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Entrevista Com Antonio Arantes

Entrevista Com Antonio Arantes

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Entrevista com Antonio A. Arantes, professor de antropologia brasileiro e reconhecido especialista em propriedade intelectual e conhecimentos tradicionais, aborda o pedido de registro da ayahuasca como patrimônio cultural imaterial brasileiro, de iniciativa de grupos ayahuasqueiros.
Entrevista com Antonio A. Arantes, professor de antropologia brasileiro e reconhecido especialista em propriedade intelectual e conhecimentos tradicionais, aborda o pedido de registro da ayahuasca como patrimônio cultural imaterial brasileiro, de iniciativa de grupos ayahuasqueiros.

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Esta entrevista com Antonio A. Arantes, professor de antropologia brasileiro e reconhecidoespecialista em propriedade intelectual e conhecimentos tradicionais, aborda o pedido de registroda ayahuasca como patrimônio cultural imaterial brasileiro, de iniciativa de gruposayahuasqueiros. Na primeira parte da entrevista, Arantes reflete sobre as mudanças trazidas pelasnovas concepções que orientam o programa nacional do patrimônio imaterial no Brasil. Elediscute vários exemplos de bens culturais reconhecidos pelo estado brasileiro, tais como ocandomblé e o samba, e analisa as questões controversas envolvendo autenticidade e tradiçãocom base nesses e em outros casos semelhantes. Na segunda parte, Arantes reflete sobre o casoespecífico da ayahuasca referindo-se a questões jurídicas relativas ao encaminhamento deste pedido de registro e aos desafios que se colocam à definição exata dos aspectos desta realidade aserem reconhecidos como patrimônio.Em abril de 2008, alguns dos principais centros ayahuasqueiros brasileiros, com apoio deautoridades do Acre, inclusive de seu governador, Binho Marques, encaminharam ao entãoMinistro da Cultura, Gilberto Gil, um pedido para que o Instituto de Patrimônio Histórico eArtístico Nacional (IPHAN) reconhecesse o uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio cultural imaterial brasileiro. A movimentação foi articulada pela Deputada FederalPerpétua Almeida, do PCdoB, e ainda aguarda uma resposta por parte do IPHAN.Os grupos ayahuasqueiros parecem apostar que o registro reforçará sua legitimidadesocial, hoje frágil. Caso venha a ocorrer, representará uma grande conquista para esses grupos,cujas práticas, marginalizadas e descriminadas, talvez se tornem mais um ícone da cultura brasileira. Mas, ao mesmo tempo, o registro provavelmente implique em questões espinhosas, porque preservar um bem pode significar cristalizá-lo, como se houvesse uma forma mais
“autêntica” e atemporal que as demais, quando, na realidade, as práticas religi
osas e terapêuticasque lançam mão da ayahuasca são dinâmicas, sincréticas e às vezes até contraditórias. Como osantropólogos Antonio A. Arantes e Gilberto Velho têm argumentado, a definição de quais itensdo patrimônio cultural devem ser protegidos engendra sempre tensões, negociações e conflitos
de interesse. Nas palavras de Velho “
estamos lidando, ao examinarmos as políticas públicas deatrimônio, com complexas questões que envolvem emoções, afetos, interesses os mais variados,referências, gostos e projetos heterogêneos e contraditórios. (...) A heterogeneidade da sociedade complexa moderno-contemporânea (...) aponta para as dificuldades e as limitações deuma ação pública responsável pela defesa e pela proteção de um patrimônio cuja escolha edefiniç
ão implicam necessariamente arbítrio e, em algum nível, exercício do poder”
. (Velho,2006, pp. 244-246; Arantes, 1987).
 
A ayahuasca é uma bebida psicoativa utilizada por diversas populações indígenas daAmazônia (Labate, Rose e Santos, 2009; Labate e MacRae, 2006). Seu principal ingrediente psicoativo é o DMT, substância proscrita pela Convenção de Viena da ONU, de 1971, da qual oBrasil é signatário. Mesmo assim, o governo brasileiro reconhece o direito ao uso religioso da planta, pelo fato de ela ser utilizada como um sacramento nas religiões do Santo Daime (em suasvertentes Alto Santo e Cefluris), da Barquinha e da União do Vegetal (UDV). Embora aBarquinha e o Alto Santo tenham permanecido restritos à região de Rio Branco, onde foramfundados nas décadas de 1930 e 1940, respectivamente, o Cefluris e a UDV se espalharam peloBrasil e pelo mundo. O Cefluris está presente em boa parte das capitais brasileiras e em mais devinte e cinco países, e a UDV se encontra em quase todos os estados do país, na Espanha e nosEstados Unidos
 – 
onde, diga-se de passagem, enfrentou um processo histórico que chegou àSuprema Corte e saiu vitorioso. O fato de alguns atores da Rede Globo terem aderido ao SantoDaime, na década de 1980, certamente contribuiu para trazer visibilidade a estas práticas deorigem amazônica, que têm sido vistas a um só tempo com fascínio e repugnância pela sociedadenacional. A bebida é utilizada também por grupos indígenas fora do território brasileiro. Emborao se acredite que o uso da ayahuasca é milenar, de acordo com a literatura científica, sabemosque ele ocorre, com certeza, há cerca de 300 anos (cf. Gow, 1996) e que seu uso entre os gruposindígenas da Amazônia é, provavelmente, um fenômeno mais recente, que vem ocorrendo hámais ou menos um século (cf. Shepard, 1998).Em 24 de junho de 2008, o Instituto Nacional de Cultura do Peru declarou osconhecimentos e usos tradicionais da ayahuasca das comunidades nativas amazônicas como
 
