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AS NARRATIVAS MÍTICAS

AS NARRATIVAS MÍTICAS

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Texto escrito originalmente no formato folhas com o intuito de ser publicado numa terceira edição do Livro Didático Público de Filosofia da Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Juliano Orlandi é professor da rede estadual de ensino deste mesmo estado.
Texto escrito originalmente no formato folhas com o intuito de ser publicado numa terceira edição do Livro Didático Público de Filosofia da Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Juliano Orlandi é professor da rede estadual de ensino deste mesmo estado.

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05/06/2014

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AS NARRATIVAS MÍTICAS – Juliano Orlandi(retirado de www.seed.pr.gov.br/portals/folhas)Os povos da antiguidade tinham o hábito deelaborar histórias sobre deuses, heróis e criaturasfantásticas que eram repassadas de uma geração paraoutra nos rituais religiosos, nas festividades ousimplesmente nas conversas diárias. Essas histórias,comumente chamadas de mito, são consideradas hojeabsurdas e fantasiosas, mas continuam fascinandotanto jovens quanto adultos. Em semelhança a esses povos, os gregos antigos também formularamhistórias sobre deuses, heróis e criaturas fantásticas.O que ocorreu especificamente com este povo foique, a partir do séc. VI a.C., o modo mítico de produzir discurso foi criticado e lentamentesubstituído por uma nova modalidade de discurso: afilosofia. Quais são, contudo, as características domito que o tornam diferente dos discursosfilosóficos?1. O MITO GREGOOs mitos eram narrativas fantásticastransmitidas na Grécia antiga (séc. XX – VI a.C.) deforma oral pelos poetas e cantores da época: osrapsodos e os aedos. Neles eram relatadas asaventuras e lutas das divindades como Zeus, Apolo,Afrodite e dos heis como racles, Teseu eOdisseu. As narrativas míticas explicavam os maisvariados aspectos da realidade grega e constituíam,assim, a visão de mundo dominante entre os helenos.Os mitos remontam à época em que ainda nãohavia escrita na Grécia e, por essa rao, eramdifundidos por meio da palavra falada. O vocábulogrego mýthos, do qual se origina o termo português“mito”, compartilha o mesmo radical do verbo gregomýtheomai, cujo significado é “dizer”. Assim, mitosignifica, em sua acepção mais primitiva, “palavrafalada”, “o que foi dito”. Os grandes representantesdesse tipo de narrativa, os poetas Homero e Hesíodo,viveram, na verdade, em seu período mais tardio; noqual a escrita é redescoberta pela cultura grega e permite, assim, o registro das antigas narrativas. As principais obras desses autores, a Ilíada e a Odisséia,no caso de Homero, e a Teogonia e Os Trabalhos eos Dias, no caso de Hesíodo; fornecem-nos o maisremoto testemunho da antiga cultura helênica. Aolongo da história, os mais diversos interesses,continuamente, voltaram seus olhos para as obras deHomero e Hesíodo na perspectiva de aprendizagem econhecimento. Na perspectiva de compreender osurgimento da filosofia, entretanto, trêscaracterísticas se destacam: a função de explicação eorganização da realidade, o apelo ao divino ousobrenatural e, finalmente, a revelação como modohegemônico de acesso ao saber. Escutemos ummito grego e procuremos descobrir as característicascitadas acima.
 Aborrecido com seus companheiros por nãoacreditarem em sua origem divina, Faetonte, seguindo o conselho da mãe mortal Climene, procurou o pai Apolo em seu palácio douradoem busca de um sinal pelo qual todos soubessemque pertencia à raça dos deuses. Embora Apolotenha prometido, sob juramento pelo Estige,conceder qualquer pedido que Faetonte lhe fizesse, desgostoso ficou ao ouvir o desejo do filho imprudente: conduzir por um dia acarruagem do Sol. Alertou-o que a incumbênciaera excessiva para um mortal, visto que, entre osdeuses do Olimpo, apenas ele próprio estavadestinado a suportar tão penoso trabalho. Oatrevido rapaz, no entanto, teimou em suaaudaciosa pretensão e não se deixou convencer  pelas súplicas paternas. Ao subir na obra-prima de Hefesto, o carrodourado salpicado de pedras preciosas e aliadoaos corcéis de fogo, exaltou-se o rapaz com a felicidade de ser seu dono durante um dia. Tal euforia, entretanto, logo deu lugar ao sentimentode impotência diante da dificultosa tarefa, poisassim que os cavalos perceberam que suasrédeas estavam em mãos sem prática, passarama escolher o caminho à revelia. Ao invés de semanter em seu trajeto habitual, o Sol se precipitava para baixo, destruindo a face amável da natureza e as obras do homem. A relvamurchou, as searas foram queimadas e osbosques desfizeram-se em fogo e fumo. Nessedia, um pedo da terra transformou-se numdeserto de areia, onde nem homens nem animais podem se desenvolver. Perturbado pelabalbúrdia de Faetonte, Zeus-pai acordou de sua sesta e laou um raio na descontroladacarruagem do Sol. Arrancado do carro, o jovem presuoso se precipitou em direção ao solocom o cabelo em chamas, como uma estrelacadente, para ir apagar-se no rio Erídano. Oscorcéis do Sol, sem condutor, procuraram suacocheira no céu; e por uma vez caiu a noite sobre a Grécia em pleno meio-dia
.”
1
 
