proposta provavelmente o homem não tinha sangue nas veias.Luke fez algumas anotações na ficha de Abigail Wilson, a expressão séria ao ler os comentários que havia feito nasvisitas anteriores da paciente. Ela estava grávida do sexto filho e já não tinha como alimentar os outros cinco. Parecia alegre,mas não conseguia esconder o estresse em seus olhos. Como todas as mulheres na reserva, desejava mais para suas crianças,mas sabia que as probabilidades estavam contra eles. Os que tinham mais sorte, lutavam e descobriam uma maneira deescapar na primeira oportunidade. O resto permanecia lá e apenas sobrevivia. Não havia o que fazer.Frustrado e irritado, ele fechou a ficha e a entregou a Mary. — Rachel Fortune ainda está aí? — Na sala um. E nenhuma palavra de reclamação quando a levei para lá. De fato, se desculpou por vir sem marcar hora.Disse que precisava falar com você. Pensei que era arrogante mas é muito simpática.Luke guardou seu julgamento para si mesmo e apenas resmungou. Certamente a moça desejava muito alguma coisa seficou sentada por duas horas em uma sala de espera cheia de pacientes, se não estava nem doente. — Sim, tenho certeza que ela é uma princesa — ele disse e se dirigiu à porta. — Não deve demorar para que eu descubrao que ela quer. Leve Christie Eagle e sua mãe para a sala três e diga a elas que logo estarei lá.Com a face enrugada por linhas firmes, caminhou pelo corredor para a sala de exames número um, rememorando o quesabia sobre a família Fortune. A velha senhora Kate morrera recentemente em um desastre de avião e tudo o que ouvira sobreela é que se tratava de uma águia. Administrara o império da família com mão firme e, pelo preço descendente das ações daCosméticos Fortune, sua ausência já estava sendo sentida.