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TEXTO3-CAPRARA&FRANCO

TEXTO3-CAPRARA&FRANCO

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Published by Flávia Farias Lima

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12/07/2010

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647
Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 15(3):647-654, jul-set, 1999
OPINIÃO
OPINION
A Relação paciente-médico:para uma humanização da prática médica
The patient-physician relationship:towards humanization of medical practice
1Departamento de SaúdeComunitária,UniversidadeFederal do Ceará.Rua Costa Mendes 1608,5
o
andar,Fortaleza,CE60430-097,Brasil.2Instituto de SaúdeColetiva,UniversidadeFederal da Bahia.Rua Padre Feijó 29,4
o
andar,Canela,Salvador,BA 40110-170,Brasil.anamelia@ufba.br
 Andrea Caprara
1
 Anamélia Lins e Silva Franco
2
Abstract
Based on a literature review,this article discusses the physician-patient relationshipby presenting anthropological and communicational approaches,physicians’experiences as pa-tients,key concepts showing the need for humanization of the patient-physician relationship,and some theoretical-philosophical reflections relating primarily to hermeneutics.Based on thisframework,one can already identify a series of possibilities for implementing humanizing pro-posals.The challenge now is to classify,publish,and evaluate these proposals.
Key words
Patient-Physician Relationship;Medical Anthropology;Philosophy of Medicine
Resumo
 A partir de uma revisão da literatura,busca-se discutir a relação médico-paciente,apresentando abordagens antropológicas e comunicacionais,vivências de médicos enquantopacientes,concepções fundamentais da medicina que indicam a necessidade de humanização ealgumas reflexões teórico-filosóficas,principalmente relacionadas a hermenêutica.Este panora-ma possibilita afirmar que já se observa uma rie de possibilidades para execução das pro-postas de humanização da medicina a partir de bases teórico-filosóficas.Faz-se necessário sis-tematizá-las,publicá-las e avaliá-las.
Palavras-chave
Relação Médico-Paciente;Antropologia Médica;Filosofia da Medicina
 
