sem as interferências, ou sem as manifestações técnicas que o homem criou nos váriosséculos em que foi cada vez mais aperfeiçoando equipamentos, máquinas, ferramentas etécnicas para manipular, formatar, formar, adequar e formalizar o mundo. O campo da arte,como sabemos, tem sido quase sempre vinculado a uma forma de representação imune àstentações das técnicas, e não é raro observar afirmações que tentam dizer que a “técnica” ésubmissa ao “conteúdo” teórico, ou seja, que a “ferramenta” é simplesmente algo neutro, quenão interfere nos processos de criação e muito menos imprime algo de suas representaçõesnos objetos ou materiais que cria.
A
s generalizações no sentido de tentar abordar a tecnologia como instrumento sãovastas e inúmeras, e atualmente temos tido dificuldade em encontrar um meio termo, ou umtermo comum, para refletir sobre o que é arte e criatividade e até onde vai a interferência datécnica nesse processo de criação. Como alerta Yve-Alain Bois, na apresentação do livro
Art & Technology
(Arte e Técnica) de Pierre Francastel, temos de ser cuidadosos comoFrancastel que evitava seguir as teses de Lewis Mumford, que acreditava que a máquinarepresentava uma revelação e, por outro lado, temos de evitar o catastrofismo iniciado por Sigfried Giedion, que segundo Francastel instaura um idealismo em relação à arte e que“imagina um homem-padrão eterno, um homem padrão que poderia possivelmente servir como ideal...mas alguém que não poderia nunca ser considerado o rei da criação”
. Por outrolado, também temos tido dificuldades em analisar até que ponto os elementos técnicospermitem novas ou outras aproximações representativas e alteram e modificam a percepçãoartística das representações e dos objetos que nos cercam. A dissociação entre
ars e téchne,
portanto, se produz em níveis que vão da mais ampla abstração até níveis concretos.
É
comum ouvir artistas comparando as ferramentas que utilizam a meras estruturasneutralizadas pelo simples fato de pertencerem a uma esfera “humana”. Em outras palavras,a técnica não pertence ao “espírito” criativo, não habita o espaço do humano e, portanto, nãomerece ser considerada como algo a ser debatido na esfera da criação artística. Técnicasenvelhecem, enrijecem, debilitam e distorcem o espírito do criador, que deve delas se libertar para fazer representar somente a alma. Esse discurso, que já vem desde Sócrates, quecondenou a escrita exatamente por ser uma técnica que “mataria” a “alma” do homem falantee, por consequência, o faria viver para sempre em algo que não era seu, ou seja,
em
e
a partir de
seus textos, encontra diversas ressonâncias quando transportado para o campo daarte. Arte é um conceito complexo, não é muito simples defini-la nos tempos atuais. Aliás,nunca foi simples definir o que vem a ser um sujeito artístico e nem o que pode e o que nãopode ser “enquadrado” no conceito de “arte”.
I
númeras foram as questões que problematizaram a questão artística, e inúmerasforam as tentativas de tratar do conceito “arte” na esperança de torná-lo domesticado,simplificado e fácil de explicar. Afinal de contas, como definir arte para um leigo, comomostrar o que é arte para alguém nos dias de hoje, como considerar uma representação Xuma “obra de arte”, como pensar um processo e formar a partir dele um juízo que o tornetambém, mesmo sem possuir um objeto, uma obra artística? Essas e muitas outrasperguntas podem ser feitas e dificilmente terão respostas simplificadas. Isso porque o século
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Yve-Alain Bois em Pierre Francastel, Art & Technology, Nova Iorque, Zone Books, 2000, p. 8.
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