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Educação e Espiritualidade

Educação e Espiritualidade

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Artigo sobre a importância do desenvolvimento da inteligência espiritual e sobre o lugar da espiritualidade no currículo escolar
Artigo sobre a importância do desenvolvimento da inteligência espiritual e sobre o lugar da espiritualidade no currículo escolar

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Published by: Valéria Moura Venturella on Feb 18, 2010
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EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE
1
Valéria Moura Venturella
2
Resumo
Este trabalho aborda a importância do desenvolvimento da inteligência espiritual ou existencial,conforme recente denominação por Howard Gardner (2001) – no necessário processo de ressignificaçãodas práticas e vivências escolares dos estudantes, professores e demais participantes do processoeducacional. Partindo de uma visão crítica ao modelo científico e acadêmico vigente na atualidade, oestudo apresenta uma proposta de experiência escolar apoiado na moderna concepção de ser humanointegral e coerente com o parecer da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI daUNESCO
Ter espírito, ser um 'ente dotado de espírito', significa sobretudo ser 
capax universi
,capaz de abarcar e de ser receptivo ao todo do mundo.Josef Pieper 
Em novembro de 1991, às portas do início de um novo milênio, a Conferência Geral da UNESCOsolicitou que seu diretor-geral convocasse uma comissão internacional que se encarregaria de refletir sobre a educação no século XXI. A Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI reuniu,em 1993, quinze pessoas de diferentes regiões do mundo, e dessa reunião resultou o conhecido
Educação: um tesouro a descobri
(DELORS, 1998), um material que apresenta sugeses erecomendações para a renovação das práticas educacionais em todo o mundo.
“Este relatório deverá propor perspectivas, tanto políticas como relacionadas com a prática da educação que sejam ao mesmotempo inovadoras e realistas, tendo em vista a grande diversidade de situações, de necessidades, demeios e de aspirações, segundo os países e regiões” 
(p. 272). Nos últimos anos, o chamado RelatórioDelors se consagrou como uma importante fonte de consulta, reflexão e inspiração para educadores detodos os níveis em todo o planeta.No capítulo de abertura da segunda parte do relatório – a parte dedicada aos princípioseducacionais – a Comissão coloca os conhecidos Quatro Pilares da Educação, “
quatro aprendizagensfundamentais que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares doconhecimento
” (p. 89 e 90). Esses quatro pilares são: aprender a conhecer, a fazer, a viver juntos e aser, quatro dimensões do conhecimento a serem desenvolvidas de modo integrado, uma vez que
existem entre elas múltiplos pontos de contato, relacionamento e permuta
” (p. 90).Embora o Relatório atribua igual importância aos quatro pilares, define o
aprender a ser 
como avia essencial que integra os três outros, e orienta educadores e instituições a lhes dedicar atençãoespecial. “
 A educação deve contribuir para o desenvolvimento integral da pessoa – espírito e corpo,inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade
” (p. 99). Sensível àconstante ameaça de desumanização que decorre do desenvolvimento desenfreado na técnica, aComissão atribui à educação a importante tarefa de oferecer às crianças, jovens e adultos referênciasque lhes permitam compreender a si mesmos e ao mundo que lhes rodeia e, a partir dessacompreensão, construir condições para atuar na realidade de maneira autônoma e responsável,interpretando de maneira crítica e consciente os conhecimentos, as tradições e os valores que lhes sãotransmitidos pela sociedade. E esse aprendizado, segundo o Relatório, deve envolver a pessoa de modointegral, não só em sua dimensão intelectual – geralmente a mais exercitada na escola – mas também
1
Artigo Publicado na Revista Hífen da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Uruguaiana,Uruguaiana, v.28, n.53, p. 25-28, 2004.
2
Professora dos cursos de Pedagogia e Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul –Uruguaiana Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
 
