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aevolução conceito cidadania

aevolução conceito cidadania

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A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE CIDADANIA
 
CYRO DE BARROS REZENDE FILHO
 
ISNARD DE ALBUQUERQUE CÂMARA NETO
Departamento de Ciências Sociais e Letras
Universidade de Taubaté
RESUMO
Este artigo apresenta a evolução do conceito de cidadania à luz de algumas transformações políticas ocorridas na Históriadas sociedades. Para tanto, percorremos uma longa trajetória, desde seu nascimento na Antiguidade, passando por umaperda de seu significado na Idade Média, até ressurgir na Modernidade e originar calorosos debates nos dias de hoje.PALAVRAS-CHAVE:
 
cidadania; política; história; sociedade
INTRODUÇÃO
A cidadania é notoriamente um termo associadoà vida em sociedade. Sua origem está ligada aodesenvolvimento das póleis gregas, entre os séculos VIIIe VII a.C. A partir de então, tornou-se referência aosestudos que enfocam a política e as próprias condiçõesde seu exercício, tanto nas sociedades antigas quanto nasmodernas. Por outro lado, as mudanças nas estruturassocioeconômicas, incidiram, igualmente, na evolução doconceito e da prática da cidadania, moldando-os deacordo com as necessidades de cada época.Nosso objetivo aqui é, portanto, apresentar umpanorama desse desenvolvimento
 ,
enfocando acidadania tal como a percebemos hoje, ou seja, comouma condição de igualdade civil e política. Para tanto,destacaremos alguns processos históricos e as alteraçõesque provocaram no entendimento do conceito,respondendo a anseios dos grupos sociais envolvidos nodesenvolvimento das sociedades políticas.Assim, vamos buscar no campo das relaçõeshumanas organizadas – social, moral e juridicamente –os pontos fundamentais das variações desse conceito,antes e depois das modernas sociedades industriais.Estas, a partir do século XVIII, legaram ao mundo novasvisões sobre a economia, a sociedade e a política. Apartir daí, alargaram-se os horizontes da esfera pública,ampliando-se, conseqüentemente, os direitos doscidadãos nos seus expoentes civis, políticos e sociais. Aintensificação desses direitos provocou, ao mesmotempo, uma contrapartida conservadora, a qualprocurava conter as lutas travadas por direitos legítimos(BARBALET, 1989, p. 11-19).Este e outros antagonismos colocam a discussãosobre o conceito de cidadania em termos de umadialética entre o social e o político. Sem essa dualidade,torna-se difícil entendermos a estreita relação existenteentre a cidadania moderna e o desenvolvimento docapitalismo contemporâneo, percebida em muitos dosautores consultados (COVRE, 1986, p. 161-188).A noção desses pressupostos torna-se primordialpara a compreensão do debate atual sobre a cidadania.Essa importância é reforçada pelas conseqüênciasprovocadas pela Segunda Guerra Mundial, a partir daqual tornou-se difícil, e até mesmo pungente, referir-seao tema cidadania sem esbarrar na questão dos direitoshumanos.Para dar conta de todas as modificações que oconceito sofreu ao longo do tempo, iniciaremos o artigocom o nascimento da cidadania no seu sentido clássico,identificando suas especificidades no mundo antigo. Naseqüência, teceremos comentários sobre a cidadania naIdade Média, no contexto do Iluminismo e dasRevoluções Burguesas, na época moderna. Por fim,faremos as devidas considerações ao seu atualsignificado, privilegiando a esfera dos direitos e deverese, sobretudo, reforçando o conceito de justiça social aoqual o termo cidadania está associado.
O NASCIMENTO DA CIDADANIA
É difícil datar com precisão o aparecimento doconceito de cidadania. Sabemos que o seu significadoclássico associava-se à participação política. O próprioadjetivo ‘político’, por sua vez, já nos remete a idéia depólis (Cidade-Estado Antiga). Podemos concluir, então,que foi justamente sobre esse tipo de organização urbanaque se assentaram as bases do conceito tradicional decidadania e de uma considerável parte de seu significadoatual.Atendo nos aos estudos das póleis gregas eromanas, constatamos que muitas modificaçõesocorridas, resultado de transformações nos campos datécnica, da economia e da arte bélica, alteraram
 
