BI
José Manuel Resende tem 53 anose é professor associado com agregaçãono Departamento de Sociologiada Faculdade de Ciências Sociaise Humanas da Universidade Novade Lisboa. Sociólogo da Educação,investigador de méritos reconhecidosinternacionalmente, foi presidenteda Comissão Científica do Departamentode Sociologia da Faculdade de CiênciasSociais e Humanas da Universidade Nova,director da revista
Fórum Sociológico
(editada pelo Centro de Estudos da FCSHda Universidade Nova de Lisboa) e é autorde alguns dos mais relevantes trabalhosnas áreas da socialização políticados estudantes do ensino secundáriopúblico em Portugal, nomeadamente«As encruzilhadas da escolarizaçãosecundária no limiar do século
XXI
: um pontode vista sociológico» (com Maria ManuelVieira, colóquio/Educação e Sociedade,1999), «Escola pública como “arena” política:contexto e ambivalências da socializaçãopolítica escolar» (com Bruno Miguel Dionísio,Análise Social, 2005), «Educar paraa cidadania num contexto escolarde incerteza: problemas e desafios teóricos»(Congresso Identidade e Cidadania daAntiguidade aos Nossos Dias, Editora Papiro,2008), «A sociedade contra escola?– Socialização escolar num contexto deincerteza» (Instituto Piaget, 2009), «Por umaSociologia Política da Educação: o xadrezdas Políticas Educativas em Portugal noEstado Novo» («Escola, jovens e
media
»,org. Maria Manuel Vieira, Imprensa de Ciên-cias Sociais do Instituto de Ciências Sociais,2007), «Socialização Política na EscolaSecundária Portuguesa: as composiçõesentre o projecto estatal imaginadode cidadania e as gramáticas políticasdisponíveis» (com Pedro Caetano, I ColóquioLuso-Brasileiro de Sociologia da Educação,Belo Horizonte, 2009).
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mentação, como acontece na discussão pú-blica. A socialização política escolar devia en-sinar-lhes isso, sobretudo na transição da ado-lescência para a fase juvenil, que é justamen-te o que separa o que é uma discussão emproximidade de uma discussão própria deuma
cité
política – não temos a palavra emportuguês mas temos a analogia da ágora gre-ga, do espaço público de discussão. E, portan-to, é natural que o discurso da adolescência não seja assente em conceitos que eramtraves-mestras nas juventudes anteriores.O mundo é hoje muito mais sinuoso, e é ummundo em que as questões de um projecto--plano (no sentido mais longo do termo), quena minha geração era expectável produzir--se, hoje não faz sentido. Nos estudos que es-tamos a fazer sobre os futuros em aberto noObservatório Permanente de Escola [ICS da UL], verificámos esse tactear, sobretudo porparte dos jovens em transição do nono para odécimo ano. Mas também no caso daquelesque chegam ao 12.º ano e que voltam para trás, porque perceberam que o plano que os ia levar para uma determinada formação supe-rior não é exactamente o que eles querem, epor isso voltam para trás, para justamente re-tomarem uma outra orientação escolar pas-sível de ir ao encontro da sua autenticidade.Temos de compreender que os fundamentosem que as formas de orientação da acção as-sentam não são os mesmos da nossa geração. A ideia (falsa, como podemos verificar se re-trospectivarmos a nossa vida) da necessidadede uma certa linearidade e sequencialidadeda acção, que nós pressupomos e traduzimospara a geração seguinte, é um ideal que trans-portamos de geração em geração. Face aosnovos contextos, há tendência para uma cer-ta polivalência, para uma capacitação para poderem conjugar os seus ajustamentos fu-turos em dois ou três tabuleiros simultâneos– que são formas de encontrar um lugar nomundo do trabalho, mas também de conse-guir fazê-lo dentro de uma certa autenticida-de e singularidade. A história da sociologia es-tá cheia de exemplos do que a densidade po-pulacional dos grandes contingentes urbanosconcentrados num determinado territóriofaz em termos da afirmação da distinção, da diferença, da singularidade. A moda confereuma igualdade aparente aos jovens. Os pro-fessores e os adultos estão perante todos da mesma forma, e agem a partir de regras ge-rais, na avaliação por exemplo, mas tambémna punição. Não se prefere A ou B consoantea sua origem de classe ou a sua apreciação fi-losófica ou conceptual, e no entanto os jovensnão, uns gostam de ler e outros não, uns gos-tam de determinado tipo de manifestaçõesculturais de que outros não gostam, etc. Sa-bem que há diferenças, e que elas traduzemdesigualdade. Acontece que quando estão noplano da
filia
, para porem em prática uma concertação de acção e se unirem em tornode um projecto, tudo o que os dividir passa pa-ra segundo plano. Mas essa atenuação da di-ferença e da distinção não as faz desaparecer,e noutra situação elas podem voltar a emergir.