em seus aspectos motor, afetivo e espiritual.Frei Betto (BETTO, 2004), em concordância com a Comissão, afirma que a educação deve ser um espaço e um tempo dedicados à construção de
sentido
. A educação deve nos auxiliar a desenvolver a capacidade de sentir, perceber, compreender e apreciar a nós mesmos, aos outros, ao que nos cercae às relações que se estabelecem entre esses elementos que formam o todo em que estamos inseridos.Alunos e professores, na condição de seres humanos, necessitam encontrar o significado de suas vidase de suas atividades, e necessitam descobrir suas missões e seus propósitos de vida.Alfons Deeken, professor de Filosofia na Universidade Sophia, em Tóquio, afirma que a
 percepção de sentido
é determinante em nossa atitude perante a vida, e na maneira como nosconduzimos ao longo de nossa trajetória. O autor sustenta que um dos maiores problemas dahumanidade é a incapacidade de perceber o sentido da vida, o que geralmente leva à frustração, aodesespero, e ao que ele denominou “vácuo existencial” (DEECKEN, 1973), vazio e solidão interiores,que – ele acredita – podem estar na raiz de muitas das neuroses e outros graves problemas dasociedade, tais como delinqüência, abuso de drogas e suicídio. A busca do sentido na vida deve assimconstituir a preocupação primeira de cada pessoa e também da educação.Porém, perceber sentido não é uma tarefa fácil para nós. Embora nem sempre estejamosconscientes, nossa ciência, nossa cultura, nossa sociedade e nossa educação estão firmementeapoiadas sobre o paradigma cartesiano de conhecimento, que está apoiado em três pressupostosprincipais:
o racionalismo, que considera a razão como a qualidade humana por excelência, a única capazde desvendar os mistérios do conhecimento;
a neutralidade do sujeito, ou a separação entre o sujeito que estuda e o objeto estudado;
o reducionismo ou fragmentação, que sustenta que, para se conhecer o todo é necessário esuficiente desmembrá-lo em suas partes constituintes, para então investigá-las, como se aorganização do todo não produzisse qualidades ou propriedades novas em relação às partesconsideradas isoladamente (MORIN, 2002b).René Descartes, ao proferir seu famoso “penso, logo existo”, inaugurou o modelo moderno deprodução de conhecimento e, pelos últimos três séculos, temos acreditado que o que não é racional nãoé real. Nossa cultura essencialmente cartesiana também não considera o sujeito em suas múltiplasdimensões, e tem dificuldades para ter uma visão integral do todo composto pelas partes estudadas.Como resultado, esse paradigma não reconhece a pessoa integral e não considera a importância dapercepção do sentido da vida e do mundo.Essa ciência cartesiana possibilitou o aprofundamento dos estudos nas mais diversas áreas, ecomo conseqüência fizemos descobertas e avanços cuja importância no destino da humanidade sãoindiscutíveis. Contudo, esses enormes progressos científicos, combinados com o atrofiamento de umareflexão mais profunda sobre suas conseqüências nos levou a uma situação para a qual hoje buscamossaídas. Presenciamos a destruição tanto real quanto potencial do meio ambiente, desperdício derecursos e enormes desigualdades sociais e econômicas, entre outras mazelas que não prevíramos epara as quais ainda não temos soluções.Pode-se dizer que estamos vivendo uma crise quando descobrimos que a maneira comopensamos e procedemos já não dá conta do momento presente, quando soluções antes consideradasideais para resolver determinadas situações já não produzem os resultados esperados, e não atendem anossas expectativas. Nesse sentido, é possível afirmar que estamos vivendo hoje uma “crise de
 
paradigma”, uma vez que o modelo cartesiano que embasa nossa civilização não parece estar nosoferecendo as respostas que buscamos para nossos problemas. Inserida nesse contexto, a educaçãoescolar também atravessa uma crise, pois ela poderia ser considerada como o estandarte da visãocartesiana do mundo – racionalidade, objetivismo, fragmentação, reducionismo – tanto em sua estruturaquanto em seus processos.Por força da tradição acadêmica cartesiana, a escola acaba privilegiando as competênciasracionais e se esforçando para oferecer aos alunos uma certa carga de conhecimentos considerados,pelo senso comum, importantes para a atuação das pessoas em sociedade e – principalmente – nomercado de trabalho. Esses conhecimentos geralmente são compartimentalizados em disciplinasfechadas, sem conexão aparente entre si, e muitas vezes desvinculadas da realidade dos alunos.Frei Betto denuncia que a escola não lida com os temas essenciais da vida ao não se abrir paradiscutirmos nossas experiências como seres humanos. “
 A escola separa a cabeça das mãos, não nosabarca na totalidade, na formação do ser como tal para a vida
” (BETTO, 1997) o que mutila odesenvolvimento de nossa inteligência.A palavra inteligência vem do latim
intus leggere
, que significa “a capacidade de ler dentro”. Vistasob esse ângulo, inteligência é a capacidade de olhar para a profundidade das pessoas, dos objetos, doseventos e do modo como eles estão relacionados, e ler – enxergar, compreender, interpretar – o queexiste e ocorre. Esta capacidade não é desenvolvida através do acúmulo gradual de informações.Também não nos tornamos mais inteligente apenas através do exercício do raciocínio, mas outrossimpela ampliação de nossa intuição, sensibilidade, abertura para o novo, capacidades de questionamento ereflexão.Muitos cientistas e pensadores da atualidade admitem que, embora a racionalidade seja umamaneira válida de nos relacionarmos com o mundo, ela não pode nos oferecer uma compreensãocompleta da realidade, especialmente da realidade do espírito humano, pois só é capaz de descrever ouniverso de forma limitada e aproximada (MORIN, 2001). Há outros tipos de conhecimento – como ointuitivo, o afetivo e o simbólico – que têm sido negligenciados. A abertura para esses diferentes modosde conhecer pode nos revelar o caminho para o desenvolvimento de nossa espiritualidade (PORTAL,2002).A palavra espírito deriva do termo latino
spiritus
, que significa
sopro de vida
. Podemos, dessemodo, definir espírito como a energia e a vitalidade que anima os seres vivos, fazendo com que elesfuncionem no mundo, relacionando-se com ele. Em seu significado original, espírito não constitui umafração do ser distinta do corpo, mas uma parte integral do ser enquanto sentido e força vital.A partir dessa definição de espírito, podemos conceituar espiritualidade como a vivência integralda dinâmica da vida, a consciência do ânimo e da energia de cada ser, em seu movimento e suasrelações no universo. A espiritualidade é, pode-se afirmar, um modo de ser e de viver, uma maneiraplena e integrada de nos colocarmos no mundo, de percebê-lo e compreendê-lo como um todo do qualfazemos parte, e que, por sua vez, faz parte de nós.Embora cientistas e teólogos discordem em muitos pontos, ambos concordam que, para além domundo físico de causa e efeito descrito pelas ciências, deve haver uma “força invisível e indefinível”(MARQUES, 2002), uma energia presente em cada elemento do universo que estabelece os nexosessenciais entre esses elementos, integrando-os e dando-lhes sentido. Edgar Morin afirma que, comoem um holograma, essa ordem cósmica se encontra integrada no interior de cada ser vivo (MORIN,2001), e a espiritualidade pode ser definida como a consciência da presença dessa organização, e a

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