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HOBBES - Segundo-Hanna Arendt

HOBBES - Segundo-Hanna Arendt

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Categories:Types, Research, Law
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07/12/2013

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 pensamento de HOBBES segundo HANNAH ARENDT--------------------------------------------------------------------------------O SISTEMA TOTALITÁRIOSEGUNDA PARTE: IMPERIALISMOV - A emancipação política da burguesia2. O poder e a burguesia--------------------------------------------------------------------------------[...]O imperialismo deve ser considerado o primeiro estágio do domínio político da burguesiae não o último estágio do capitalismo. Sabe-se muito bem do pouco interesse demonstrado emexercer o poder pelas classes proprietárias pré burguesas, que se contentavam com qualquer tipode Estado, desde que lhe pudessem confiar a protecção da sua propriedade. Na verdade, paraelas o Estado havia sido sempre uma. força policial bem organizada. Essa falsa modéstia,contudo, teve a curiosa consequência de manter toda a classe burguesa fora do corpo político;antes de serem súbditos numa monarquia ou cidadãos numa república, eram essencialmente pessoas privadas. Essa privatividade e a preocupação principal de ganhar dinheiro haviamgerado uma série de padrões de conduta que encontram expressão nos provérbios – «nada é tão bem sucedido como o sucesso», «a força é o direito», «o direito é a conveniências, etc. -que sãonecessariamente frutos da experiência de uma sociedade competitiva.Quando, na era do imperialismo, os comerciantes se tornaram políticos e foramaclamados como estadistas, enquanto os estadistas só eram levados a sério se falassem a línguados comerciantes bem sucedidos e «pensassem em termos de continentes», essas práticas emecanismos privados transformaram-se gradualmente em regras e princípios para a conduçãodos negócios públicos. É significativo que esse processo de reavaliação, iniciado no fim doséculo XIX e ainda em vigor, tenha começado com a aplicação de convicções burguesas aosnegócios estrangeiros, e só lentamente tenha sido estendido à política doméstica. Assim, asnações interessadas mal perceberam que o desregramento que se introduzia na vida privada, econtra a qual a estrutura, política sempre tivera de defender-se a si própria e aos seus cidadãos,estava a pique de ser promovido ao posto de único princípio político publicamente reconhecido.É importante observar que os modernos adeptos da força estão em completo acordo com afilosofia do único grande pensador que jamais tentou derivar o bem público a partir do interesse privado e que, em benefício deste bem privado, concebeu e esboçou uma Commonwealth cuja base e objectivo final é a acumulação do poder. Hobbes é, realmente, o único grande filósofo deque a burguesia pode, com direito e exclusividade, orgulhar-se, embora os seus princípios nãofossem reconhecidos pela classe burguesa durante muito tempo. O Leviatã 1 de Hobbes expôs aúnica teoria política segundo a qual o Estado não se baseia em nenhum tipo de lei construtiva -seja divina, seja natural ou de contrato social - que determine o que é certo ou errado nointeresse individual em relação às coisas públicas, mas sim nos próprios interesses individuais,de modo que «o interesse privado e o interesse público são a mesma coisa» 2.É difícil encontrar um único padrão moral burguês que não tenha sido previsto pelainigualável magnificência da lógica de Hobbes. Ele pinta um quadro quase completo não doHomem, mas do homem burguês. uma análise que em trezentos anos não se tornou antiquadanem foi suplantada. «A razão... é nada mais que cálculo»; «um súbdito livre, uma vontadelivre... (são) palavras... sem significado, isto é, um Absurdo». O homem é essencialmente umafunção da sociedade e é, portanto, julgado de acordo com o seu «valor ou merecimento... o seu preço; ou seja, aquilo que se lhe daria pelo uso da sua força». Esse preço é constantemente
 
