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A Lógica e a evolução da teoria científica, K. Popper

A Lógica e a evolução da teoria científica, K. Popper

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A LÓGICA E A EVOLUÇÃO DA TEORIA CIENTÍFICA (Karl Popper)A ideia central que gostaria de apresentar nesta palestra pode ser expressa do seguintemodo.As ciências naturais, bem como as ciências sociais, começam sempre por 
 problemas
, pelo facto de algo nos causar 
espanto
, como os filósofos gregos costumavam dizer. Pararesolver estes problemas, as ciências usam fundamentalmente o mesmo método que o sensocomum emprega, o método da
tentativa e erro
. Para ser mais preciso trata-se do método queconsiste em experimentar soluções para o nosso problema e depois pôr de parte as falsasconsiderando-as erróneas. Este método pressupõe que trabalhemos com um grande número desoluções
experimentais
. É testada e eliminada uma solução após outra. No fundo, este procedimento parece ser o único que é gico. E também o procedimento que um organismo inferior, até uma amiba unicelular, utiliza quando tentaresolver um problema. Neste caso estamos a falar de testar movimentos de experimentação,através dos quais o organismo tenta livrar-se de um problema que o aflige. Os organismossuperiores o capazes de
aprender 
por tentativa e erro como deve ser resolvido umdeterminado problema. Podemos dizer que também eles fazem movimentos deexperimentação – experimentações mentais – e que aprender é essencialmente testar, um apósoutro, movimentos de experimentação até encontrar um que resolva o problema. Podemoscomparar a solução bem sucedida do animal a uma
expectativa
e assim, a uma
hipótese
ou auma
teoria
. Porque o comportamento do animal mostra-nos que este espera (talvezinconscientemente ou por temperamento) que, numa circunstância semelhante, os mesmosmovimentos de experimentação resolvam de novo o problema em questão.O comportamento dos animais, e também o das plantas, mostra que os organismosestão ligados a leis ou regularidades. Eles
esperam
leis e regularidades no ambientecircundante e presumo que a maior parte destas expectativas são determinadas geneticamente — o que quer dizer que são inatas.Ocorre um
 problema
para o animal se se verificar que uma expectativa estava errada.Isso conduz então a movimentos de experimentação, a tentativas de substituir a expectativaerrada por uma nova expectativa.Se um organismo superior for muitas vezes desapontado nas suas expectativas, cede. Não consegue resolver o problema; perece.Gostaria de apresentar aquilo que disse até agora sobre a aprendizagem por tentativa eerro num modelo de três fases. O modelo consta das três fases seguintes:
1. o problema;2. as tentativas de solução;3. a eliminação.
A primeira fase do nosso modelo é o
 problema
. O problema urge quando ocorre algumtipo de perturbação – uma perturbação quer de expectativas inatas, quer de expectativas quetenham sido descobertas ou aprendidas por tentativa e erro.A segunda fase do nosso modelo consiste nas
tentativas de solução
— ou seja,tentativas para
resolver o problema
.A terceira fase do nosso problema consiste na
eliminação
de soluções mal sucedidas. Neste modelo de três fases a pluralidade é essencial. A primeira fase, o próprio problema, pode aparecer no singular; mas não a segunda fase, a que chamei "tentativas de
 
solução" no plural. Já no caso dos animais falamos em movimentos de experimentação, no plural. Não faria sentido chamar a um determinado movimento pontual um movimento deexperimentação.A Fase 2, as tentativas de solão são movimentos de experimentão econsequentemente, no plural; são submetidas ao
 processo de eliminação
na terceira fase donosso modelo.A Fase 3, a
eliminação
,
é negativa
. A eliminação é fundamentalmente a eliminação de
erros
. Se for eliminada uma solução mal sucedida ou despropositada, o problema mantém-se por resolver e dá origem a novas tentativas de solução.Mas o que é que acontece se uma tentativa de solução vier a ser bem sucedida?Acontecem duas coisas. Primeiro, a solução bem sucedida é
aprendida
. Entre os animais issosignifica geralmente que, quando surgir de novo um problema semelhante, os movimentos deexperimentação anteriores, incluindo os mal sucedidos, são breve e esquematicamenterepetidos pela ordem original; são percorridos até se chegar à solução bem sucedida.Aprender significa que as soluções mal sucedidas ou postas de parte descem cada vezmais ao nível de referências passageiras, de modo que finalmente a solução experimentada bem sucedida surge como quase a única possível. Este é o procedimento de eliminação quedepende da pluralidade das tentativas de solução.Pode dizer-se que o organismo aprendeu assim uma nova
expectativa
. Podemosdescrever o seu comportamento dizendo que espera que o problema seja resolvido por movimentos de experimentação e, por fim, pelo último movimento de experimentação quenão é eliminado.Como veremos, o desenvolvimento desta expectativa pelo organismo tem a suacorrespondente científica na formação de hipóteses ou teorias. Mas antes de passar àformação de teorias científicas gostaria de referir uma outra aplicação biológica do meumodelo de três fases. O meu
modelo de três fases
,
1. o problema;2. as tentativas de solução;3. a eliminação,
 pode também ser entendido como o esquema da teoria da evolução de Darwin. E aplicávelnão só à evolução do organismo individual mas também à
evolução da espécie
. Na linguagemdo nosso modelo de três fases, uma mudança, quer nas condições ambientais, quer naestrutura interna do organismo produz um
 problema
. É um
 problema de adaptação daespécie
: ou seja, a espécie só consegue sobreviver se resolver o problema através de umamudança na sua estrutura genética. Como se passa isto na visão darwiniana das coisas? Onosso aparelho genético é de tal ordem que ocorrem continuamente mudanças ou mutações naestrutura genética. O darwinismo presume que, nos termos do nosso modelo, estas mutaçõesfuncionam como as
tentativas de solução
da Fase 2. A maior parte das mutações são fatais:são mortais para o portador da mutação, para o organismo em que ocorrem. Mas desta formasão
eliminadas
, de acordo com a Fase 3 do nosso modelo. No nosso modelo de três fasesdevemos então de novo realçar a pluralidade essencial da segunda fase de
tentativas de solução
. Se o houvesse
uma imensidade
de mutações, o seriam dignas de seconsideradas tentativas de solução. Devemos partir do princípio que é essencial uma
mutabilidade
suficiente para o funcionamento do nosso aparelho genético.Posso agora finalmente passar ao meu tema principal, a teoria ou lógica da ciência.A minha primeira tese neste capítulo é que a ciência é um fenómeno, biológico. Aciência surgiu do conhecimento pré-científico; é uma continuação bastante notável do2
 
