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Ingênua Narrativa de um homem que dormiu demais. BARROS, José D'Assunção.

Ingênua Narrativa de um homem que dormiu demais. BARROS, José D'Assunção.

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Published by jose_assun7144
Um certo dia, um homem acorda e percebe que esteve dormindo durante vinte anos. Mais do que isto, ele percebe, ao sair à rua, que a maior parte da população humana estava ainda dormindo, embora continuassem agindo com a ilusão de estarem despertos. Seguindo em sua aventura, este homem encontra um pequeno grupo de "homens despertos". Depois, revoltado com a indiferença destes para com a humanidade adormecida, desequilibra-se emocionalmente e, depois de um colapso nervoso, termina por voltar mais uma vez a dormir.

Este conto foi publicado por José D'Assunção Barros, pela primeira vez, na coletânea de contos O Avesso do Pau-de-Arara (Rio de Janeiro: Achiamé: 1987).

O conto discute questões relacionadas à "consciência humana", ao sonambulismo do dia-a-dia e à vida mecânica que aprisiona boa parte dos seres humanos. O texto foi escrito treze anos antes de Matrix e de filmes que começaram a tematizar o problema da "inconsciência humana" e do "viver uma vida não-real", à serviço de desconhecidas potências supra-humanas.

O contro fio republicado, em 2009, pela revista "O Olho da História".

Referências:

BARROS, José D'Assunção Barros. Ingênua Narrativa de um Homem que Dormiu Demais. O Olho da História. n°13, dezembro de 2009. http://oolhodahistoria.org/n13/artigos/assuncao.pdf

BARROS, José D'Assunção. O Avesso do Pau-de-Arara. Rio de Janeiro: Achiamé, 1987.
Um certo dia, um homem acorda e percebe que esteve dormindo durante vinte anos. Mais do que isto, ele percebe, ao sair à rua, que a maior parte da população humana estava ainda dormindo, embora continuassem agindo com a ilusão de estarem despertos. Seguindo em sua aventura, este homem encontra um pequeno grupo de "homens despertos". Depois, revoltado com a indiferença destes para com a humanidade adormecida, desequilibra-se emocionalmente e, depois de um colapso nervoso, termina por voltar mais uma vez a dormir.

Este conto foi publicado por José D'Assunção Barros, pela primeira vez, na coletânea de contos O Avesso do Pau-de-Arara (Rio de Janeiro: Achiamé: 1987).

O conto discute questões relacionadas à "consciência humana", ao sonambulismo do dia-a-dia e à vida mecânica que aprisiona boa parte dos seres humanos. O texto foi escrito treze anos antes de Matrix e de filmes que começaram a tematizar o problema da "inconsciência humana" e do "viver uma vida não-real", à serviço de desconhecidas potências supra-humanas.

O contro fio republicado, em 2009, pela revista "O Olho da História".

Referências:

BARROS, José D'Assunção Barros. Ingênua Narrativa de um Homem que Dormiu Demais. O Olho da História. n°13, dezembro de 2009. http://oolhodahistoria.org/n13/artigos/assuncao.pdf

BARROS, José D'Assunção. O Avesso do Pau-de-Arara. Rio de Janeiro: Achiamé, 1987.

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03/08/2010

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 O Olho da História
, n. 13, Salvador (BA), dezembro de 2009. 
José D´Assunção Barros
 
Ingênua narrativade um homem que dormiu demais
1
 
José D’Assunção BarrosUniversidade Rural do Rio de Janeiro
... Só fui acordar vinte anos depois. O Despertador tinha me traído —descaradamente! Tinha sido preparado para berrar às sete do dia seguinte, masresolveu permanecer calado durante aquele “quinto” de século. Por fim, reuniutodas as suas forças de máquina em um berro cínico, como se quisesse deixar bemclaro que ninguém podia com ele. Doutores, jamais conheci máquina tão safada,capaz de tamanha desfaçatez! Não é que o miserável, mero despertador compradoem armarinho de segunda classe, tinha tapeado as próprias engrenagens e amecânica do meu sono? Quando me espreguicei. Quando percebi na folhinha daparede que o mundo já estava quase virando o século! Tive vontade de atirá-lo (orelógio) contra o chão. Não atirei. Seus ponteiros permaneceram, zombando demim e do tempo.Doutores. Peço que me perdoem qualquer falta de fluência no meu discurso.Ninguém passa pelo que eu passei sem modificar radicalmente suas relações com omundo. Com a língua. Com tudo!Vocês se lembram daquela história em que o personagem dormira durantevinte anos ininterruptos, para acordar em um mundo onde a grama do seu jardimvinha lhe bater nos joelhos? Tem muita dessemelhança com a minha! Prá começar,a grama do meu jardim estava cuidadosamente bem aparada. Como se alguémtivesse tido a preocupação de mantê-la, enquanto o dono dormia, em plenaconformidade com a linha de austeridade exigida às vegetações urbanas erasteiras. Dentro de casa o interruptor ainda controlava a luminosidade da sala,sinal de que a luz não fora cortada por falta de pagamento. E no mais estava tudoperfeito. A poeira varrida. O pó de café cheirando a ontem... como se, em nenhuminstante, a rotina tivesse sido quebrada!Ainda sonolento, entrei no banheiro — intencionando fazer a barba. Foiquando percebi que havia no barbeador alguns pelos recentes. Tinha sido usado namanhã anterior. E por mim! Não é que eu era sonâmbulo e não sabia?
1
Este conto foi publicado em 1987, no livro
O Avesso do Pau-de-Arara
(Rio de Janeiro: EditoraAchiamé, 1987). Portanto, treze anos antes da filmagem de Matrix.
 
