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A Estética e o Poder Formativo da Recepção

A Estética e o Poder Formativo da Recepção

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O artigo aborda a estética da recepção pelo ângulo de seu potencial formador do ser humano
O artigo aborda a estética da recepção pelo ângulo de seu potencial formador do ser humano

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Published by: Valéria Moura Venturella on Feb 18, 2010
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A ESTÉTICA E O PODER FORMATIVO DA RECEPÇÃOValéria Moura Venturella
1
 A leitura é criação dirigida
(SARTRE, 1989, p. 38)
.
A teoria da estética da recepção resultou de um movimento iniciado no final dos anos60 na Universidade de Constança, na Alemanha, por pensadores liderados por Hans RobertJauss e Wolfgang Iser, como uma reação aos padrões positivistas e idealistas do século XIXpara o estudo e a abordagem da literatura (ZILBERMAN, 1989).Até então, o consumidor da obra literária – o leitor – era considerado um elementopouco relevante na teoria da literatura. A estética da recepção rompeu com essa perspectivaao propor uma investigação sobre a recepção e os efeitos da obra literária no leitor.
 Aestética da recepção apresenta-se como uma teoria em que a investigação muda de foco:do texto enquanto estrutura imutável, ele passa para o leitor 
(ZILBERMAN, 1989, p. 10-11).A estética da recepção não aborda, assim, o texto a partir das intenções do autor oudas condições do meio em que a obra foi produzida. Abandonando as interpretaçõesconsideradas “corretas” – baseadas na imanência do texto – ou as que buscam um sentidofixo na obra, essa teoria também não faz uma aproximação descritiva ou explicativa daprodução literária. Em vez disso, ela aborda a
 potencialidade
da obra.Para a estética da recepção, todo texto é uma obra em potencial, que se realizaatravés da ação do leitor e dos efeitos que nele provoca. Iser (1999) mostra que os sentidosdo texto não o fixos, intocados, gerados a partir de elementos do texto, mas simoriginados na atuação do leitor. Seu sentido é construído, desconstruído e reconstruído peloleitor à medida que ele interage com a obra. Assim, pessoas diferentes lerão a obra demaneiras distintas, e um mesmo leitor pode atribuir diferentes sentidos ao texto se tiver achance de interagir com ele em diferentes momentos de sua trajetória.Segundo essa teoria, uma obra literária não tem sua existência entendida comofechada e acabada, mas sim como uma realidade que pode ser constantementereformulada, uma vez que ela abarca múltiplas projeções que se concretizam no ato daleitura. O autor, ao invés de impor uma ótica única ao leitor, deve despertar diferentespontos de vista e deixar perspectivas em aberto. A tarefa do autor é despertar no leitor odesejo de ler. Já a tarefa do leitor é a de formar a partir do texto uma interpretação originalque não é necessariamente aquela formulada pelo autor da obra.A estética da recepção representou um rompimento com a tradicional teoria literária
1Mestre em Educação e doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS; professora dos cursos dePedagogia e Letras na PUCRS – Uruguaiana.
 
