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Nova Retorica de Perelman - Tito Cunha

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A Nova Retórica de Perelman
Tito Cardoso e CunhaUniversidade Nova de Lisboa
Em 1958, no mesmo ano em queS.Toulmin publicava o seu The Uses of Ar-gument, no continente e reclamando-se deuma outra tradição filosófica, Ch. Perelman,Professor na Universidade Livre de Bruxe-las, publica um livro que terá pelo menos omesmo relevo no renascimento contemporâ-neo da retórica: Traité de l’Argumentation.La Nouvelle Rhétorique.Só a expressão deste sub-título denota eacentua uma linhagem de que o autor se querreclamar: a herança aristotélica. Mas o 1
o
parágrafo da introdução é também ele muitosignificativo dessa intenção do autor. Es-creve Perelman, a iniciar o seu tratado: "Apublicação de um tratado consagrado à argu-mentação e a sua ligação a uma velha tradi-ção, a da retórica e da dialéctica gregas...".Esta 1
a
parte do 1
o
§serve obviamente paraafirmar com toda a clareza, e desde o início,uma genealogia que coloca a obra na directasucessão da problemática grega sobre a retó-rica. Asraízesoclaramenteafirmadasere-montam aos gregos, particularmente a Aris-tóteles. Essa referência helénica é um rea-tar de uma tradição rompida e o reatar dessatradição e em si mesmo a ruptura com umaoutra tradição da modernidade: "...(a publi-cação e a ligação) constituem uma rupturacom uma concepção da razão e do raciocí-nio saídos de Descartes, que marcam com oseu selo a filosofia ocidental."(TA.1)Em suma, o reatamento da tradição gregaé uma ruptura com a tradição da moderni-dade cartesiana.Em embrião, estas palavras, escritas em1958, trazem quase uma premonição do queserá a crítica pós-moderna da razão. Em vezda necessidade do encadeamento das ideiasno raciocínio e da evidência com que estasse impõem ao espírito, o vocabulário privi-legiado é outro e nele avultam termos como"verosímil", "plausível", "provável". A ve-rosimilhança tem de distintivo em relação àverdade que essa semelhança ao vero se de-cide apenas na instância interlocutória que éum auditório. Há que obter uma "adesão"eé para isso que as "provas"são necessárias.Sendo que estas não mais poderão aspirar doque ao estatuto aproximativo da probabili-dade e do plausível.A verdade, que cartesianamente se impõepela evidência, não resulta, por isso mesmo,de uma deliberação argumentada nem é porisso também objecto de um consenso. De-liberação e evidencia são duas expressõesquase contraditórias, porque, como exem-plarmente escreve Perelman, "não se deli-bera quando a solução é necessária e não seargumenta contra a evidencia."(TA.1)
 
2 Tito Cardoso e CunhaEm suma, o diferendo é o campo de elei-ção da retórica, ao menos da sua vertente ar-gumentativa. Contrariamente ao que se pre-tendia, Descartes, para quem o diferendo eraimpossível, há que retoricamente pensar apossibilidade de soluções diferentes sem queo errosejainevitável. Comefeito, no espíritocartesiano, o diferendo era o mais e mais ób-vio dos sinais do erro. Porque, no passo cé-lebre das Regras... (TA.2): "De cada vez quedois homens fazem sobre uma mesma coisaum juízo contrário, é certo que um dos doisse engana. Mas há mais, nenhum dos doispossui a verdade; porque se tivesse uma vi-são clara e distinta, podê-la-ia expor ao seuadversário de tal modo que acabaria por for-çar a sua convicção."Este forçar da convicção, esta violênciasimbólica que impõe à mente do outro a ver-dade das coisas segundo um critério univer-sal, é o oposto de uma dialéctica doxoló-gica/doxologia/dialéctica opinativa em queprevaleceu apenas a regra do melhor argu-mento e de onde a violência, mesmo simbó-lica, está ausente.Com efeito, argumentar sustentando umaopinião contra um adversário num diferendoé já reconhecê-lo como interlocutor, renunci-ando à violência da imposição e reconhecerno outro a dignidade de quem pode ser racio-nalmente convencido. É um reconhecimentoda outra consciência de si e da sua liberdade.Afastamo-nos, portanto, aqui da rigidezlogico-formal centrando inevitavelmente aatenção sobre o modo mais comum de uti-lização da razão na interacção social. Por-que há uma racionalidade in-formal que nãotem de, obrigatoriamente, pela sua o-formalidade, soçobrar na emocionalidadadeirracional.Sem querer aqui levantar em toda a suadimensão a discussão sobre a legitimidadedessa exclusão mútua entre razão e emoção,comaqualA.Dasiocertamenteestariaemdesacordo
