nascidos e dos convertidos, e até nas multidões que soltam foguete quando seu time écampeão.Rituais atualizam o estatuto social de cada um de nós. Comunicam o nosso ingresso nasociedade, a nossa progressão, a nossa despedida definitiva – daí as cerimônias fúnebrespor meio das quais nós prestamos homenagens aos mortos. Sem rituais, não haveriavida em sociedade. Sem eles, não haveria existência simbólica.Portanto, vamos nos esmerar no nosso ritual de hoje. Como todos os outros, estetambém promove um vínculo entre o tempo que foi e o tempo que virá, marcando assimum deslocamento que não poderia passar em branco. Não poderia passar a seco. Nestanoite, os meninos e as meninas que vocês foram se fundem aos homens e mulheresmaduros que vocês serão. Entre o menino e o homem, entre a menina e a mulher, há deser traçada uma linha reta, reta no exato sentido de retidão. Sobre essa reta vai sesustentar, no curso das décadas, a construção de seres humanos íntegros – íntegrosporque inteiros e íntegros também porque unos, indivisíveis no seu núcleo. Sobre essealicerce em forma de linha reta, o que havia de mais precioso nos sonhos juvenis devocês vai conviver com o que haverá de mais honroso na vida produtiva que vocês têmpela frente. Que seja uma convivência harmoniosa e produtiva.
Cicatriz da guerra
Um ritual também oficializa um pacto. Hoje, os jovens sonhadores que vocêscertamente ainda são apresentam um termo de compromisso aos adultos em que vocêsvão se transformar. A versão adulta de vocês é chamada a continuar, é chamada apersistir, traduzindo sonhos em projetos e, depois, projetos em trabalho.É nesse sentido que dizem que somos todos herdeiros das crianças e dos adolescentesque fomos. Somos produtos do que fomos no passado. Vocês são produto daquilo quesonharam, assim como são rascunho do que ainda os espera. Estejam a altura disso.Falo aqui de uma idéia recorrente, que aparece, por exemplo, em Machado de Assis,quando ele anota que "o menino é pai do homem" [trata-se do título do capítulo XI de
Memórias Póstumas de Brás Cubas
]. Mas, embora antiga, essa idéia é negligenciada emnoites como esta, como se não passasse de uma frase de efeito. Acho uma pena. Eu,particularmente, gosto dessa expressão: "o menino é pai do homem". Não costumoentendê-la como se fosse uma determinação, algo dado e que não admite renegociações.Não é assim. O homem não é definido de forma acabada pelo menino que ele foi.O futuro é uma página em branco, ou, melhor, uma página cheia de surpresas. Mesmoassim, o homem sempre será chamado a prestar contas ao menino que ele foi. Não comoquem obedece às birras de uma criança, mas como quem deve saber cuidar dasaspirações que a criança – e, depois, o adolescente – transmitiu a ele, um dia, numritual, mesmo que seja um ritual particular, silencioso. Assim é que, cedo ou tarde,
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