avaliado e reavaliado pela sociedade, fonte da «estima dos outros», de acordo com a lei daoferta e da procura.O poder, segundo Hobbes, é o controlo que permite estabelecer os preços e regular aoferta e a procura de modo que sejam vantajosas aos que detêm este poder. O indivíduo deinício isolado, do ponto de vista da minoria absoluta, compreende que só pode atingir e realizar os seus alvos e interesses com a ajuda de certa espécie de maioria. Portanto, se o homem não érealmente motivado por nada além dos seus interesses individuais, o desejo do poder deve ser asua paixão fundamental. É esse desejo de poder que regula as relações entre o indivíduo e asociedade e todas as outras ambições, porquanto a riqueza. o conhecimento e a fama são as suasconsequências.Hobbes mostra que, na luta pelo poder, como na capacidade inata de o desejar, todos oshomens são iguais, pois a igualdade do homem reside no facto de cada um, por natureza, ter suficiente potencialidade para matar um outro, já que a fraqueza pode ser compensada pelaastúcia. A igualdade coloca todos os homens na mesma insegurança; daí a necessidade doEstado. A raison d'être do Estado é a necessidade de dar alguma segurança ao indivíduo, que sesente ameaçado por todos os seus semelhantes.O traço crucial do retrato que Hobbes pinta do homem não está no seu pessimismorealista, porque se fosse verdade que o homem é um ser como Hobbes o quer, não seria capazde fundar qualquer corpo político. Na verdade, Hobbes não consegue, nem realmente procura,incorporar definitivamente esse ser numa comunidade política. O Homem de Hobbes não devequalquer lealdade ao seu país se este for derrotado, e é desculpado de qualquer traição casovenha a ser feito prisioneiro. Aqueles que vivem fora da comunidade (os escravos, por exemplo)não têm nenhuma obrigação para com os que a compõem e podem matar tantos quantosquiserem; mas, por outro lado, «nenhum homem tem a liberdade de resistir à espada dacomunidade em defesa de outro homem, culpado ou inocente», o que significa que não existenem espírito de companheirismo nem responsabilidade entre homens. O que os mantém juntos éum interesse comum, como por exemplo. «algum crime capital, pelo qual todos esperam ser  punidos com a morte», tendo neste caso o direito «de se unir, ajudando-se e defendendo-se unsaos outros. ...Pois apenas defendem as suas vidas».Assim, a participação em qualquer forma de comunidade é para Hobbes temporária elimitada e essencialmente não muda o carácter solitário e privado do indivíduo (que não tem«prazer, mas, pelo contrário, muito desgosto em manter companhia, quando não há força paraobrigá-lo a tanto»), nem cria laços permanentes entre ele e os companheiros. O resultado é ainerente e confessada instabilidade da comunidade – Commonwealth – de Hobbes, cuja própriaconcepção prevê a sua ulterior dissolução: «quando numa guerra (estrangeira ou intestina) osinimigos obtêm a vitória final... então o Commonwealth é dissolvido, e cada homem tem aliberdade de se proteger a si mesmo». Esta instabilidade é surpreendente na teoria de Hobbes, namedida em que o seu objectivo primário é assegurar um máximo de segurança e estabilidade.Seria uma grave injustiça a Hobbes e à sua dignidade como filósofo considerar esseretrato do homem como tentativa de realismo psicológico ou verdade filosófica. O facto é queHobbes não está interessado nem num nem noutra, mas preocupa-se exclusivamente com a própria estrutura política e traça as feições do homem em função das necessidades do Leviatã.Para fins de argumento e convicção, apresenta o seu esboço político partindo do desejo de poder  pelo homem e passando para o plano do corpo político adaptado a essa sede de poder.Esse corpo político foi concebido para o uso da nova sociedade burguesa que emergia noséculo XVII, e esse quadro do homem é um esboço do novo tipo de homem que se adequava aele. O Commonwealth é baseado na delegação da força, e não do direito. Adquire o monopóliode matar e dá em troca uma garantia condicional contra o risco de ser morto. A segurança é proporcionada pela lei, que emana directamente do monopólio de força do Estado (e não é
 
