/  17
 
 
A NOSSA OBSOLETA MENTALIDADEMERCANTIL (*)
Karl Polanyi
NOTA PRÉVIA: O importante artigo de Karl Polanyi foi publicado emPortugal pela RTHI-Revista Trimestral de Histórias e Ideias no seu primeironúmero de 1978, nas Edições Afrontamento (Porto). Esta excelente revistaera então dirigida por Armando Trigo de Abreu e Artur J. Castilho Neves Asvicissitudes da edição em Portugal fizeram infelizmente desaparecer a RTHIapós alguns números. A publicação neste site é também uma homenagem àrevista e ao trabalho dos seus directores de então.A.T.
 
 
Este primeiro século da Idade da máquina chega ao seu fim num ambiente de medoe agitação. O seu fabuloso sucesso material deve-se à pronta e até à entusiásticasubordinação do homem às necessidades da máquina. O capitalismo liberal foi com efeitoa resposta inicial do homem ao desafio da Revolução industrial. Para criarmos condiçõespara a utilização de uma maquinaria elaborada e poderosa, transformamos a economiahumana num sistema auto-regulado de mercado, e moldamos os nossos pensamentos evalores na base desta inovação única e singela.Hoje começamos a duvidar da verdade de alguns destes pensamentos e da validadede alguns destes valores. Fora dos Estados Unidos, já não se pode quase dizer que ocapitalismo liberal continue a existir. Como organizar a vida humana numa sociedade demáquinas é uma questão que de novo enfrentamos. Por detrás do tecido velho e gasto docapitalismo competitivo, surge o portento de uma civilização industrial, com a suadivisão do trabalho imobilizadora, estandardização da vida, supremacia do mecanismosobre o organismo, e da organização sobre a espontaneidade. No seio da própria ciênciasurge o espectro da insanidade. Eis o problema que precisa ser resolvido.Um simples regresso aos ideais do século passado não basta para nos indicar ocaminho. Temos de desafiar o futuro, embora isso nos possa obrigar a tentar deslocar aindústria da posição que ocupa na sociedade de modo a que o factor externo, da máquina,possa ser absorvido. A procura de uma democracia industrial não é apenas a procura deuma solução para os problemas do capitalismo, como muita gente imagina. É a procurade uma resposta para o problema criado pelo próprio facto da indústria. Aqui reside oproblema concreto da nossa civilização. Uma tal reorganização requer uma liberdadeinterior para a qual estamos muito mal preparados. Nós próprios nos encontramosimbecilizados pela herança de urna economia de mercado que nos legou ideias ultra-simplificadas sobre a função e o papel do sistema económico na sociedade. Para que acrise seja vencida precisamos de recuperar uma visão mais realista do mundo do homem,e moldar os nossos objectivos à luz desse reconhecimento.O industrialismo é um ramo precariamente enxertado na já longa existência da
 
humanidade. O resultado da experiência ainda está em suspenso. Mas o homem não é umser simples e pode morrer de mais de uma maneira. O problema da liberdade individual,tão apaixonadamente discutido na nossa geração, é apenas um aspecto deste problemaangustiante. Na verdade faz parte de uma necessidade muito mais vasta e mais profunda -a necessidade de uma resposta nova ao desafio total da máquina.A nossa condição pode ser descrita nos seguintes termos: a civilização industrialainda poderá aniquilar o homem. Mas embora a aventura de um meio ambienteprogressivamente artificial não possa, não deixe de ser e, evidentemente, não deva servoluntariamente afastada, a tarefa de adaptar a vida
num tal contexto
aos requisitos daexistência humana precisa de ser resolvida se o homem quiser continuar a viver sobre aterra. Ninguém pode profetizar se um tal ajustamento é possível, ou se o homem deverámorrer nessa tentativa. Daí a tonalidade sombria da questão.Entretanto, a primeira fase da Idade da máquina terminou. Ela incluiu a organizaçãode uma sociedade cujo nome derivou da sua instituição central, o mercado. Este sistemaestá em declínio. E no entanto a nossa filosofia prática foi modelada de maneira quasetotal por este episódio espectacular. Tornaram-se correntes novas noções sobre o homeme a sociedade, as quais obtiveram o estatuto de axiomas. Ei-las: em relação
ao homem
fomos levados a aceitar a heresia que as suas motivações podem ser descritas como«materiais» e «ideais», e que os incentivos sobre os quais a nossa vida quotidiana estáorganizada provêm das motivações «materiais». Tanto o liberalismo utilitarista como omarxismo vulgar favoreceram tais pontos de vista. Em relação
à sociedade,
propôs-seuma doutrina afim, segundo a qual as instituições eram «determinadas» pelo sistemaeconómico. Esta opinião era ainda mais corrente entre marxistas do que entre liberais.Numa economia de mercado ambas as afirmações eram, evidentemente,verdadeiras.
 Mas só numa tal economia.
Em relação ao passado tal ponto de vista nãopassava de um anacronismo. Em relação ao futuro era um simples preconceito. E noentanto, sob
a
influência de escolas de pensamento dominantes, reforçados pelaautoridade da ciência e da religião, da política e dos negócios, estes dois fenômenosestritamente delimitados no tempo vieram a ser considerados universais, transcendendo afase do mercado. Superar tais doutrinas que limitam a nossa mente e a nossa alma eagravam imenso a dificuldade do, ajustamento necessário para a nossa sobrevivência,

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...