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Dislexia - como Identificar e Intervir

Dislexia - como Identificar e Intervir

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05/09/2014

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D
OSSIER
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ERTURBAÇÕES DO
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ESENVOLVIMENTO
Rev Port Clin Geral 2004;20:713-30 
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O
saber ler é uma das apren-dizagens mais importan-tes, porque é a chave quepermite o acesso a todosos outros saberes. A leitura e a escrita são formas do processamento linguís-tico. Aprender a ler, embora seja uma competência complexa, é relativamentefácil para a maioria das pessoas.Contudo, um número significativo depessoas, embora possuindo um nívelde inteligência médio ou superior, mani-festa dificuldades na sua aprendizagem. Até há poucos anos a origem desta difi-culdade era desconhecida, era uma in-capacidade invisível, um mistério, quegerou mitos e preconceitos estigmati-zando as crianças, os jovens e os adul-tos que a não conseguiam ultrapassar.Nos últimos anos os estudos realiza-dos por neurocientistas, utilizando a Ressonância Magnética Funcional,(fMRI), permitiram observar o funciona-mento do cérebro durante as activida-des de leitura e escrita e obtiveram umconjunto bastante consistente de con-clusões sobre as seguintes questões:Como funciona o cérebro durante asactividades de leitura? Quais as compe-tências necessárias a essa aprendiza-gem? Quais os défices que a dificultam?Quais as componentes dos métodos ed-ucativos que conduzem a um maior sucesso?Os Estados Unidos têm sido pionei-ros na investigação científica, na legis-lação educativa, na orientação sobre osmétodos de ensino que provaram ser osmais eficientes. Na Europa não existeuma base legal comum que apoie ascrianças disléxicas. A grande maioria continua sem ser diagnosticada e sem beneficiar de uma intervenção especia-lizada. No nosso país o Decreto-lei 319//95, aplica-se às crianças com necessi-dades educativas especiais, mas nãofaz qualquer referência em relação à metodologia reeducativa a adoptar.Na grande maioria dos casos os alu-nos dependem da «benevolência» dosprofessores, desculpando a falta de cor-recção, a fluência leitora, a limitação vocabular, os erros ortográficos... Uma situação preocupante é a deficiente for-mação não só dos professores mas, oque é ainda mais grave, a deficiente for-mação dos responsáveis pela formaçãodos professores. Um sinal muito positi- vo é o interesse crescente que este tema tem suscitado; nos últimos anos têmsido realizados diversos congressos,seminários, jornadas...Os resultados dos estudos recente-mente publicados pela OCDE, sobre onível de literacia e o sucesso escolar, co-locam Portugal nos últimos lugaresconstituindo mais um sinal de alerta e
Dislexia:Como identificar?Como intervir?
*Psicóloga Educacional,especialista em dislexia 
A dislexia é talvez a causa mais frequente de baixo rendimento e insucesso escolar. Na grande maioria dos casos não é identificada, nem correctamente tratada. O objectivo deste artigo é dar a conhecer os conceitos básicos desta perturbação, de modo a permitir aos médicos de família conhe- cer e identificar, nas crianças, os sinais de risco precoces, colocar a hipótese do seu diagnóstico e encaminhá-las para uma avaliação e intervenção especializada.Palavras Chave: 
Dislexia; disortografia; perturbação da leitura e da escrita.
PAULA TELES*
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preocupação. Este artigo pretende ser um contributo para a sinalização eorientação das crianças em risco, oucom dificuldades, nesta aprendizagemtão determinante no percurso das suas vidas.Em que medida este artigo pode in-teressar os médicos de família? Sendoo médico de família o especialista queacompanha todos os elementos do agre-gado familiar, ao longo de toda a vida e,sendo a dislexia uma perturbação comincidência familiar, encontra-se numa situação privilegiada para poder inter- vir precocemente, logo que observe al-guns indicadores de risco na história pessoal ou familiar. Não se pretendeque o médico de família seja um «espe-cialista» nesta área, mas sim que conhe-ça os sinais de alerta, para os poder identificar o mais precocemente possí- vel e encaminhar para uma avaliaçãoespecializada. A intervenção é um de-safio que se coloca a todos os responsá- veis pela saúde e desenvolvimento in-fantil: médicos, psicólogos, investiga-dores, professores das escolas superio-res de educação, professores, pais egovernantes.Este artigo propõe-se sumarizar osresultados dos recentes estudos sobredislexia e a nova ciência da leitura. Oseu objectivo é contribuir para um co-nhecimento actualizado desta pertur- bação, alertar e sensibilizar para os si-nais indiciadores de futuras dificulda-des, possibilitar a avaliação e interven-ção precoce, em síntese, prevenir oinsucesso antes de acontecer.Em 1896, Pringle Morgan, descreveu ocaso clínico de um jovem de 14 anosque, apesar de ser inteligente, tinha uma incapacidade quase absoluta emrelação à linguagem escrita, que desig-nou de «cegueira verbal»
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. Desde então
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esta perturbação tem recebido diversasdenominações: «cegueira verbal congé-nita», «dislexia congénita», «estrefossim- bolia», «alexia do desenvolvimento»,«dislexia constitucional», «parte do con-tínuo das perturbações de linguagem,caracterizada por um défice no proces-samento verbal dos sons»...Nos anos 60, sob a influência dascorrentes psicodinâmicas, foram mini-mizados os aspectos biológicos da dis-lexia, atribuindo as dificuldades leitorasa problemas emocionais, afectivos e«imaturidade»
2
. Em 1968, a FederaçãoMundial de Neurologia utilizou pela pri-meira vez a expressão «dislexia do de-senvolvimento», definindo-a como «umtranstorno que se manifesta por dificul-dades na aprendizagem da leitura, ape-sar das crianças serem ensinadas commétodos de ensino convencionais,terem inteligência normal e oportunida-des socioculturais adequadas»
3
. Em1994, O Manual de Diagnóstico e Es-tatística de Doenças Mentais, DSM IV,inclui a dislexia nas perturbações deaprendizagem, utiliza a denominação«perturbação da leitura e da escrita» eestabelece os seguintes critérios dediagnóstico
4
: A.O rendimento na leitura/escrita,medido através de provas normali-zadas, situa-se substancialmenteabaixo do nível esperado para a ida-de do sujeito, quociente de inteli-gência e escolaridade própria para a sua idade;B.A perturbação interfere signifi-cativamente com o rendimento esco-lar, ou actividades da vida quotidi-ana que requerem aptidões de leitu-ra/escrita;C.Se existe um défice sensorial, as di-ficuldades são excessivas em relaçãoàs que lhe estariam habitualmenteassociadas.Em 2003, a Associação Internacionalde Dislexia adoptou a seguinte defi-nição: «Dislexia é uma incapacidade es-pecífica de aprendizagem, de origem
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ONCEITODE 
ISLEXIA
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RIRIOSDE 
IAGNÓSTICO 
 