 O Olho da História
, n. 13, Salvador (BA), dezembro de 2009. 
José D´Assunção Barros
 
Provavelmente eu mesmo teria pago a conta da luz, aparado a grama. Virado afolhinha. Tudo dormindo!Ao sair do banheiro, tive que interromper minhas especulações. Motivo:havia um corpo na minha cama! Esfreguei os olhos, buscando me assegurar de quenão era uma ilusão matutina. Não! Era mesmo um corpo na minha cama, bemcoberto pelos lençóis. Naquele instante um calafrio atravessou minha espinha. PorXangô! Será que eu morrera e não sabia? Será que eu me tornara uma alma-penada, naquele instante olhando seu antigo corpo? Será que eu me transformaraem um fantasma, preso aos velhos hábitos? Meus temores só se desfizeram quandopercebi que o corpo na minha cama era um corpo de mulher. E, além disso, estavavivo — o que me impediu de aventar a hipótese de que eu tivesse me tornado umassassino inconsciente, enquanto dormia. Não! Aquela moça não era uma vítima —era uma esposa!Maria Quitéria levantou-se, foi preparar o café. Era uma boa mulher. Retive-me, por algum tempo, na observação dos seus movimentos. Graciososmovimentos! Tinha escolhido bem a mulher: Bonita, bem distribuída... pareciainteligente, amável... A descoberta de que eu era casado serviu para me elucidarmuitos pontos. Pois é claro — então, estava explicado! Fora a minha esposa quecuidara da grama, pagara a luz, varrera a poeira — enquanto eu dormia. Umamulher exemplar! Tinha zelado pelo meu sono, todo esse tempo.Maria Quitéria colocou duas xícaras na mesa. Sentei-me em uma das duascadeiras que havia junto ao móvel, precisamente na que aprecia atrair minha “forçade hábito”. Ia começar a saborear o café da manhã, quando tive a impressão deque algo me incomodava. Esforcei-me para descobrir o que era. Foi aí que eu melembrei, horrorizado, de alguma coisa. O barbeador! O maldito aparelho debarbear! — Se eu estivera realmente dormindo durante todo aquele tempo, entãode quem eram aqueles restos de barba que eu encontrara na lâmina? Meus chifrescresceram. A resposta era: outro homem! O sangue me subiu à cabeça. Nãosatisfeita em me trair, minha esposa ainda deixara o amante usar meu aparelho debarbear! Comecei a corar pelos cantos do rosto. Sabe-se lá que libertinagens osdois teriam feito durante a minha ausência, isto é, durante o meu sono.Quis saber quem era o canalha!— Quitéria! Vamos por as cartas na mesa... Com quem você me traiu?Quitéria olhou espantada:— Como!??— Chega de fingimento, mulher! Eu já sei de tudo! Não pense que só porqueestive dormindo você vai me passar para trás!
 
 O Olho da História
, n. 13, Salvador (BA), dezembro de 2009. 
José D´Assunção Barros
 
Maria Quitéria riu, imaginando que eu não falava sério.— Querido, o que é isso? Alguma brincadeira? Ou você ainda está sonhando?As duas últimas palavras de Quitéria me paralisaram! Funcionaram comouma ducha de água fria! Em questão de segundos compreendi o ridículo dasminhas suspeitas! Que tolo! Lembrei-me que Maria Quitéria sequer se espantara aome ver repentinamente desperto, naquela manhã depois de tantos anos.Comportava-se com uma tal simplicidade, que nada demais parecia ter acontecido.Nem mencionara meu sono de vinte anos. Porra! É claro! Eu era mesmo umaespécie de sonâmbulo! Eu mesmo fizera a barba todos os dias. Minha mulher,portanto, não me traíra com ninguém — a não ser, talvez, comigo mesmo.Eu tinha continuado a minha vida “normal”, mecanicamente, durante todoaquele tempo! Sequer os vizinhos puderam notar qualquer diferença, já que eu oscumprimentara todos, todas as manhãs, com aquele mesmo gesto automático desempre. Como vai, “seu” Nicolau? Dona Quirmina, pode me emprestar uma xícarade açúcar? Minha mulher vai bem, obrigado! Sim, dormi muito bem... e a senhora?Eu apanhara todos os dias o mesmo trem repleto de gente, para ir do subúrbio aocentro, e ninguém nunca poderia imaginar que eu não estava — em absoluto —acordado. Meu salário também fora recebido, cada mês do ano. Só não estava ricoagora porque o custo de vida não fazia nenhuma discriminação entre sonâmbulos edespertos — abocanhava todas as pessoas, físicas e jurídicas. Em nenhum instantea rotina tinha sido quebrada! Conservava-se intacta.Abracei minha mulher. Beijei-a. Como eu pude pensar uma coisa daquelas?Maria Quitéria, minha mulher — minha companheira no sono e na vigília! — nuncaseria capaz de me trair. Pedi que me perdoasse, fora tudo uma brincadeira tola.Decidi que não iria lhe falar nada sobre o estado sonambúlico, do qual somentenaquela manhã eu tinha emergido. Se ela não percebera nada, era melhor assim.De uma maneira ou de outra, ela dificilmente iria acreditar que havia dividido acama com um sonâmbulo, durante meus anos de sono “desperto”.De minha parte, eu estava maravilhado com aquela descoberta. Agora, vinteanos depois, eu estava finalmente acordado. Não me lembrava, em absoluto, denada do que acontecera durante o tempo em que dormia. Sabia apenas que tinhavivido uma vida de aparência normal. Neste ínterim, até me casara — não deviafazer mais do que cinco anos (portanto, em pleno sono). Continuara trabalhando etudo. Precisamente porque não me lembrava de nada, estava ansioso para saber oque o mundo tinha feito nos últimos anos! Teria mudado um pouco? Quanto seráque a humanidade tinha evoluído, neste intervalo de tempo?

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