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André Comte-Sponville (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes) - Boa-fé
André Comte-Sponville (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes) - Boa-fé

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Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
De
André Comte-Sponville
Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999Tradução de Eduardo Brandão
16A boa-fé
Falta-me uma palavra aqui para designar, entre todas essas virtudes, a que rege nossasrelações com a verdade. Pensei primeiro em
sinceridade
, depois em
veracidade
ou
veridicidade
(que seria melhor, mas que o uso não abonou), antes de pensar, por umtempo, em
autenticidade
… Decidi-me finalmente por
boa-fé
, sem desconhecer que essaopção pode exceder o uso comum da palavra. Mas é boa-fé, por não ter encontradopalavra melhor.O que é a boa-fé? É um fato, que é psicológico, e uma virtude, que é moral. Como fato, éa conformidade dos atos e das palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma.Como virtude, é o amor ou o respeito à verdade, e a única fé que vale. Virtude
aletheiogal 
, porque tem a própria vontade como objeto.Não, claro, que a boa-fé valha como certeza, nem mesmo como verdade (ela exclui amentira, não o erro), mas que o homem de boa-fé tanto diz o que acredita, mesmo queesteja enganado, como acredita no que diz. É por isso que a boa-fé é uma fé, no duplosentido do termo, isto é, uma crença ao mesmo tempo em que uma fidelidade. É crençafiel, e fidelidade no que se crê. Pelo menos enquanto se crê que seja verdade. Vimos, apropósito da fidelidade, que ela devia ser fiel antes de tudo ao verdadeiro: isso definemuito bem a boa-fé. Ser de boa-fé não é sempre dizer a verdade, pois podemos nosenganar, mas é pelo menos dizer a verdade sobre o que cremos, e essa verdade, aindaque a crença seja falsa, nem por isso seria menos verdadeira. É o que se chama tambémde sinceridade (ou veracidade, ou franqueza), e o contrário da mentira, da hipocrisia, daduplicidade, em suma, de todas as formas, privadas ou públicas, da má-fé. Há mais,porém, na boa-fé do que na sinceridade – em todo caso é uma distinção que proponho.Ser sincero é não mentir a outrem; ser de boa-fé é não mentir nem ao outro nem a si. Asolidão de Robinson, em sua ilha, dispensava-o de ser sincero (pelo menos até a chegadade Sexta-feira) e até tornava essa virtude sem objeto. Nem por isso a boa-fé deixava deser necessária, em todo caso louvável e devida. A quem? A si, e isso basta.A boa-fé é uma sinceridade ao mesmo tempo transitiva e reflexiva. Ela rege, ou deveriareger, nossas relações tanto com outrem como conosco mesmos. Ela quer, entre oshomens como dentro de cada um deles, o máximo de verdade possível, de autenticidadepossível, e o mínimo, em conseqüência, de artifícios ou dissimulações. Não hásinceridade absoluta, mas tampouco há amor ou justiça absolutos: isso não nos impedede tender a elas, de nos esforçar para alcançá-las, de às vezes nos aproximarmos delasum pouco… A boa-fé é esse esforço, e esse esforço já é uma virtude. Virtude intelectual,se quisermos, pois refere-se à verdade, mas que põe em jogo (já que tudo é verdadeiro,até nossos erros, que são verdadeiramente errados, até nossas ilusões, que sãoverdadeiramente ilusórias) a totalidade de um indivíduo, corpo e alma, sensatez eloucura. É a virtude de Montaigne e sua primeira palavra: “
É este um livro de boa-fé,leitor 
” É também, ou deveria ser, a virtude por excelência dos intelectuais em geral edos filósofos em particular. Os que dela carecem em excesso, ou que se pretendem livresdela, não são mais dignos desses nomes que os lisonjeiam e que eles desacreditam. Opensamento não é apenas um ofício, nem uma diversão. É uma exigência: exigênciahumana, e talvez a primeira virtude da espécie. Não foi suficientemente notado que ainvenção da linguagem não cria em si mesma nenhuma verdade (pois todas elas sãoeternas), mas traz isto, que é novo: a possibilidade, não apenas da astúcia ou do logro,como nos animais, mas da mentira.
Homo loquax: homo mendax 
. O homem é um animalque pode mentir, e que mente. É o que torna a boa-fé logicamente possível, emoralmente necessária.