 ____________________ 
GLOSSÁRIO
Apolo
– filho de Zeus com Leto e irmão de Ártemis. Era o deusda luz e do Sol e era identificado com o arco e a flecha, a poesia, música e a verdade.
Estige
– é um dos rios do mundomítico dos mortos, o Hades. Para os gregos, um juramento peloEstige o pode ser desrespeitado nem pelos deuses.
imprudente
– irrefletido, precipitado.
incumbência
– missão,
1
 
Adaptado de MONCRIEFF, A. R. H. Mitologia Clássica:Guia Ilustrado. Lisboa: Editorial
 
Estampa, 1997.
 
1
 
encargo.
penoso
– doloroso, fatigante.
audaciosa
– ousadia,atrevimento.
súplica
oração, pedido, prece.
salpicado
– manchado, espalhado em partículas.
euforia
bem-estar,felicidade.
revelia
– rebelde, esquivo.
relva
– terreno cobertode erva.
seara
- campo que tem cereais semeados.
balbúrdia
– confusão, desordem.
Zeus
– é o chefe dos deuses gregos,identificado ao raio e ao trovão.
presunçoso
– presumido,vaidoso.
Erídano
– é um dos rios do mundo mítico dos mortos,o Hades.
cocheira
– local onde se alojam cavalos e carruagens.
corcéis
– cavalos.
2. A FUNÇÃO DE EXPLICAÇÃO EORGANIZAÇÃO DA REALIDADEA principal característica das narrativasticas, que se apresenta a partir de uma breveleitura do Mito de Faetonte, é a função de explicar eorganizar a realidade. Todos os mitos pretendemtornar intelivel um ou mais femenos queinfluenciam a vida humana. Assim, os eventos queocorriam diariamente espantavam as pessoas eexigiam explicações. O mito é, nesse sentido, a primeira resposta que os gregos antigos ofereceram para as perguntas que surgiam de seu contato com osfenômenos da realidade. No mito de Faetonte, por exemplo, é possível perceber constantemente essa preocupação. Logo noinício, o mito apresenta uma explicão para anatureza do fenômeno do Sol e para o seumovimento aparente. Segundo essa explicação, ele éuma carruagem de fogo puxada por cavalosflamejantes. Um pouco adiante, a narrativa deFaetonte explica a ocorrência de um incêndio quedevastou as florestas e as plantações. Explicam-setambém o fenômeno da estrela cadente, do raio e deum eclipse solar. A história de Faetonte nos mostraclaramente a preocupação da narrativa mítica emoferecer explicações para os diversos fenômenos queocorriam entre os homens gregos.Segundo Coulanges (2000, p. 127), nos primeiros tempos,
“[...] os costumes da vidacivilizada ainda o haviam estabelecido uma separação entre natureza e homem
”. Os gregos primitivos estavam de tal modo submetidos à forçada natureza que sentiam, constantemente, suasfraquezas e limitações diante de tudo aquilo que lhescercava. Assim, esperavam ansiosamente pela chuvade que dependia sua colheita, receavam astempestades e secas pelo seu poder de destruição,espantavam-se com o desaparecimento repentino doSol no momento de um eclipse.