conhecimento de senso comum, que por sua vez pode ser considerado uma continuação doconhecimento animal.A minha segunda tese é que o nosso modelo de três fases é também
aplicável à ciência
.Mencionei no início que, tal como já consideravam os filósofos gregos, a ciência partede
 problemas
, do
espanto
em relação a algo que pode ser bastante comum em si mesmo, masque se torna um problema ou uma fonte de espanto para os pensadores científicos. A minhatese é que cada novo desenvolvimento na ciência só pode ser compreendido desta forma, queo seu ponto de partida é um
 problema
ou uma
 situação problemática
(o que significa oaparecimento de um problema num determinado estádio do nosso conhecimento acumulado).Este ponto é extremamente importante. A velha teoria da ciência ensinava, e aindaensina, que o ponto de partida da ciência é a nossa percepção dos sentidos ou a nossaobservação sensorial. Isto parece, à primeira vista, bastante razoável e convincente, mas está basicamente errado. Pode facilmente demonstrar-se isso com a tese:
 sem um problema não háobservação
. Se eu vos pedisse "Por favor, observem!", então a correcção linguística exigiriaque me respondessem perguntando-me "Sim, mas o quê?
O que
devemos observar?" Por outras palavras, pedem-me que vos coloque um
 problema
que possa ser resolvido através davossa observação; e se eu não vos der um
 problema
, mas apenas um
objecto
, já é algumacoisa, mas não é de forma alguma suficiente. Por exemplo, se eu vos disser "Por favor, olhem para o vosso relógio", continuarão a não saber o que realmente pretendo que seja observado.Mas já é diferente assim que vos colocar o
 problema
mais banal. Talvez o problema não vosinteresse, mas pelo menos saberão o que se pretende que descubram através da vossa percepção ou observação. (Como exemplo, podem considerar o problema de saber se a Luaestá a crescer ou a diminuir, ou em que cidade foi publicado o livro que estão a ler.)Por que rao a antiga teoria pensava erradamente que em ciência se parte de percepções dos sentidos ou observações e não de problemas? Neste aspecto, a antiga teoria da ciência dependia da concepção de conhecimento baseada no senso comum. Diz-nos que o nosso conhecimento do mundo exterior derivainteiramente das impressões dos nossos sentidos.De uma maneira geral, tenho muito respeito pelo senso comum. Acho mesmo que, seformos um pouco críticos, o senso comum é o conselheiro mais valioso e fiável em qualquer situação problemática. Mas
nem sempre é fiável 
. E em questões de teoria científica ouepistemológica, é extremamente importante que se tenha uma atitude verdadeiramente críticaem relação a ele.É obviamente verdade que os nossos órgãos dos sentidos nos informam sobre o mundoà nossa volta e que são indispensáveis para esse efeito. Mas não se pode concluir daí que onosso conhecimento começa com a percepção dos sentidos. Pelo contrário: os nossossentidos, do ponto de vista da teoria da evolução, são instrumentos que foram formados pararesolver certos
 problemas
 biológicos. Aparentemente, os olhos dos homens e dos animaisdesenvolveram-se para que as coisas vivas capazes de mudar de posição e de se moverem possam ser avisadas a tempo de encontros perigosos com objectos duros que possamcausar--lhes dano. Do ponto de vista da teoria evolutiva, os nossos órgãos dos sentidos são oresultado de uma rie de problemas e tentativas de solução, como o o os nossosmicroscópios ou binóculos. E isso demonstra que, biologicamente falando, o problema vemantes da observação ou percepção pelos sentidos: as observações ou as percepções dossentidos são importantes ajudas para as nossas
tentativas de solução
e desempenham o papel principal na sua
eliminação
. O meu modelo de três fases é assim aplicável da seguinte forma àlógica ou metodologia da ciência.1. O ponto de partida é sempre um
 problema
ou uma situação problemática.3

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