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ARTE DIGITAL
UMA CULTURA EM PROCESSO DE FORMAÇÃOCICERO INACIO DA SILVARELATÓRIO DA CURADORIA DE ARTE DIGITAL
“The best way to predict the future is to invent it”“A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo”
Alan Kay
“In the 1990s a standard joke at new media festivals was that a new media piece requires twointerfaces: one for art curators and one for everybody else. This resistance is understandable given thatthe logic of the art world and the logic of new media are exact opposites. The first is based the romanticidea of authorship which assumes a single author, the notion of a one-of-a-kind art object, and thecontrol over the distribution of such objects…the second privileges the existence of potentially numerouscopies; infinitely many different states of the same work; author-user symbiosis…the collective;collaborative authorship; and network distribution (which bypasses the art system distribution channels)”“Nos anos 1990 uma piada padrão nos festivais de novas mídias era a de que uma obra de novasmídias requeria duas interfaces: uma para os curadores de arte e uma para todos os outros. Essaresistência é compreensível dado que a lógica do mundo da arte e a lógica da arte em novas mídiassão exatamente opostas. A primeira é baseada na ideia romântica da autoria assumida por um únicoautor, a noção de um objeto de arte com uma só especificidade e o controle sobre a distribuiçãodesses objetos...o segundo privilegia a existência de cópias potencialmente numerosas; estadosinfinitamente diferentes para uma mesma obra; uma simbiose autor-usuário...o coletivo; autoriacolaborativa; e distribuição em rede (o que ignora os canais de distribuição do sistema da arte)” 
Lev Manovich
(New Media from Borges to HTML)“Thus art and technology are not set against each other, nor are they in an all-encompassingcorrespondence. The conflict arises when the realm of the imaginary is supposedly shielded from reality.It is in technology that art and other human endeavor converge. Art’s domain is not that of the absolutebut that of the possible”“Assim arte e tecnologia não são colocados um contra o outro, nem estão em uma correspondênciaabrangente. O conflito surge quando o campo do imaginário é supostamente protegido da realidade. Éna tecnologia que a arte e outros esforços humanos se encontram. O domínio da arte não é o doabsoluto, mas o do possível”
Pierre Francastel
(Art & Technology)
Arte e Tecnologia ou Arte Digital?
O
campo da arte vem há muito pensando sobre as relações entre técnica e arte.Como não poderia deixar de ser, no campo filosófico essa discussão já dura vários séculos enão tem sido pacífica a convivência entre os defensores da criação submetida às abstraçõesdo gênio criativo, livre de qualquer interferência das ferramentas existente e criadas peloshomens. Por outro lado, também não tem sido muito fácil pensar o que seria o campo da arte1
 
sem as interferências, ou sem as manifestações técnicas que o homem criou nos váriosséculos em que foi cada vez mais aperfeiçoando equipamentos, máquinas, ferramentas etécnicas para manipular, formatar, formar, adequar e formalizar o mundo. O campo da arte,como sabemos, tem sido quase sempre vinculado a uma forma de representação imune àstentações das técnicas, e não é raro observar afirmações que tentam dizer que a “técnica” ésubmissa ao “conteúdo” teórico, ou seja, que a “ferramenta” é simplesmente algo neutro, quenão interfere nos processos de criação e muito menos imprime algo de suas representaçõesnos objetos ou materiais que cria.
A
s generalizações no sentido de tentar abordar a tecnologia como instrumento sãovastas e inúmeras, e atualmente temos tido dificuldade em encontrar um meio termo, ou umtermo comum, para refletir sobre o que é arte e criatividade e até onde vai a interferência datécnica nesse processo de criação. Como alerta Yve-Alain Bois, na apresentação do livro
 Art & Technology 
(Arte e cnica) de Pierre Francastel, temos de ser cuidadosos comoFrancastel que evitava seguir as teses de Lewis Mumford, que acreditava que a máquinarepresentava uma revelação e, por outro lado, temos de evitar o catastrofismo iniciado por Sigfried Giedion, que segundo Francastel instaura um idealismo em relação à arte e que“imagina um homem-padrão eterno, um homem padrão que poderia possivelmente servir como ideal...mas alguém que não poderia nunca ser considerado o rei da criação”
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. Por outrolado, também temos tido dificuldades em analisar até que ponto os elementos técnicospermitem novas ou outras aproximações representativas e alteram e modificam a percepçãoartística das representações e dos objetos que nos cercam. A dissociação entre
ars e téchne,
portanto, se produz em níveis que vão da mais ampla abstração até níveis concretos.