O homemexperimentava em si, perpetuamente, um misto deveneração, de amor e de terror, perante a poderosanatureza
” (Ibidem, p. 127-128).Julgando as forças naturais em semelhançaconsigo, o grego primitivo reconheceu-lhes o pensamento, a vontade, os sentimentos;
“[...] e,como as sentia poderosas e sofria seu predomínio,confessou a estas suas dependências; rezou-lhes eadorou-as; e dessas coisas construiu os deuses
(Ibidem, p. 128).Podemos chamar esse processo pelo nome dedeificão das foas da natureza”. Ele secaracteriza, basicamente, oferecer explicõesmísticas ou religiosas para os eventos que ocorrementre os homens e para os quais o outraexplicação disponível. Ele não se esgota, contudo, naexplicação dos fenômenos da natureza, mas pretendeexplicar e organizar fenômenos políticos ou sociaise, até mesmo, fenômenos psicológicos. É o queocorre, por exemplo, com a guerra de Tróia, evento político-social ocorrido aproximadamente por voltade 1250 a.C. Segundo o relato horico, elaaconteceu por causa de um concurso de beleza entreas deusas Afrodite, Atena e Hera, no qual o juiztroiano, Páris Alexandre, recebeu como suborno acapacidade de seduzir a mais bela das mulheres:Helena. Ela, no entanto, era casada com Menelau, reide Esparta; que uma vez ultrajado, reuniu, com aajuda de seu irmão Agaménon, os exércitos aqueus e partiu em direção à Tróia para recuperar sua esposa. Nesse caso, o fenômeno explicado pelo mito não éda ordem natural, mas pertence à ordem humana. Osmitos m, portanto, a preteno de oferecer explicações para toda a realidade humana, seja elanatural ou “artificial”.3. O APELO AO DIVINO OU SOBRENATURALA segunda característica que podemos perceber a partir da leitura do mito de Faetonte e que estáintrinsecamente ligada à primeira é o apelo ao divinoou sobrenatural. Ela constitui a estrutura deexplicação da realidade utilizada nas narrativasticas e, por essa razão, repete-se nos diversosacontecimentos e personagens dos mitos antigos. Elase manifesta, exemplarmente, na personagemcentral, Faetonte. Segundo a terminologiamitológica, ele é um semideus, isto é, ele é parcialmente divino e parcialmente humano, pois éfilho do deus Apolo com uma mortal: Climene. Por sua ascendência divina, realiza ações que extrapolama vida dos homens comuns. Nesse sentido, ele édivino. Por outro lado, em função de sua ascendênciamaterna, ele não tem poder suficiente para realizar asões que os deuses realizam. Portanto, ele éhumano. Essa diferea entre humano e divino,mortal e imortal, natural e sobrenatural ou ordinárioe extraordinário constitui o modo próprio através doqual os mitos gregos explicavam e organizavam osfenômenos da realidade. O jovem grego é capaz,segundo o mito, de realizar coisas que sãoabsolutamente proibidas aos demais mortais. Ele2
 
