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Ricardo Reis

Ricardo Reis

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01/14/2013

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 Noemi Basanta Llanes
Ricardo Reis(Poeta dos sentidos. A aceptação da vida apesar do pensar)
1.Síntese Biográfica e caracterização literária
Podemos considerar que na vida de Pessoa há várias datas de nascimento: a do próprio autor,13 de junho de 1888, e as de seus heterônimos. Dacordo com a biografia criada por ele mesmo nacarta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto“depois de uma deliberação abstracta que subitamente se concretiza numa ode”. Estudou em umcolégio de jesuítas, foi médico e fixou residência no Brasil desde 1919. É o heterônimo neoclássico,da métrica perfeita, do estilo denso e construído com ânsias de perfeição onde se concretizará anotável influência de Horacio e a filosofia do Estoicismo misturada com o Epicureísmo. Segundo aavaliação de Pessoa, “Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que consideroexagerado”.A sua concepção da vida parte da consideração do indivíduo como um estrangeiro dentro domundo que mora, facto que o leva a recolher-se dentro dos seus pensamentos. "Somos estrangeiros/Onde quer que moremos, Tudo é alheio [...]/ Façamos de nós mesmos o retiro". É muito interesantecomo explica a ordenação deste mundo abafante sob uma áurea teolóxica neopaganista que conjugaa existência dos deuses do Olimpo materializados nas coisas quotidianas -em consonancia com ogosto pelo mundo clássico que antes já mencionei- com a presença de uma força maior: O Fado.Esta é a deidade que dicta os nossos passos durante vida e até a chegada ineludível da Morte "tantoquanto vivemos, vive a hora/em que vivemos, igualmente morta". Neste sentido, a poesia de Reis,recebe a influência imediata de Horacio que também falava sobre o fluir do tempo como algoirreversível, que não podemos deter, facto do que se deriva a tremenda angústia que sente o sujeito perante o Destino e em última instância, a Morte. O poema que coloco a seguir representa muito bem como o destino " o Fado " consome tudo o que a vida oferece ao ser. Apenas um instante énecessário para perceber que o que acontece já não mas existe “a vida / passa e não fica, nada deixae nunca regressa”:“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamosQue a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.(Enlacemos as mãos.)1
 
Depois pensemos, crianças adultas, que a vidaPassa e não fica, nada deixa e nunca regressa,Mais longe que os deuses.Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.Mais vale saber passar silenciosamenteE sem desassosegos grandes.Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,E sempre iria ter ao mar.Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outroOuvindo correr o rio e vendo-o.Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,Pagãos inocentes da decadência.Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depoisSem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,Pagã triste e com flores no regaço. Neste sentido, vai encontrar o analgésico -mais uma vez- na sabedoria dos antigos: o
carpediem
, como caminho da felicidade. “Coroai-me de rosas [...]/rosas que se apagam[...] E basta”.Acho que neste trecho, dá constancia da fugacidade da vida e da necessidade de viver o momentocumprindo os nossos desejos “coroai-me de rosas”, sendo consciente de que tudo se acaba “rosasque se apagam”, mas sem que isto suponha um problema porque o que importa é viver o momento presente “e basta”.Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca seconsegue a verdadeira calma e tranquilidade. Sente que se tem de viver em conformidade com asleis do Destino, indiferente à dor e à falta de prazer, numa verdadeira ilusão da felicidade,conseguida pêlo esforço estóico disciplinado “Melhor destino que o de conhecer-se/ Não frui quemmente frui. Antes, sabendo,/ Ser nada, que ignorando”. De algum jeito, podemos considerá-lo como2
 
o reverso do seu mestre Caeiro. Ele azeita a vida sem pensar e Reis talvez a azeite apesar de pensar.Para Caeiro, existir é um fato maravilhoso por sim mesmo, e o mundo não precisa ser explicado.Ricardo Reis partilha a idéia de azeitar calmadamente a ordem das coisas mas não pode passar pelavida sem reparar nela. Caeiro nega-se a ter qualquer interpretação racional do mundo, no entanto, o“real” para Ricardo Reis incorpora a filosofia estoicista que afirma que o tempo passa e a vida é breve, facto que não deve perturbar-nos porque é possível encontrar a felicidade se se vive emconformidade com as leis do destino que regem o mundo. Considero que estas afirmações são muitoclaras no poema seguinte: o “sabio”, é aquele que observa o mundo mas que “sabe que a vida passa por ele” e que se contenta com isso.“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundoE ao beber nem recordaQue já bebeu na vida,Para quem tudo é novoE imarcescível sempre.Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,Ele sabe que a vidaPassa por ele e tantoCorta à flor como a eleDe Átropos a tesoura. Neste sentido, também conecta com o Epicureísmo na procura do deleite, o mínimo de dor ena necesidade de viver com lucidez, sem deixar-se tentar pela inconsciência que podem producir algumas substáncias. Na continuação do poema anterior observamos como ante a agústia o “sábio” busca a solução no vinho para que “o seu sabor orgíaco/ apague o gosto às horas”.“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”[...]Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,Que o seu sabor orgíacoApague o gosto às horas,Como a uma voz chorandoO passar das bacantes.E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,E apenas desejando Num desejo mal tidoQue a abominável ondaO não molhe tão cedo.3

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