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Apurar a escrita
Depois de meses e anos a batalhar com o teclado, deu como concluído o seuprimeiro romance, e sentiu-se satisfeito com o resultado. Estava certo de que oiria fazer publicar porque não acreditava que editora alguma recusasse essaoportunidade de ouro. Imprimiuapenas dois exemplares, encadernou-os eenviou um exemplar para a primeira editora que lhe veio à cabeça, guardando ooutro na sala de estar, em lugar proeminente, para mostrar a visitas e convidadoscomo se fora um troféu de caça. Uma semana depois, a companheira trouxe dacaixa de correio um envelope com a resposta. Que não era a mais desejada. “Oseu romance - dizia a carta - tem alguns (não muitos) motivos de interesse, masnão podemos considerar a sua publicação, por se revelar muito rudimentar e algocru”. Foi devastador, cataclísmico. Durante horas, permaneceu sentado na sala,com a carta na mão, a olhar sem interesse para documentários na televisão sobre vida selvagem. A companheira trouxe-lhe um drinque para o animar, mas nemlhe tocou, por fim, ela saturou-se, segurou-o pelos ombros e sacudiu-o com força,com gestos e palavras.«Não fiques assim, reage, faz qualquer coisa! Se foste capaz de o escrever,também és capaz de o melhorar!».Ele anuiu, um brilho iluminou-lhe as pupilas. Levantou-se e levou o segundoexemplar para a cozinha. Ligou o forno no máximo, colocou o romance numtabuleiro rectangular, guarneceu-o com batatas e tiras de bacon, especiarias epedaços generosos de manteiga por cima, e meteu-o ao forno, sentando-se à beira a aguardar o resultado.