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Parte I
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O que é Essa Coisa Chamada Direito?
Observação: este texto representa uma versão provisória de umcapítulo de livro ainda inédito, que se chamará
Direito: um guia para juristas e curiosos
. Disponibilizo-o livremente para que seja objeto decríticas, comentários e sugestões, que podem ser enviadas para o meue-mail: georgemlima@yahoo.com.br1 Em busca de uma definição
Vamos iniciar nosso estudo tentando descobrir o que é o direito. Afinal, o que vocêespera encontrar neste livro?Para começar, peço que você faça um exercício mental para imaginar três julgamentos hipotéticos ocorridos em contextos muito diferentes entre si, mas queenvolvem um crime nada divertido: o estupro.O primeiro caso ocorreu no coração da selva amazônica, em uma tribo isolada, que
nunca manteve contato com o mundo “civilizado”
. Um índio ianomâmi praticou umestupro contra a esposa de um membro de sua tribo e foi julgado e condenado pelos seuspares. A pena: banimento. A tribo concordou em banir aquele índio estuprador do convíviosocial e expulsou-o da comunidade. Até hoje o índio malfeitor vaga solitário pelas noitesescuras da floresta selvagem...O segundo caso se deu em uma favela dominada pelo crime organizado. Houve umestupro e os familiares da vítima procuraram o chefe do tráfico de drogas da comunidade,clamando por vingança. O chefe da organização criminosa montou uma espécie de tribunalparalelo com todos os princípios básicos de um julgamento oficial, ouviu a versão doacusado, ouviu a vítima e algumas testemunhas e concluiu que o estupro ocorrera de fato.De imediato, o criminoso-chefe sentenciou o estuprador e o condenou à pena de morte,determinando ainda que a punição fosse executada com crueldade. Dez horas depois dacondenação, o estuprador foi encontrado morto e carbonizado no meio de um campo defutebol que existia na favela.O terceiro caso se passou na alta sociedade de uma grande cidade brasileira. Umfamoso e influente empresário foi acusado de estupro após fazer sexo com uma criança dedoze anos de idade. O Código Penal brasileiro considera que o estupro é presumido
 
quando a vítima é menor de catorze anos. É o que diz o artigo 217-A do Código Penal:
Estupro de vulnerável: Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de14 (catorze) anos: Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos
”.
No julgamento, oTribunal de Justiça, em polêmica decisão, inocentou o acusado por entender que a criança já não era mais virgem, ganhava a vida se prostituindo e havia concordado em manterrelação sexual em troca de dinheiro. Assim, de acordo com os julgadores, apesar de terficado provado que o empresário, de fato, fizera sexo com uma criança de doze anos, nãoteria cometido nenhum crime e foi absolvido
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.Temos, nos exemplos acima, três situações hipotéticas que poderiam ter ocorridode verdade. Quais dos julgamentos podem ser considerados como
direito
?É fácil perceber que a resposta a essa pergunta irá variar conforme a perspectiva deanálise. Existem muitas controvérsias quanto à definição de direito. Aliás, não existediscussão mais acalorada e mais estéril do que a discussão em torno da definição dedireito. Para alguns, o direito da favela, o direito canônico, o direito indígena, o direito damáfia, o direito internacional poderiam ser enquadrados no conceito de direito; paraoutros, não. Para alguns, só é direito o direito positivo, imposto coercitivamente peloestado; para outros, também os princípios de justiça (direito natural), ainda que nãoreconhecidos oficialmente pelo estado, fariam parte do conceito de direito. Para alguns, sóseria direito o que está na lei; para outros, o direito seria muito mais do que a lei.
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O exemplo é meramente hipotético, mas não está muito longe da realidade. Há muitos juristas queconsideram que a experiência sexual anterior da menor é suficiente para descaracterizar o estupropresumido caso haja o consentimento da vítima. O entendimento, contudo, é minoritário.
O que vêm àmente quandose pensa emdireito?LeiJustiçaNormaResoluçãode conflitoJulgamentoCostumeRegrasObrigatórias
 
Quem está certo e quem está errado? A rigor, não dá para dizer quem está certo, jáque não existe alguém que seja titular da patente da etiqueta
“direito”
.
A palavra “direito”
serve para designar um conjunto muito amplo de fatos sociais. Por isso, cada pessoa podedefinir como quiser, bastando que assuma as conseqüências de sua definição de formacoerente e encontre um grupo de pessoas que aceitem e compreendam tal definição.A definição de uma palavra depende do uso que as pessoas fazem dessa palavra. No
caso da palavra “direito”, as pessoas costumam utilizá
-la em muitos sentidos diferentes.Por isso, a definição de direito vai depender do uso lingüístico que um determinado gruposocial faz dessa expressão em um determinado contexto. Assim, não se pode dizer, em tomtaxativo e intransigente, o que é direito, pois essa palavra tem muitos usos diferentes.Mas se não há um conceito definitivo, único e unanimemente aceito, devemos nosresignar e desistir de procurar uma definição razoável? É lógico que não. Podemos simtentar encontrar alguns requisitos básicos que podem caracterizar um determinado objetode estudo como direito. Afinal, somos estudante de direito. Seria muito estranho se nãotivéssemos a mínima idéia do que devemos estudar. É isso que tentaremos fazer nestecapítulo.
Você sabe direito o que é direito?
A pergunta acima usa a palavra
direito
 
em duas acepções diferentes. “Saber direito”significa “saber bem”, “saber corretamente”. Logo, a palavra
direito
, nessa expressão, estáno sentido de
certo
. No entanto, não é esse o sentido que adotamos quando perguntamospara um grupo de estudantes da graduação de um curso jurídico
“o que é direito?”.
Aqui, apalavra
direito
não tem um sentido muito preciso, mas, pelo contexto em que a pergunta
foi formulada, parece que pode ser traduzida como algo mais ou menos assim: “o quevocês esperam estudar quando ingressaram na faculdade de direito”? Dito de outro modo:“qual é o objeto de estudo de um estudante de direito”?
 Perguntar sobre qual deve ser o objeto de estudo de um estudante de direito é umapergunta mais simples, pois é mais prática e talvez menos controvertida. Porém, até
mesmo essa pergunta pode gerar várias respostas diferentes. Há quem responda: “por
mim, não quero
estudar nada. Quero é o diploma e ponto final”. Mas para esses
alunosnão há muito o que dizer, exceto desejar-lhes boa sorte. Alguns mais patriotas dirão:
“pretendo estudar as leis do meu país”. Outros responderão: “quero estudar não apenas as
leis, mas todas as normas jurídicas aprovadas pelo e
stado”. Alguém, com a mente mais
aberta,
diria: “pois eu desejo conhecer não apenas as normas jurídicas aprovadas pelo
estado, mas também todas as informações que possam ser úteis ao profissional do
direito”. E assi
m por diante...

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