 
Dir-se-á que a boa-fé não prova nada; estou de acordo. Quantos canalhas sinceros,quantos horrores consumados de boa-fé? E, muitas vezes, o que há de menos hipócritaque um fanático? Os tartufos são legião, porém menos numerosos talvez, e menosperigosos, que os savonarolas e seus discípulos. Um nazista de boa-fé é um nazista: deque adianta sua sinceridade? Um canalha autêntico é um canalha: de que adianta suaautenticidade? Como a fidelidade ou a coragem, a boa-fé tampouco é uma virtudesuficiente ou completa. Ela não substitui a justiça, nem a generosidade, nem o amor. Masque seria uma justiça de má-fé? Que seriam um amor ou uma generosidade de má-fé?Já não seriam justiça, nem amor, nem generosidade, a não ser que corrompidos à forçade hipocrisia, de cegueira, de mentira. Nenhuma virtude é verdadeira, ou não éverdadeiramente virtuosa sem essa virtude de verdade. Virtude sem boa-fé é má-fé, nãoé virtude. “A sinceridade”, dizia La Rochefoucauld, “é uma abertura de coração que nos mostra taiscomo somos; é um amor à verdade, uma repugnância a se disfarçar, um desejo dereparar seus defeitos e até de diminuí-los, pelo mérito de confessá-los.” É a recusa deenganar, de dissimular, de enfeitar, recusa que às vezes não passa, ela mesma, de umartifício, de uma sedução como outra qualquer, mas nem sempre, o que mesmo LaRochefoucauld admite, pela qual o amor à verdade se distingue do amor-próprio, quefreqüentemente engana, por certo, mas que às vezes ele supera. Trata-se de amar averdade mais que a si mesmo. A boa-fé, como todas as virtudes, é o contrário donarcisismo, do egoísmo cego, da submissão de si a si mesmo. É por intermédio disso queela tem a ver com a generosidade, a humildade, a coragem, a justiça… Justiça noscontratos e nas trocas (enganar o comprador de um bem que vendemos, por exemplonão o avisando sobre determinado defeito oculto é agir de má-fé, é ser injusto), coragemde pensar e de dizer, humildade diante do verdadeiro, generosidade diante do outro… Averdade não pertence ao eu: é o eu que pertence a ela, ou que ela contém, e que elapermeia, e que ela dissolve. O eu é sempre mentiroso, sempre ilusório, sempre mau. Aboa-fé liberta-se dele, e é por isso que ela é boa.Deve-se dizer tudo, então? Claro que não, pois não é possível. Falta tempo, e a decênciao impede, a doçura o impede. Sinceridade não é exibicionismo. Sinceridade não éselvageria. Temos o direito de nos calar, e até devemos fazê-lo com freqüência. A boa-fénão proíbe o silêncio mas sim a mentira (ou o silêncio apenas quando mentiroso), eainda assim nem sempre: voltaremos a isso. Veracidade não é patetice. Em todo caso, averdade é “a primeira e fundamental parte da virtude”, como dizia Montaigne, quecondiciona todas as outras e não é condicionada, em seu princípio, por nenhuma. Avirtude não precisa ser generosa, suscetível de amor ou justa para ser verdadeira, nempara valer, nem para ser devida, ao passo que amor, generosidade ou justiça só sãovirtudes se antes de tudo forem verdadeiras (se forem verdadeiramente o que parecemser), portanto se agirem de boa-fé. A verdade não obedece, nem mesmo à justiça, nemmesmo ao amor, a verdade não serve, nem compensa, nem consola. É por isso que,continua Montaigne, “é necessário amá-la por ela mesma”. Não há boa-fé de outromodo: “Aquele que diz a verdade porque é obrigado e porque ela serve, e que não temedizer mentira, quando não importa a ninguém, não é suficientemente verdadeiro.” Nãodizer tudo, pois, mas dizer – salvo dever superior – apenas o verdadeiro, ou o que sepensa ser verdadeiro. Há lugar aqui para uma espécie de casuística, no bom sentido dotermo, que não enganará os que são de boa-fé. O que é a casuística? É o estudo dos
casos de consciência
, em outras palavras, das dificuldades morais que resultam, oupodem resultar, da aplicação de uma regra geral (por exemplo: “Não se deve mentir”) asituações singulares, muitas vezes mais ricas ou mais equívocas do que a própria regra,que nem por isso deixa de ser regra. A regra é bem enunciada por Montaigne, e é umaregra de boa-fé: “Nem sempre se deve dizer tudo, pois seria tolice; mas o que se diz, épreciso que seja tal como pensamos, senão é maldade.” Voltaremos a falar das exceções,para a regra que supõem e que não poderiam anular. A boa-fé é essa virtude que faz daverdade um valor (isto é, já que não há valor em si, um objeto de amor, de respeito, devontade…) e a ela se submete. Fidelidade antes de tudo ao verdadeiro, sem o quequalquer fidelidade não passa de hipocrisia. Amor à verdade, antes de tudo, sem o que
 