CAPRARA, A. & FRANCO, A. L. S.
648
Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 15(3):647-654, jul-set, 1999
Introdução
A tarefa da medicina no século XXI sea des-coberta da pessoa – encontrar as origens dadoença e do sofrimento,com este conhecimentodesenvolver métodos para o alívio da dor,e aomesmo tempo,revelar o poder da própria pes-soa,assim como nos séculos XIX e XX foi revela-do o poder do corpo”
(Cassel, 1991:X). Ao tratar da saúde, Gadamer (1994), como umareferência ao pensamento hermenêutico, des-taca os atributos da prática do médico na pro-dução da saúde, profissão que há muito é defi-nida como ciência e arte de curar. Em todo oprocesso diagnóstico e terapêutico, a familiari-dade, a confiança e a colaboração estão alta-mente implicadas no resultado da arte médica.Gadamer conduz a reflexão sobre a humaniza-ção da medicina, em particular da relação domédico com o paciente, para o reconhecimen-to da necessidade de uma maior sensibilidadediante do sofrimento do paciente. Esta propos-ta, em relação a qual várias outras convergem,aspira pelo nascimento de uma nova imagemprofissional, responsável pela efetiva promo-ção da saúde, ao considerar o paciente em suaintegridade física, psíquica e social, e não so-mente de um ponto de vista biológico (Cassel,1982; Hahn, 1995; Wulff et al., 1995).No momento em que nos encontramos, amedicina não está preparada para enfrentareste novo desafio. Trilhar este caminho impli-caria em trabalhar sobre o objeto da medicinade forma distinta de outras ciências naturais,superando limites de recursos convencionaise supostamente universais. Estas mudanças,consideradas fundamentais para o nascimentode uma nova prática da medicina, resultam deuma relação complexa entre teoria e prática,configurada no âmbito da ciência moderna.Este conflito fica ainda mais explícito se consi-derarmos os fatores sócio-políticos determi-nantes do processo saúde-doença.Neste artigo pretende-se analisar o temadas relações humanas entre pacientes e médi-cos, tal como vem sendo abordado na literatu-ra da antropologia médica, da filosofia herme-nêutica e de abordagens comunicacionais. A relevância atual desta discussão se dá em de-corrência das novas bases legais da qualidadeda assistência e dos debates em torno da for-mação do médico.
Principais abordagens da relaçãopaciente-médico
O repensar da atuação da medicina nesta se-gunda metade de século tem ocorrido dentrode várias perspectivas. Nos anos cinqüenta, omédico e filósofo alemão Karl Jaspers desen-volveu uma serie de reflexões sobre o médicona idade da técnica e uma crítica muito forteà psicanálise. Jaspers (1991) enfatiza a neces-sidade da medicina recuperar os elementossubjetivos da comunicação entre médico e pa-ciente, assumidos impropriamente pela psica-nálise e esquecidos pela medicina, perseguin-do um caminho baseado exclusivamente nainstrumentação técnica e na objetividade dosdados. A consciência da necessidade de um desen-volvimento da interação comunicativa entremédico e paciente foi se ampliando nos anos60 através dos estudos de psicologia médica(Schneider, 1994), de análises psicanalíticas dafigura do médico (Groesbeck, 1983; Guggen-buhl-Craig, 1983), assim como da experiênciados grupos Balint ao introduzir a dimensãopsicológica na relação médico-paciente e a ne-cessidade da formação psicoterapêutica para omédico (Balint, 1988). Entre várias outras teo-rias da comunicação, recordamos a da Escolade Palo Alto e alguns dos principais membrosdo renomado “Colégio Invisível”: Gregory Ba-teson, Watzlawick, Jackson (Watzlawick et al.,1972).Nas décadas de 60 e 70, foram pioneiros naárea da sociologia da saúde os trabalhos de Tal-cott Parsons sobre a relação médico-paciente eo consenso intencional – atualmente, em umaoutra versão, chamado de consentimento in-formado – originado da atenção à defesa dosdireitos dos consumidores. Uma necessidadeainda muito recente de reduzir os efeitos noci-vos de comportamentos inadequados do mé-dico no contato com o paciente resultou, emvários países, no aumento das denúncias etambém em aumento dos gastos com a saúde.Buscando reduzir os gastos, têm sido desenvol-vidos diversos estudos a respeito da qualidadedos serviços de saúde e das diretrizes de reor-ganização do modelo assistencial, incluindo oponto de vista dos usuários a respeito do for-necimento do serviço prestado pelo sistema desaúde (Ardigò, 1995). A maioria destes estudosfundamentam-se nas publicações de Donabe-dian, que, no início dos anos 80, publicou vá-rios volumes e artigos a respeito deste argu-mento (Donabedian, 1990). A comunicação entre o doente e o médicoesteve presente na pesquisa realizada por Bol-
 
Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 15(3):647-654, jul-set, 1999
tanski (1979) em diferentes regiões da França.Este autor discute diferenças do conhecimen-to médico-científico e do conhecimento médi-co-familiar e relaciona tais diferenças à rela-ção doente-médico. A relação doente-médico éconsiderada como produtora de ansiedade,principalmente pelas classes populares, porquenão possuíam critérios objetivos de avaliação,enfatizando as dificuldades com o padrão co-municacional, especificamente, o médico “nãoser franco”. Este texto foi base para muitos tra-balhos realizados no Brasil.Uma outra perspectiva representada porautores como Arthur Kleinman, Byron Good,Cecil Helman, Gilles Bibeau e Allan Young (Kleinman, 1980, 1988, 1991; Bibeau, 1992;Good, 1994; Helman, 1994) analisa a relaçãomédico-paciente sob o ponto de vista da antro-pologia, tentando analisar não somente o com-ponente cultural da doença, mas também a ex-periência e o ponto de vista do doente e dos fa-miliares, as interpretações e as práticas popu-lares e suas influências sobre a prevenção, odiagnóstico e o tratamento. O trabalho destesautores tem influenciado em boa parte a reali-zação do curso a respeito da comunicação mé-dico-paciente que ocorre na Faculdade de Me-dicina da Universidade de Harvard (Branch etal., 1991), assim como outros programas deformação (Seppilli & Caprara, 1997), constituin-do-se como um componente-chave de forma-ção na graduação e pós-graduação na área mé-dica (Craig, 1992; Usherwood, 1993).Contemporaneamente, a relação médico-paciente tem sido focalizada como um aspec-to-chave para a melhoria da qualidade do ser-viço de saúde e desdobra-se em diversos com-ponentes, como a personalização da assistên-cia, a humanização do atendimento e o direitoà informação (Ardigò, 1995), tratados atravésde temas como o grau de satisfação do usuáriodo serviço de saúde (Atkinson, 1993; Williams,1994; Gattinara et al., 1995; Dunfield, 1996; Ro-senthal & Shannon, 1997), o
counselling 
oaconselhamento (Bert & Quadrino, 1989), a co-municação médico-paciente (Branch et al.,1991; WHO, 1993), o sofrimento do paciente e afinalidade da biomedicina (Cassel, 1982, 1991)e o consentimento informado (Santosuosso,1996).No que diz respeito aos autores brasileiros,pode-se observar uma reativação das discus-sões vinculadas a este tema; entretanto, istotem sido apresentado principalmente sob aforma de ensaios apresentando opiniões oudeclarando inspirações teóricas. Dois traba-lhos destacam-se, por estarem baseados emanálises sistematizadas de grande extensão. O
A RELAÇÃO PACIENTE-MÉDICO
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primeiro seria o estudo desenvolvido por Su-cupira (1981). No momento em que foi realiza-do o estudo, a população brasileira era atendi-da prioritariamente por três sistemas que atua-vam em paralelo: previdência social, medicinade grupo e centros de saúde estaduais e muni-cipais. A análise feita pela autora, tendo comoobjeto o atendimento em puericultura, indicaum padrão de escolha da clientela resultanteda avaliação do problema desencadeador danecessidade de busca do serviço em confrontocom as características dos sistemas de atençãodisponíveis. Esta avaliação considerava condi-ções físicas, acessibilidade, eficácia, disponibi-lidade de profissionais e de medicamentos. Porexemplo, foi observado que a puericultura eraconsiderada melhor no Inamps (Instituto Na-cional de Assistência Médica e Previdência So-cial) do que na unidade de saúde do estado,porque no Inamps era possível consultar sem-pre o mesmo médico. Isto nos indica que ostrês grandes prestadores possuíam três mode-los assistenciais diferentes e que a populaçãoreconhecia e optava pelo mais adequado às ne-cessidades geradoras da busca do atendimen-to, incluindo aspectos da dimensão relacional.Particularmente relevante na análise dessanova conjuntura é o estudo de Schraiber (1993),que analisa, a partir de entrevistas realizadascom médicos com longa prática clínica, a in-corporação da tecnologia no exercício da pro-fissão. A análise marcada pela perspectiva his-tórico-estrutural evidencia que o médico, dife-rente das outras profissões, não perdeu a pro-priedade do saber e do fazer com a consolida-ção do modelo capitalista. Entretanto, parale-lamente a esta transformação da sociedade,observa-se a valorização da ciência e, assim, aintelectualização dos saberes. A medicina teriapassado pela universalização de seus atos, ten-do como objeto da sua ciência o doente que,nesta condição, perdeu suas diferenças sociaispara ser objeto do saber reconhecido cientifi-camente. Nessa condição, o ato médico se con-figura como ato repetidor dos conhecimentoshabilitados pela ciência, tendo, assim, entradono universo das séries de produção, aquelasque marcam a sociedade industrial-tecnológi-ca (Schraiber, 1993).
Médicos como pacientes
Tem sido freqüentemente abordadas as dife-renças de referencial do paciente e do médico(Boltanski, 1979; Kleinman, 1980; Helman,1994). Os casos de médicos que enquanto pa-cientes tiveram a iniciativa de refletir e relatar

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