É
comum ouvir artistas comparando as ferramentas que utilizam a meras estruturasneutralizadas pelo simples fato de pertencerem a uma esfera “humana”. Em outras palavras,a técnica não pertence ao “espírito” criativo, não habita o espaço do humano e, portanto, nãomerece ser considerada como algo a ser debatido na esfera da criação artística. Técnicasenvelhecem, enrijecem, debilitam e distorcem o espírito do criador, que deve delas se libertar para fazer representar somente a alma. Esse discurso, que já vem desde Sócrates, quecondenou a escrita exatamente por ser uma técnica que “mataria” a “alma” do homem falantee, por consequência, o faria viver para sempre em algo que não era seu, ou seja,
em
e
a partir de
seus textos, encontra diversas ressonâncias quando transportado para o campo daarte. Arte é um conceito complexo, não é muito simples defini-la nos tempos atuais. Aliás,nunca foi simples definir o que vem a ser um sujeito artístico e nem o que pode e o que nãopode ser “enquadrado” no conceito de “arte”.
I
númeras foram as questões que problematizaram a questão artística, e inúmerasforam as tentativas de tratar do conceito “arte” na esperança de torná-lo domesticado,simplificado e fácil de explicar. Afinal de contas, como definir arte para um leigo, comomostrar o que é arte para alguém nos dias de hoje, como considerar uma representação Xuma “obra de arte”, como pensar um processo e formar a partir dele um juízo que o tornetambém, mesmo sem possuir um objeto, uma obra arstica? Essas e muitas outrasperguntas podem ser feitas e dificilmente terão respostas simplificadas. Isso porque o século
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Yve-Alain Bois em Pierre Francastel, Art & Technology, Nova Iorque, Zone Books, 2000, p. 8.
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XX foi ousado o suficiente para suspender as certezas em torno das definições simples etornou complexas as análises que se faziam em torno das representações, objetuais ou não,do campo da arte. Os conceitos artísticos que foram desconstruídos e deslocados na análiseda arte sofreram de uma recorrente tentativa de solidificação e de estabilização de suascertezas.
O
homem do século XX, e agora do XXI, dificilmente vai conseguir voltar a ter certezas concretas sobre as relações sutis que envolvem as ramificações complexas queformam as bases de sua suposta razão e que o fazem acreditar numa planificação estável desuas crenças. A arte, como não poderia deixar de ser, foi afetada e responde hoje a essasinconstâncias e incertezas. A denominada “arte contemporânea” pode ser considerada umadas formas encontradas para responder e para questionar o que se observa na atualidade. Adiluão do objeto, por exemplo, que se observa em obras que o simplesmenteperformances ou metatextos, instruções ou processos subjetivos que constituemexperiências, servem para questionar e ressignificar processos de entendimento dascertezas solidificadas, generalizantes e pouco complexas. Como qualificar uma “instalação”como artística? Onde está o “valor” do objeto, tão caro nos séculos anteriores? Comopromover uma circulação de obras que só existem na incorporação de sujeitos reunidos emtorno de um “processo” inventivo criado por um artista? As respostas a essas questões nãosão óbvias e não pretendemos responde-las aqui, até porque seria um contra senso com ostempos atuais tentar dar respostas fechadas e fáceis ao que se observa no cotidiano.Contudo, existe uma necessidade de se pensar no que acontece não estando de “fora” doprocesso, mas sim
no processo em si 
quando falamos de processos artísticos nos tempos dacultura computacional.
Arte Digital: definições
O
que é arte digital tem sido uma das mais difíceis e polêmicas perguntas dosúltimas anos. Frank Popper, famoso teórico da arte e tecnologia, defendia o papel dainteratividade como o grande diferencial das obras em suportes eletrônicos. Para Popper aarte tecnológica “faz referência a uma relação entre o espectador e uma obra de arte aberta já existente na qual o termo “interação” implica um jogo de duas vias entre um indivíduo e umsistema de inteligência artificial”
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Atualmente, após mais de 40 anos de experimentosartísticos com essa ênfase, muitas outras perspectivas foram adotadas. Um dos fatosalteraram a experiência ligada à interatividade foi a forma com a qual a sociedade dainformação, após o surgimento de tecnologias como a Internet, começou a lidar com astecnologias e também a ubiqüidade que os aparatos tecnológicos alcaaram nacontemporaneidade. Um outro fato importante na definição do que vem a ser arte digital tema ver com a própria definição de arte, que até hoje ainda causa polêmica, mas que pode ser pensada em suas relações com essas configurações sociais que estamos todos vivenciando.Um dos principais pilares dessa transformação no campo da arte e que, por mais estranhoque pareça, ficaram esquecidos durante um bom tempo na teorização da arte digital, é ocomputador. Segundo alguns teóricos, como Lev Manovich, muitos teóricos/artistas,principalmente europeus, por não terem acesso muito rápido às inovações tecnológicas,teriam mais tempo para refletir sobre os seus usos e suas implicações. Por outro lado em
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Frank Popper, Art of Electronic Age. Nova Iorque, Harry N. Abrams, 1983), p. 18.
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