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Gênero jornalístico: uma noção transmidiática
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Lia SeixasUniversidade Federal da BahiaCostuma-se acreditar que uma mudança de dia implica necessariamente umamudança de gênero discursivo. Entretanto, muitos produtos da atividade jornalística revelam ocontrário. Uma mesma entrevista pode ser publicada no impresso, veiculada pelo rádio,atualizada para a mídia digital e, se fora filmada, pode ser editada para a TV. O termoentrevista (ou programa de entrevista) é reconhecido em qualquer uma das mídias. Ou seja, háalgo em comum que os define pelo mesmo nome.A subsistência desta crença encontra em várias tradições e correntes de estudo, como asemiótica e os estudos culturais. No campo jornalístico, um dos motivos é a tradição deorganização por mídia no mercado, quanto à tipificação dos produtos, e na pesquisa, pois aanálise é feita pelo critério de mídia sem considerar o critério do domínio do saber (da área).Outro fator é a má compreensão das noções de gênero, formato, quando se trata de estudos do jornalismo e, das noções mídia, dispositivo e suporte na comunicação. Um terceiro motivo,mais complexo, é a dificuldade em se delimitar a real influência do dispositivo na constituiçãode uma composição discursiva modelo como é o gênero discursivo. Se a célebre frase deMouillaud, “O dispositivo prepara para o sentido”, é verdadeira, é correto dizer também quehá uma grande distância entre “sentido” e “gênero”. Em última instância, afirmamos que ainfluência da mídia na composição discursiva é fato, mas não é decisiva. A questão é: em quenível se dá.Este artigo está, assim, estruturado em três grandes partes, uma para cada motivo: 1)tradição por mídia ou domínio; 2) noções-chave: mídia, dispositivo e suporte; 3) influência dodispositivo na composição discursiva.
Tradição por mídia ou domínio
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Este artigo é baseada em uma das afirmações de sustentação da minha tese de doutorado “Por uma outraclassificação”, defendida em agosto de 2008. O trabalho será apresentado na mesa coordenada Gênerosdiscursivos e mídia: múltiplos olhares no V SIGET em Caxias do Sul, agosto de 2009.
 
A pesquisa brasileira, principalmente em comunicação, incluindo-se portanto osestudos de jornalismo, trabalha o conceito de gênero por cada critério em separado: ou por domínio (no caso dos estudos de jornalismo) ou por mídia (no caso dos estudos de gênerostelevisivos, no caso da semiótica e dos estudos culturais em comunicação), mas não se pesquisa por mídia e domínio ao mesmo tempo. Enquanto a mídia é considerada um critériode genericidade, o domínio é colocado em segundo plano.
Se acreditarmos que a diferençaentre as mídias é, igualmente, uma diferença de gênero, não será possível falar emgêneros jornalísticos ou gêneros do domínio do jornalismo.
Só podem existir gêneros jornalísticos se o domínio for determinante para a genericidade de tipos discursivos. Ascaracterísticas da dia devem ser relacionadas às condições de realização da ãocomunicativa para que se possa dizer, por exemplo, que a entrevista veiculada no impresso eno site jornalístico da rede é um mesmo gênero da indústria jornalística.O estudo separado por mídia gerou uma fatal ausência de diálogo sobre os estudos degêneros e, consequentemente, um ínfimo avanço na pesquisa desta noção. Fatal simplesmente porque, no caso dos gêneros, instituiu, sem prévia discussão, as características das mídiascomo critério para a definição da noção de gênero. Os grupos de pesquisa brasileiros,compostos por aqueles que estudam o impresso, aqueles que estudam a televisão ou aquelesque estudam o rádio, revelam uma imposição das diferentes gramáticas das mídias analógicas.A semiótica trabalha com gêneros midiáticos e gêneros digitais, a linguística com'gêneros textuais', 'gêneros digitais' e agora 'gêneros discursivos', a comunicão e o jornalismo tratam de 'gêneros digitais', 'gêneros jornalísticos', 'gêneros televisuais' e 'gênerosradiofônicos'. De similar, apenas a denominação 'gêneros digitais'.
ÁREAS/TERMOSGÊNEROMIDIÁTICOGÊNERODIGITALGÊNEROTEXTUALGÊNERODISCURSIVOGÊNEROJORNALÍSTICOGÊNEROTELEVISUALGÊNERORADIOFÔNICO
SEMIÓTICALINGUÍSTICACOMUNICAÇÃO
Para a Semiótica, mais do que um fundamento, é ponto de honra a afirmação de que arelação entre gêneros e espécies se transforma pela combinatória de diferentes códigosculturais. Considera ser possível falar em gênero midiático, independente da mídia e dodomínio que a atravessa, da formação discursiva (Foucault, 1969) desse domínio. Alinguística, por outro lado, ao trabalhar com diversos domínios (inclusivo o acadêmico, do
 
ensino de línguas) e mídias, debate em que nível o suporte influencia no gênero e vice-versa.O campo jornalístico nem sequer discute a relação entre gênero e mídia.Aqui, é reveladodestacar que os estudos da mídia impressa denominam os gêneros de gêneros jornalísticos,enquanto todos os outros estudos para radio, televisão ou mídia digital, trabalham com oadjetivo definidor da mídia, ou seja, gêneros televisuais, gêneros radiofônicos. A grade de umcanal televisivo tem gêneros que não são produzidos pela atividade jornalística e isto precisaser demarcado.Essa separação por mídia gerou uma ausência de diálogo entre pesquisadores domesmo campo, influenciados pela adoção de metodologias que melhor explicassem ascaracterísticas da mídia analisada. Os estudos sobre gêneros televisuais têm hoje comometodologias a semiologia estruturalista (Stuart Hall), os Estudos Culturais e as teorias dainteração (Erving Goffman). Com a necessidade de resolver o problema da recepção e asexigências dos mercados acadêmico e profissional, era preciso compreender como os produtos televisuais eram determinados pela lógica da televisão, entendida como tecnologia eforma cultural. Neste campo, entende-se nero apenas como estratégia de interação,estratégia de comunicabilidade ou modo de endereçamento, na medida em que endereçamentoconstitui o fato de o destinatário fazer parte de todo e qualquer enunciado, propriedade'constitutiva e determinante' do gênero do discurso – nas palavras de Bakhtin. Os fundamentosnos estudos dos gêneros televisuais incluem as concepções de que: o processo comunicativodeve ser analisado como uma estrutura em dominância, articulada por produção, circulação,distribuição/consumo e reprodução; há um sentido preferencial da mensagem construído nacodificação, mas os sujeitos da recepção são ativos, a partir de sua competência cultural(Martín Barbero). Os modos em que se reconhece e se organizam as competências culturaissão exatamente os gêneros (GOMES, 2002).As pesquisas sobre os chamados
gêneros televisuais
diferenciam, em geral, formatode gênero, ao mesmo tempo em que focam em dois aspectos: os regimes do dispositivotelevisivo e os reconhecimentos do ‘receptor’ (herança de Bakhtin). Diferentemente dasanálises dos gêneros de produtos jornalísticos impressos, preocupados com funções e estilos,as análises dos gêneros televisuais investem na compreensão da gramática televisiva e dadiferença entre formato e gênero. Entretanto, toma-se as definições dadas aos estudos dosimpressos (MARQUES DE MELO) como as noções de gêneros informativos e gênerosopinativos para os gêneros jornalísticos, sem explicar, no entanto, a diferença de dimensões, já que o campo jornalístico é apenas um dos muitos campos que operam com a televisão.

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