 patrimônio cultural peruano. O documento associa a bebida à medicina tradicional dos povosindígenas e à identidade cultural Amazônica, e destaca ainda suas virtudes terapêuticas. Amedida visaria a impedir o desaparecimento ou enfraquecimento da medicina tradicional peruanae de seus curandeiros, assim como evitar a associação da ayahuasca com usos ocidentaisdescontextualizados, consumistas e com propósitos comerciais (Instituto Nacional de Cultura,2008).Em setembro de 2006, instalações do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal
 – 
AltoSanto, a igreja daimista mais antiga - da década de 1940 - localizada na Área de ProteçãoAmbiental Raimundo Irineu Serra, já havia sido protegida por um decreto do governador JorgeViana e do prefeito Raimundo Angelim, como patrimônio histórico e cultural do Acre. Oreconhecimento foi produto de uma luta dos centros daimistas de Rio Branco, em conjunção comuma situação política favorável, na qual membros e simpatizantes das religiões ayahuasqueirasfaziam parte do governo petista acreano. Naquela ocasião, no entanto, o tombamento se referiuestritamente ao patrimônio
material 
e se deu em âmbitos municipal e estadual (até onde pudemos investigar, houve também um pedido para o IPHAN, para o qual ainda se aguardaresposta).[ii] Agora, o que se pede unicamente ao órgão federal é o registro como patrimônio cultural
imaterial 
.Aparentemente, a iniciativa peruana nada teve a ver com aquela desencadeada poucoantes do outro lado da fronteira, mais especificamente em Rio Branco. O interessante, no caso brasileiro, é que os grupos ayahuasqueiros, embora mais recentes e de origem urbana,
conseguiram estabelecer legitimidade enquanto “guardiões de tradições religiosas e culturais
 
amazônicas”, ocupando, por assim dizer, o lugar do nativo e do tradicional em nosso imaginário,
fato que provavelmente colaborou para o seu reconhecimento legal pelo governo, em 1986 (ver Labate, 2004; MacRae, 1992). A novidade do processo deflagrado em 2008 é que agora, paraalém de uma identidade amazônica genérica, surge uma identidade particular, a acreana (apesar de a União do Vegetal, o maior grupo ayahuasqueiro do país, ter a sua origem em Porto Velho,no estado vizinho de Rondônia).Vale fazer um breve retrospecto da institucionalização do tombamento do patrimôniocultural no Brasil. Em novembro de 1937, sob inspiração de um documento redigido por Máriode Andrade, foi publicado o decreto-lei nº 25, instituindo o Serviço de Patrimônio Histórico eArtístico Nacional (SPHAN). De acordo com ele, o patrimônio seria
"o conjunto dos bensmóveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por suavinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico
" (Canani, 2005, p.170). Inicialmente,esse decreto acarretou predominantemente o tombamento de conjuntos arquitetônicos coloniais barrocos, como Ouro Preto, em Minas Gerais, e o Pelourinho, em Salvador, Bahia.Atualmente, o IPHAN mantém no âmbito de sua missão a identificação, tombamento e preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural, em parceria com os Estados eMunicípios, e a participação crescente da sociedade civil. Entretanto, a Constituição daRepública Federativa do Brasil de 1988 sofisticou a legislação relativa ao patrimônio cultural,incluindo bens tangíveis e intangíveis, e abriu caminho para a implementação de uma concepçãomais pluralista da cultura nacional e do interesse público.[iii]  O Registro do Patrimônio Cultural Imaterial e o Programa Nacional para a Salvaguardado Patrimônio Cultural Imaterial foram criados em 2000, pelo Decreto federal 3551, com vistas amelhor contemplar a diversidade e a dinâmica culturais. O caráter inovador dessas medidasdecorre de proporem a identificação sistemática e abrangente de bens culturais de natureza processual e dinâmica, abrindo caminho para a superação dicotomia material/imaterial. Quanto aesse segundo ponto, Antonio Arantes argumenta que produto e processo cultural sãoindissociáveis:
“as coisas feitas testemunham o modo de fazer e o saber fazer. Elas abrigam
 também os sentimentos, lembranças e sentidos que se formam nas relações sociais envolvidas narodução e, assim, o trabalho realimenta a vida e as relações humanas. O cabedal produzidoelo trabalho de gerações de praticantes de determinada arte ou ofício é algo mais geral do quecada peça produzida ou executada, do que cada celebração realizada. (...) Mas, emcontrapartida, encontra-se em cada obra ou na lembrança que se tem dela o testemunho do que
 