estabelecida pelo homem segundo padrões humanos de «certo» e «errado»). Porque na lei doEstado não existe a questão de «certo» ou «errado», mas apenas a obediência absoluta, o cegoconformismo da sociedade burguesa. E como essa lei flúi directamente do poder que ela tornaabsoluto, passa a representar a necessidade absoluta aos olhos do indivíduo que vive sob ela.Despojado de direitos políticos, o indivíduo, para quem a vida pública e oficial semanifesta sob o disfarce da necessidade, adquire novo e maior interesse pela sua vida privada e pelo seu destino pessoal. Excluído da participação na gerência dos negócios públicos queenvolvem todos os cidadãos, o indivíduo perde tanto o lugar a que tem direito na sociedadecomo a conexão natural com os seus semelhantes. Agora, só pode julgar a sua vida privadaindividual comparando-a com a dos outros, e as suas relações com os companheiros dentro dasociedade tomam a forma de concorrência. Numa sociedade de indivíduos, todos dotados pelanatureza de igual capacidade de força e igualmente protegidos uns dos outros pelo Estado, queregula os negócios públicos e os problemas de convívio sob o disfarce da necessidade, apenas oacaso pode decidir quem vencerá 3.De acordo com os padrões burgueses, aqueles que são completamente destituídos de sortee não têm sucesso são automaticamente excluídos da competição, que é a essência da vida dasociedade. A boa sorte é identificada com a honra e a má sorte com a vergonha. Transferindo para o Estado os seus direitos políticos, o indivíduo delega nele também as suasresponsabilidades sociais: pede ao Estado que o alivie do ónus de cuidar dos pobres,exactamente como pede protecção contra os criminosos. Não há mais diferença entre mendigo ecriminoso ambos estão fora da sociedade. Os que fracassam perdem a virtude que a civilizaçãoclássica lhes legou: os que são infelizes já não podem apelar para a caridade cristã.Hobbes isenta os que são excluídos da sociedade – os fracassados, os infelizes, oscriminosos – de qualquer obrigação em relação ao Estado e à sociedade, se o Estado não cuidadeles. Podem dar rédea solta ao seu desejo de poder, e são até aconselhados a tirar vantagem dasua capacidade elementar de matar, restaurando assim aquela igualdade natural que a sociedadeesconde apenas por uma questão de conveniência. Hobbes prevê e justifica que os proscritossociais se organizem em bandos de assassinos, como consequência lógica da filosofia moral burguesa.Como a força é essencialmente apenas um meio para um fim, qualquer comunidade baseada unicamente na força entra em decadência quando atinge a calma da ordem e daestabilidade; a sua completa segurança revela que ela é construída sobre a areia. O poder só écapaz de garantir o status quo adquirindo mais poder; só pode permanecer estável ampliandoconstantemente a sua autoridade atras do processo de acumulão de poder. OCommonwealth de Hobbes é uma estrutura vacilante que está sempre a precisar de ir em buscade novos esteios de fora; de contrário, ruiria imediatamente para a insensatez do caos deinteresses privados de onde surgiu. Hobbes incorpora a necessidade de acumulação de poder àteoria do estado natural, à «condição de guerra perpétua» de todos contra todos, na qual osvários Estados mantêm em relação aos outros a posição que caracterizava os seus súbditos antesde se submeterem à autoridade da Commonwealth 4. Essa perene possibilidade de guerragarante à Commonwealth uma esperança de permanência, porque torna possível ao Estadoaumentar o seu poder à custa de outros Estados.Seria erróneo tomar pelo seu valor aparente a óbvia inconsistência entre o apelo deHobbes a favor da segurança do indivíduo e a inerente instabilidade da sua Commonwealth. Novamente aqui ele tenta persuadir, apelar para certos instintos básicos de segurança que, comoele sabia muito bem, podiam sobreviver nos súbditos do Leviatã apenas sob a forma de absolutasubmissão à força que «os intimida a todos», isto é, um medo esmagador e universal - que não éexactamente o sentimento básico do homem que se julga seguro. O ponto de partida de Hobbesé uma incomparável compreensão das necessidades políticas do novo corpo social da burguesiaem ascensão, cuja crença fundamental num processo interminável de acumulão de

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