por integrar o receptor no próprio processo de criação literária, isto é, por realçar aintervenção fundamental do leitor na produção dos sentidos que emergem do texto. Para ospensadores de Constança, a obra só se realiza ao ser recepcionada pelo leitor.Assim, nessa teoria, a leitura não se limita à decifração de signos e sinais escritos,mas é um ato de comunicação. Mais do que isso, a leitura é uma ação criativa e construtiva.Ao ler, o receptor participa da construção da obra, se apropriando de uma das múltiplasperspectivas possíveis em seu interior.A teoria da estética da recepção explora a dinâmica que se estabelece na relaçãoentre o leitor e o texto literário, que é essencialmente interativa. Nessa interação, tanto aobra quanto o receptor se engajam em uma relação recursiva (MORIN, 2002) marcada por uma causalidade circular, em que os dois elementos se influenciam e se modificammutuamente.Desse modo, ao mesmo tempo em que o leitor interfere no texto, colaborando naconstrução de seus sentidos, o texto influencia o leitor, abrindo a possibilidade de umareflexão filosófica e de uma re-elaboração de suas próprias significações. No momento emque o leitor assume sua tarefa de co-criador, o próprio conteúdo do texto sofre importantesmodificações, que são únicas para cada leitor. Simultaneamente, pode-se dizer que a obratem o potencial de causar no leitor transformações marcantes, ao preencher os “espaçosvazios” de seu ser.Segundo Iser (1999) a característica da obra que permite que essa relação interativaentre o leitor e o texto se estabeleça é sua estrutura comunicativa, ou estrutura apelativa,que consiste em um convite, um chamamento para que o leitor participe de seu processo deconcretização.Toda a obra de arte – categoria em que se enquadra a literatura – apresenta sentidosindeterminados ou amguos, em que reside sua riqueza. Esses elementos deindeterminação são necessários à atividade reflexiva do receptor. Eles incitam a recepção eestimulam o receptor a buscar aquilo que a obra pode efetivamente produzir.No caso das obras literárias, esses elementos de indeterminação, conforme Iser (1999), consistem na presença de espaços abertos, ou espaços vazios, impulsionadores dapotencialidade da obra.
Os espaços vazios não podem ser descritos como pausa do texto[...] não são nada, mas sem dúvida deste nada brotam um importante impulso da atividadeconstitutiva do leitor 
(ISER, 1999, p. 280). A presença dos espaços vazios provoca umaativação nas experiências e nos conhecimentos prévios do leitor, que passa então a compor parte da obra através de suas representações mentais. Os espaços vazios induzem aparticipação do leitor no texto, que é a condição essencial para a comunicação.A estética da recepção, através da estrutura apelativa, coloca a obra de arte comoum permanente processo. Ela é apreendida e interpretada pelo receptor que a modifica
 
constantemente segundo sua perceão, seu referencial, sua vio de mundo, suasexperiências prévias, sua intencionalidade. Uma obra de arte, assim, não é uma reproduçãoobjetiva do mundo, mas é uma das abordagens possíveis para a realidade no contexto darecepção.Assim, segundo essa visão, nenhuma perspectiva particular pode representar umobjeto. Para Iser (1999), o sentido estético é um produto da experiência e da re-elaboraçãodo receptor, o que caracteriza os conceitos estéticos dessa teoria como abertos, uma vezque eles não se orientam segundo definições restritas ou regras fixas de interpretação. Éimportante ressaltar, porém, que com isso Iser não pretendeu romper com a estéticatradicional, mas sim lhe oferecer um modelo interpretativo alternativo.Segundo a estética da recepção, devemos buscar em uma obra não o que ela é, ouaquilo sobre o qual ela trata, mas sim o que ela pode fazer, ou seja, as reações e astransformações que ela é capaz de provocar em nós. E é aqui que reside o poder formador de uma obra de arte: o potencial de gerar em nós aquilo que nós ainda não temos, de nostransformar, de provocar nossa reflexão e de ampliar nossa consciência.Definiremos formação como um processo integral, abrangente e permanente derealização de nossas potencialidades, de descoberta de nós mesmos, do mundo em quevivemos e da relação que estabelecemos com ele, de sensibilização e conscientização paraa realidade que nos cerca, de reflexão, de abertura para o novo, para o belo e para osurpreendente. Acreditamos que a formação é um processo contínuo, porém não linear, eque não tem vistas a um objetivo determinado, mas que encontra sua razão de ser em seupróprio desenrolar.O pensador francês Edgar Morin defende uma abordagem da arte, especialmente a
literatura, poesia e cinema
(MORIN, 2002, p. 48) como uma preparação para a vida, ou seja,como um processo de formação. Segundo o autor, as obras de arte, em vez de seremconsideradas apenas – ou principalmente – como objetos de estudo formal nas diferentesdisciplinas, deveriam se constituir como
escolas de vida em seus múltiplos sentidos
(MORIN, 2002, p. 48).O autor defende o desenvolvimento de um processo educativo que, pela via darecepção de obras de arte, provoque nos educandos a construção de conhecimentos sobresi mesmos, sobre a complexidade humana, sobre a necessidade de compreensão mútuaentre os seres humanos e especialmente sobre a urgência de se resgatar a o que eledenomina
a qualidade poética da vida
(MORIN, 2002, p. 48).Morin afirma que, atras do conhecimento das delicadas meforas e dosmultifacetados personagens de obras literárias ou cinematográficas, é posvel quepossamos experienciar idéias e sentimentos que não nos ocorrem no dia-a-dia, e que nemmesmo os estudos formais podem nos transmitir. Ao confrontar, através da ficção, nossos

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