O lugar escola é rico nessas contradições. Masse, por um lado, há um mal-estar endémico en-tre os professores e os alunos, por outro há ain-da uma cultura de escola profundamente mar-cada pelo valor da autoridade estatutária doprofessor. E há este novo valor da autonomiadas escolas. Por um lado, um conjunto de coisastradicionalmente ocultas e, por outro, tudo o queé novo e cujo alcance ainda não conseguimoscompreender bem.
A minha lição de agregação, defendida nes-ta faculdade [Ciências Sociais e Humanasda Universidade Nova de Lisboa] em 2007,chama-se «A sociedade contra a escola – so-cialização política escolar num contexto deincerteza» e revela, do ponto de vista dosdocentes, os mal-estares que acabou deapontar. Estamos agora a trabalhar o pontoHá aqui um outro elemento, que na nossa ge-ração estava mais naturalizado, sobretudo emcertas origens de classe, e que hoje a escola demassas acaba por acentuar, que é o da afirma-ção da autenticidade, da singularidade e da autonomia dos alunos. Mas eles não confun-dem isso com a necessidade de fazer um acor-do para que as escolhas funcionem.
O percurso dos miúdos parece difícil, e os paisnão gostam que eles voltem para trás. Mas tal-vez isso advenha da dificuldade da vida dosadultos, que os leva a não estarem à escutadas incertezas dos filhos.
rentemente não trazem marcas ideológicas,estão a ser socializados face a todo um con- junto de situações: avós que estão com pro-blemas de sobrevivência com dignidade,porque tiveram poucas possibilidades dedurante a sua vida activa fazerem descontos,e por isso têm reformas e pensões baixas; asdoenças crónicas e as experiências que setêm familiarmente com pessoas com doen-ças prolongadas (cancros, seropositivos,etc.); há hoje um quadro de vulnerabilidade,de fragilidade, que eles sentem na família.Nós fomos socializados ideológica e politi-camente em torno das questões da igualda-de, da liberdade, temáticas que para estas ge-rações não são tão motivadoras. Já as ques-tões da incerteza dos percursos escolares elaborais, da vulnerabilidade
versus
autono-mia, etc., poderão talvez fazê-los produzirdiscursos riquíssimos e interessantíssimos.
Talvez as palavras sejam outras, porque as lu-tas serão as mesmas...
Sim, mas há de facto um outro léxico. A ques-tão da liberdade da desigualdade coloca-se noplano da justiça e do espaço público, e exigeda argumentação aquilo a que os franceseschamam
une montée en généralité,
literalmen-te traduzindo, «uma subida em generalida-de», ou seja, uma dessingularização dos casossingulares, como forma de se constituíremsistemas de equivalência em que indepen-dentemente do lugar de nascimento, do gé-nero, da profissão, da idade, as pessoas são tor-nadas equivalentes num plano público de jus-tiça. Quando falamos da compaixão ou da vulnerabilidade, por exemplo, estamos a fa-lar de um regime de acção que não é público,é familiar, e aí os adolescentes não são compe-lidos a «subir em generalidade» na sua argu-
Igualdade
«A moda confereuma igualdadeaparente aos jovens.Professores e alunosestão perante todosda mesma forma,e agem a partirde regras gerais.»
têm a experiência dessa diferenciação, na fa-mília como na escola. Eles sabem que há for-mas desiguais de distinguir, e eles própriostransportam essa distinção na forma como li-dam com os pares. O facto de funcionarementre si essencialmente no plano da
filia,
da amizade, não significa que não há conflitosentre eles. É claro que há divergências, cliva-gens, que têm que ver com diferenças de gos-to e de apreciação, porque nós não gostamostodos das mesmas coisas: uns gostam de fute-bol e outros não, uns gostam de passar os fins--de-semana nos centros comerciais e outrosde vista dos alunos, mas para já poderei fa-lar melhor sobre o ponto de vista dos pro-fessores. Há de facto uma grande contro-vérsia na escola pública portuguesa actuale que é a da clivagem entre aquilo que desig-no como o «modelo escolar», ou a «razão es-colar», e o «modelo juvenil», ou a «razão ju-venil». A massificação escolar levou a ju-ventude para a escola, e levou os modelosculturais juvenis para a escola – a que mo-delos me refiro? Eles estão representadosem todos os objectos que fazem parte dasindústrias culturais actuais, do telemóvel à
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