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neurobiológica. É caracterizada por difi-culdades na correcção e/ou fluência na leitura de palavras e por baixa com-petência leitora e ortográfica. Estas difi-culdades resultam de um défice fono-lógico, inesperado, em relação às outrascapacidades cognitivas e às condiçõeseducativas. Secundariamente podemsurgir dificuldades de compreensãoleitora, experiência de leitura reduzida que pode impedir o desenvolvimento do vocabulário e dos conhecimentosgerais»
5
. Esta definição de dislexia é a actualmente aceite pela grande maioria da comunidade científica.Durante muitos anos a causa da disle- xia permaneceu um mistério. Os estu-dos recentes têm sido convergentes, quer em relação à sua origem genética e neu-robiológica, quer em relação aos proces-sos cognitivos que lhe estão subjacentes. Têm sido formuladas diversas teoriasem relação aos processos cognitivos res-ponsáveis por estas dificuldades.
1. Teoria do défice fonológico
Nos estudos sobre as causas das difi-culdades leitoras a hipótese aceite pela grande maioria dos investigadores é a hipótese do défice fonológico
6
. De acor-do com esta hipótese, a dislexia é causa-da por um défice no sistema de proces-samento fonológico motivado por a uma «disrupção» no sistema neurológico ce-rebral, ao nível do processamentofonológico
7
. Este défice fonológico difi-culta a discriminação e processamentodos sons da linguagem, a consciência de que a linguagem é formada por pala- vras, as palavras por sílabas, as sílabaspor fonemas e o conhecimento de queos caracteres do alfabeto são a repre-sentação gráfica desses fonemas
8
. A leitura integra dois processoscognitivos distintos e indissociáveis: a descodificação (a correspondência gra-fofonémica) e a compreensão da mensa-gem escrita. Para que um texto escritoseja compreendido tem que ser lido pri-meiro, isto é, descodificado. O défice fo-nológico dificulta apenas a descodifica-ção. Todas as competências cognitivassuperiores, necessárias à compreensão,estão intactas: a inteligência geral, o vo-cabulário, a sintaxe, o discurso, oraciocínio e a formação de conceitos.
C
OMOFUNCIONAOREBRODURANTEALEITUR
?
Sally Shaywitz e colaborabores (1998)utilizaram a fMRI para estudar o fun-cionamento do cérebro, durante as tare-fas de leitura e identificaram três áreas,no hemisfério esquerdo, que desem-penham funções chave no processo deleitura: o girus inferior frontal, a área parietal-temporal e a área occipital-tem-poral (Fig. 1)
8,9
:A região inferior-frontal é a área da linguagem oral. É a zona onde se pro-cessa a vocalização e articulação daspalavras, onde se inicia a análise dos fo-nemas. A subvocalização ajuda a leitu-ra fornecendo um modelo oral das pa-lavras. Esta zona está particularmen-te activa nos leitores iniciantes e dis-léxicos.A região parietal-temporal é a áreonde é feita a análise das palavras.Realiza o processamento visual da for-ma das letras, a correspondência grafo-fonémica, a segmentação e a fusãosilábica e fonémica. Esta leitura analíti-ca processa-se lentamente, é a via uti-lizada pelos leitores iniciantes e dislé- xicos.A região occipital-temporal é a área onde se processa o reconhecimento vi-sual das palavras, onde se realiza a leitura rápida e automática. É a zona para onde convergem todas as infor-mações dos diferentes sistemas sen-soriais, onde se encontra armazenadoo «modelo neurológico da palavra». Estemodelo contem a informação relevantesobre cada palavra, integra a ortografia 
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DITORIAIS
 
EORIAS 
XPLICATIVAS 

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