alguém é capaz de fazer”
(Arantes, 2004, p.13).O IPHAN mantinha, inicialmente, quatro livros de tombo: Livro de TomboArqueológico, Etnográfico e Paisagístico; Livro de Tombo Histórico; Livro de Tombo das BelasArtes, e Livro de Tombo das Artes Aplicadas. Para a salvaguarda do patrimônio imaterial,criaram-se mais quatro livros de registro: Livro de Registro de Saberes, onde são inscritosconhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades; Livro de Registrodas Celebrações, no qual são inscritos rituais e festas que marcam a vivência coletiva dotrabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social; Livro deRegistro de Formas de Expressão, que abrange manifestações literárias, musicais, plásticas,cênicas e lúdicas; Livro de Registro dos Lugares, onde são inscritos mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços em que se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas.Entre os bens culturais imateriais protegidos, no Brasil, estão, por exemplo, a ArteKusiwa - técnica de pintura e arte gráfica dos índios Wajãpi, do Amapá, inscrita no Livro deRegistro das Formas de Expressão; a festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré
 – 
celebraçãoreligiosa de Belém do Pará, inscrita no Livro das Celebrações; o Jongo
 – 
canto, dança e percussão
 – 
, herança cultural dos africanos de língua banto, registrado no Livro de Registro dasFormas de Expressão; o samba-de-roda do Recôncavo Baiano, inscrito no Livro de Registro dasFormas de Expressão; e as Cachoeiras dos Iauaretê, sítios sagrados de povos indígenas daAmazônia, no Livro de Registro de Lugares.
 
Uma questão relevante, portanto, é se a ayahuasca pode fazer parte da lista de bensculturais protegidos. Bia Cayubi Labate (a seguir BCL) e Ilana Goldstein (a seguir IG)entrevistaram o antropólogo Antonio A. Arantes, reconhecido especialista em assuntos de propriedade intelectual e conhecimentos tradicionais, sobre a possibilidade de o uso religioso daayuhuasca ser salvaguardado através do processo de registro. Arantes é um dos fundadores e professor-titular do Departamento de Antropologia Social da Unicamp, formado nasuniversidades de São Paulo e de Cambridge. Foi presidente da Associação Brasileira deAntropologia - ABA e do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológicoe Turístico do Estado de São Paulo
 – 
CONDEPHAAT, além de ter presidido o Instituto doPatrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. Possui vários livros e artigos publicados noBrasil e no exterior, entre eles
 Produzindo o passado
(Arantes, 1984),
 Paisagens paulistanas
 (Arantes, 2000a) e
O espaço da diferença
(Arantes, 2000b). . Seus artigos incluem Diversity,heritage and cultural politics (Arantes, 2007) e Heritage as culture (Arantes, 2009).
 
Antes de conversar sobre o pedido de registro do uso da Ayahuasca, pedimos que Arantesexplicasse a diferença entre patrimônio material e imaterial e os principais dilemas envolvidos no processo de registro e tombamento de bens culturais no Brasil. A seguir, transcrevemos esse ricodiálogo:
BCL/IG: Você poderia começar fazendo uma pequena apresentação de sua trajetória e decomo a temática do patrimônio cultural cruzou seu caminho?
 ANTONIO ARANTES: Sou antropólogo, trabalhei a vida inteira nessa área de conhecimento e, por uma razão ou por outra, tenho sido levado para as questões de patrimônio. Sobretudo desde1982, quando presidi o CONDEPHAAT, em São Paulo. A partir daí, tenho reencontrado o patrimônio de várias maneiras. Em 1988, por exemplo, participei de audiências públicas relativasà mudança da Constituição e um dos artigos sobre os quais eu mais me interessei e para o qual procurei contribuir 
 – 
até por ser, naquela época, presidente da Associação Brasileira deAntropologia
 – 
, foi o Artigo 216, que define patrimônio cultural brasileiro. Esse conceito vinhasendo utilizado no Brasil desde 1937, com a criação do IPHAN, porém pautado numa concepçãode patrimônio que se referia a valores estéticos e históricos de uma cultura, digamos,hegemônica no país, uma cultura de elite. Havia dificuldade em absorver o fato de que a cultura brasileira foi construída a partir da contribuição de diferentes grupos sociais, em diferentesmomentos e contextos históricos. Tinha-se aquela visão do patrimônio branco, católico, português, bem representado pelas edificações do período colonial.
BCL/IG: Quais seriam os ícones máximos dentro dessa concepção de patrimônio?
 ANTONIO ARANTES: A cidade de Ouro Preto é um bom exemplo. Seu conjunto arquitetônicofoi um dos primeiros bens do patrimônio cultural brasileiro a serem tombados, e por diversos

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