 pode procurar o pai num palácio divino, assumir temporariamente as funções de um deus, utilizar-sede artefatos divinos, etc. Em todos os casos, Faetontenão leva uma vida comum e banal como os outroshomens. Pelo contrário, sua vida é extraordinária. Se,entretanto, ele pode ir até o palácio paterno, por outro lado, esta não é a sua morada. Se ele pode ter um pedido concedido por um deus, ele é, no entanto,desencorajado a fazê-lo. Se ele assume uma funçãodivina, ele não é, contudo, capaz de concluí-la.Faetonte personifica uma distinção e uma tensãoentre o divino e o humano que constitui para osgregos antigos a estrutura de organizão eexplicação da realidade. Todos os eventos naturais,os fenômenos políticos e os estados psicológicos, enão apenas as personagens, estão, aos olhos dosgregos do mito, imbuídos dessa tensão entre o divinoe o humano. Explicar os acontecimentos da realidadesignifica nesse contexto descobrir as causassobrenaturais ou divinas dos fenômenos naturais ouhumanos. No mito de Faetonte, por exemplo, todasexplicões encontradas para os femenossupracitados são de ordem sobrenatural ou divina: oSol é uma carruagem de fogo conduzida por umdeus, o incêndio é causado pela aproximação dacarruagem à terra, o raio é manifestação da vontadede Zeus, a estrela cadente é Faetonte caindo comcabelo em chamas e, finalmente, o eclipse solar é oretorno precoce da carruagem à cocheira. Todosesses casos organizam seus elementos sobre amesma estrutura de sentido: a tensão entre o humanoe o divino e, assim, expressam o modo específico deexplicão da realidade das antigas narrativasmíticas. ________________ 
Oculto retêm os deuses o vital para os homens; senão comodamente em um só dia trabalharias para teres por um ano, podendo em ócio ficar;[...]Mas Zeus encolerizado em suas entranhas ocultou, pois foi logrado por Prometeu de curvo-tramar; por isso para os homens tramou tristes pesares:ocultou o fogo. E de novo o bravo filho de Jápetoroubou-o do tramante Zeus para os homens mortaisem oca férula, dissimulando-o de Zeus frui-raios. Então encolerizado disse o agrega-nuvens Zeus:“Filho de Jápeto, sobre todos hábil em suas tramas,apraz-te furtar o fogo fraudando-me as entranhas; grande praga para ti e para os homens vindouros! Para esses em lugar do fogo eu darei um mal etodos se alegrarão no ânimo, mimando muito essemal”. Disse assim e gargalhou o pai dos homens e dosdeuses;ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmenteterra à água misturar e aí pôr humana voz e força, e assemelhar de rosto às deusas imortaisesta bela e deleitável forma de virgem; e a Atenaensinar os trabalhos, o polidedáleo tecido tecer;e à áurea Afrodite à volta da cabeça verter graça,terrível desejo e preocupações devoradoras demembros. Aí pôr espírito de cão e dissimulada condutadeterminou ele a Hermes Mensageiro Argifonte. Assim disse e obedeceram a Zeus Cronida Rei.[...]o arauto dos deuses aí pôs e a esta mulher chamou Pandora, porque todos os que têm olímpia moradaderam-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão.[...]
(HESÍODO, 1996, p. 25-29).
 ____________________ 
GLOSSÁRIO
Afrodite
– deusa grega do amor e da beleza
. Agrega-nuvens
– que reúne as nuvens.
Aprazer
– agradar.
Arauto
– mensageiro.
Argifonte
mensageiro rápido.
Atena
deusa grega dasabedoria, inteligência e guerra.
Áurea
– de ouro, da cor deouro.
Cronida
– filho de Cronos, um dos seis titãs.
Curvo-tramar
– astuto, de intenções ocultas.
Deleitável
– que dá prazer.
Encolerizado
– enfurecer.
Férula
– espécie de plantautilizada na conservação e transporte do fogo.
Frui-raios
– queestá na posse do raio.
Ínclito
– famoso, ilustre.
Jápeto
umdos seis titãs.
Lograr
– burlar.
Olímpia
– relativo ao monteOlimpo, morada dos deuses.
Pandora
– na mitologia grega, a primeira mulher.
Polidedáleo
– muito complexo, intrincado.
Prometeu
– filho do titã Jápeto.
Titãs
– divindades gregasanteriores aos deuses olímpicos.
4. A REVELAÇÃO COMO MODOHEGEMÔNICO DE ACESSO AO SABER Se as narrativas míticas relatam, referindo-seao mundo dos deuses, o surgimento da realidade edos diversos femenos humanos; eno elasconstituem a forma de “conhecimento” própria dosgregos arcaicos. A concepção de saber que lhedetermina as características é, contudo, bastante particular e merece, por essa razão, um tratamentominucioso. No Proêmio ao poema Teogonia, diz Hesíodo(2001, p. 107):
 Elas [Musas] um dia a Hesíodo ensinaram belocantoquando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino. Esta palavra primeiro disseram-me as DeusasMusas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:'Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só, sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatose sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações'. Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas,
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adorei esse site pois me ajudou muito em meus estudos
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