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digamos que as provas funda-doras de uma convicção não têm quotidia-namente a exactidão de uma prova dedutiva(ou científica). Basta pensar no sistema ju-rídico e na sua codificação de um conheci-mento procedimental em que a prova tende,e é tudo o que lhe é permitido, a fundar umsaber, é certo, mas que o é sobretudo do ve-rosímil, do plausível ou do provável."Toda a prova seria redução à evidênciae o que é evidente não teria necessidade deprova."(TA.5)A noção de evidência tem de ser enten-dida, para que uma teoria da argumentaçãoseja possível, como uma força de persua-são que se insere numa escala proporcional.A evidência marcando um grau extremo deforça persuasiva atribuível a um argumento.Como o sublinha Perelman (p. 5) há quenão confundir "evidencia"com "verdade",uma vez que a "evidencia"se referirá ape-nas à adesão por parte do espírito que umaideia merece. Estaremos portanto aqui, eno limite, num campo puramente psicoló-gico (Cf. Toulmin e a recusa do psicolo-gismo pela lógica). Enquanto que a ques-tão da verdade, pelo menos na tradição ra-cionalista cartesiana, contra a qual Perelmanse inscreve em ruptura, implica uma necessi-dade e um constrangimento lógico.Em ruptura com um certo projecto da mo-dernidade encarnado pelo racionalismo car-tesiano, Perelman reclama-se muito natural-mente, deumaoutratradiçãomaisantigaqueremonta a Aristóteles. Ao Aristóteles sobre-
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António Damásio, Descarte’s Error
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 A Nova Retórica de Perelman
3tudo da Retórica mas também da dialécticaenquanto esta é definida como "arte de ra-zoar"apartir
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deopiniõesgeralmenteaceites(eulogon) (TA.6).Ora, estas "opiniões geral-mente aceites"são detidas por um conjuntode indivíduos que a técnica retórica constituiem auditório. Essa é, aliás, a noção centralque Perelman retira aos gregos, fazendo delauma instância central, que já o era em ter-mos helénicos, para a compreensão da dis-curisividade persuasiva: "é em função de umauditório que toda a argumentação se desen-volve."(TA.7)Essa tradição antiga em que Perelman seinsere, Cf. Platão, Górgias, vê como meioexclusivo da persuasão a palavra. É pelo dis-curso, o "razoamento"no dizer de Vieira, quea adesão dos espíritos constituintes do audi-tório, se conquista.Poderíamos, hoje, questionar este pressu-posto. Basta pensar na publicidade, "mé-tier"por excelência da persuasão, para nosdar-mos conta do papel decisivo que a ima-gem pode ter no processo persuasivo.Barthes, primeiro, num pequeno textoanunciador e de tentativa, "Retórica da ima-gem"
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e mais recentemente o Grupo m
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ex-ploraram a via da persuasão imagética- Pe-relman recusa explicitamente tomar esse ca-minho ("o nosso tratado só se ocupará demeios discursivos de obter a adesão dos es-ritos: só a cnica que utiliza a lingua-gem para persuadir e para convencer seráaqui examinada"Perelman 10).Será porven-tura uma lacuna, se o objectivo fosse tratara totalidade dos meios persuasivos ou até se
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raisonner. Cf. A.J.Saraiva, O discurso enge-nhoso.
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in R. BArthes, O óbvio e o obtuso, Lisboa, Ed.70
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Grupo m, Retórico da imagem.
o objectivo fosse tratar a persuasão mediá-tica. Não é essa a intenção de Perelman. Odiscurso dos media é-lhe relativamente indi-ferente ou secundário. A sua obra pretendeinscrever-se sobretudo no domínio da filoso-fia.Aí aproxima-se de S. Toulmin cuja aná-lise privilegia também a discursividade. Em-bora de uma diferente maneira que se centrasobre a análise do processo argumentativo,a sua disposição e desenvolvimento numaperspectiva dinâmica. Perelman, pelo con-trário, presta uma atenção minuciosa e umadeterminação exaustiva à classificação, à ta-xinomia. à estrutura dos argumentos ("por-que nos interessa menos ao desenvolvimentocompleto de um debate do que aos esquemasargumentativos postos em jogo"TA.11).Um outro aspecto em que os dois auto-res se aproximam e na relação crítica queconstantemente mantém com a lógica. Tal-vez mais dependentes no caso de Perelmanque explicitamente se propõe "inspirar-se"e"imitar os métodos"da lógica. A recusa dalógica é bem mais radical e Toulmin.**Seja como for, o movimento de Perelmanem relação à lógica vai no mesmo sentidoda distinção que também preocupa, mesmose com mais intensidade ou radicalismo, umToulmin.Perelman serve-se de dois termos paravincar esta diferença: atribui o de "demons-tração"para designar o que de específico sepassa no campo da retórica.A demonstração lógica (formal), baseadana estrita unicidade da linguagem "artifi-cial"utilizada, cujo fundamento é comum àmatemática, designa uma démarche intelec-tual necessariamente diferente daquela que
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