todo amor não passa de ilusão ou de mentira. A boa-fé é essa fidelidade, a boa-fé é esseamor, em espírito e em ato. Digamos melhor: a boa-fé é o amor à verdade, na medidaem que esse amor comanda nossos atos, nossas palavras, até mesmo nossospensamentos. É a virtude dos verídicos.O que é um homem verídico? É aquele, explicava Aristóteles, que “ama a verdade” e quepor isso recusa a mentira, tanto por excesso como por falta, tanto por fabulação comopor omissão. Ele se mantém “num meio-termo”, entre gabolice e dissimulação, entrefanfarronice e segredo, entre falsa glória e falsa modéstia. É “um homem sem meandros,sincero ao mesmo tempo em sua vida e em suas palavras, e que reconhece a existênciade suas qualidades próprias, sem nada acrescentar a elas e sem nada delas subtrair.” Uma virtude? Claro: “Em si mesma, a falsidade é coisa baixa e repreensível, e asinceridade coisa nobre e digna de elogio.” Felizes gregos, nobres gregos, para quemessa evidência não era nem superada nem superável! Se bem que… Eles também tinhamseus sofistas, como nós temos os nossos, que essa ingenuidade, como eles dizem, farásorrir. Pior para eles. O que vale um pensamento, a não ser pela verdade que contém oubusca? Chamo de
sofística
qualquer pensamento que se submete a outra coisa que não averdade, ou que submete a verdade a outra coisa que não ela mesma. A filosofia é seucontrário na teoria, como a boa-fé o é na prática. Trata-se de viver e de pensar, tantoquanto possível,
em verdade
, ainda que à custa da angústia, da desilusão ou dainfelicidade. Fidelidade ao verdadeiro, antes de tudo: mais vale uma verdadeira tristezado que uma falsa alegria.Que a boa-fé tenha sobretudo de haver-se com a gabolice, pois resiste a ela, foi o queAristóteles percebeu muito bem e que confirma sua oposição ao narcisismo ou ao amor-próprio. O amor a si? Não, é claro, já que o verídico é amável, já que o amor a si é umdever, já que seria mentir, simular, para consigo mesmo, uma impossível indiferença. Maso homem verídico se ama como é, como se conhece, e não como gostaria de parecer oude ser visto. É o que distingue o amor a si do amor-próprio, ou a magnanimidade, comodiz Aristóteles, da vaidade. O homem magnânimo “preocupa-se mais com a verdade doque com a opinião pública, fale e age abertamente, pois o pouco caso que faz dos outroslhe permite exprimir-se com franqueza. É por isso que ele gosta de dizer a verdade,salvo nas ocasiões em que emprega a ironia, quando se dirige à massa.” Dir-se-á que aessa magnanimidade falta caridade, o que é verdade; mas não por causa da veracidadeque ela comporta. Mais vale uma verdadeira grandeza do que uma falsa humildade. Etambém é verdade que ela se preocupa demais com a honra; mas nunca à custa damentira. Mais vale uma verdadeira altivez do que uma falsa glória.O verídico submete-se à
norma da idéia verdadeira dada
, como diria Spinoza,
ou possível 
, como eu acrescentaria: ele diz o que sabe ou crê ser verdadeiro, nunca o quesabe ou o que crê ser falso. A boa-fé exclui então toda mentira? Parece que sim, e quasepor definição: como se mentiria de boa-fé? Mentir supõe que se conheça a verdade, ouque se creia conhecê-la, e que se diga deliberadamente outra coisa que não o que sesabe ou o que se crê. É isso que a boa-fé proíbe, ou recusa. Ser de boa-fé é dizer o quese pensa ser verdadeiro: é ser fiel (em palavras ou atos) à sua crença, é submeter-se àverdade do que se é ou se pensa. Toda mentira seria, pois, de má-fé, e por issocondenável.Esse rigorismo, que a meu ver é dificilmente sustentável, parece, no entanto, assumidopor Spinoza e Kant. Tal encontro entre essas duas sumidades merece ao menos umexame. “O homem livre nunca age como enganador”, escreve Spinoza, “mas sempre de boa-fé.” De fato, o homem livre é aquele que só se submete à razão, que é universal: se elaautorizasse a mentira, ela sempre a autorizaria, e qualquer sociedade humana seriaimpossível. Muito bem. Mas se for, para tal indivíduo, sob risco de sua própria vida? Issonão altera nada, responde tranqüilamente Spinoza, pois a razão, sendo a mesma emtodos, não poderia depender dos interesses, mesmo que vitais, de cada um. Daí esteescólio surpreendente:

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