potencialmente as relações entre o poder e a sociedade(CARDOSO, 1985, p. 28-29). Além disso não podemosesquecer que a urbanização foi o fator que maiscontribuiu para a evolução das póleis.Alterações foram sentidas em todos os níveis dasociedade, da economia e da política. Na realidadegrega, por exemplo, era o regime aristocrático queimperava,. Com esse modo de fazer política, a cidadaniaconfundia-se com o conceito de naturalidade. Assimconsiderava-se cidadão aquele nascido em terras gregas,o qual poderia usufruir todos os direitos políticos. Osestrangeiros, proibidos de ocuparem-se da política,dedicavam-se às atividades mercantis.Com o passar do tempo, operou-se umaredistribuição do poder político. Aceitou-se o ingressode estrangeiros na categoria de cidadão, abolindo-se aescravidão por dívidas. Mais do que indicar umareformulação do conceito, essa idéia revelava os reflexosde transformação estruturais. Além de ampliação doquadro de cidadãos, as póleis gregas presenciaram odeslocamento do controle político e jurídico. Nessecontexto, a aristocracia cedeu espaço a favor dasAssembléias e dos conselhos com participação popular.No entanto, havia ainda critérios de distinçãosocial, por meio dos quais se limitava o acesso àsMagistraturas mais altas, polarizando o poder político.Como exemplos dessa polarização, podemos citar asclasses censitárias criadas pelo legislador Sólon, noséculo VI a.C., e a submissão da Assembléia do povo aum Conselho cujos membros provinham da velhaaristocracia, embora esta decisão não tenha duradomuito tempo (CARDOSO, 1985, p. 47).Apesar dessas mudanças, fatores de ordemsocial e política continuavam associando o termocidadania ao exercício da participação política(CARDOSO, 1985, p. 28-29). Mesmo com esse plenodireito assegurado e a existência de um regimedemocrático, a cidadania aparecia de forma tímida,principalmente no que se refere ao efetivo das decisõespolíticas. Muitos cidadãos, cercados por restriçõeseconômicas e valores ligados à família, permaneciamcompletamente alienados e tolhidos na expressão de atospolíticos (ARENDT, 1995, p. 37-47).Dessa forma, seria ingênuo acreditarmos queapenas a garantia de plenos direitos oferecida a umcidadão possibilitava-lhe uma participação efetiva nasdecisões políticas. A cidadania significava, portanto,algo mais do que a garantia de plenos direitos. Era, pois,um status que oferecia ao cidadão várias possibilidades,indo além das destinadas ao indivíduo comum.Em Roma, a situação não era diferente.Sociedade escravista, baseada nas “gens” (famílias), eradominada pelos patrícios, os quais detinham a cidadaniae os direitos políticos. À plebe, constituída de romanosnão nobres e de estrangeiros, não cabia qualquer tipo dedireito. Este quadro alterou-se aos poucos, possibilitandoo acesso à cidadania a todos os romanos de nascimento,mesmo que fossem escravos libertos.Apesar desse avanço, uma manobra daAristocracia para preservar o controle político restringiu,novamente, o acesso à cidadania. Apenas as mais altasmagistraturas, entre elas o Senado e o Patriciado,poderiam usufruir dos privilégios dessa posição.Para conseguirem tal fato, os patríciosaproveitaram-se da tradição mítico-religiosa,proveniente das origens de Roma, a qual lhes reservavao monopólio da comunicação com os deuses. Dessaforma, pôde esta camada social criar e manter asmagistraturas ao seu bel prazer (CARDOSO, 1985, p.65). Só em épocas posteriores, uma parcela de cidadãosenriquecidos conseguiu reverter esse quadro.Nessa realidade política, à plebe reservava-seapenas o direito à representação. Mesmo assim, essedireito só foi conseguido após conflitos políticos que seestenderam até o século III a.C., com a criação deinstituições propriamente plebéias, como o Tribunato e aAssembléia da Plebe (CARDOSO, 1985, p. 65).O resultado desse arcabouço institucional era ode uma estrutura aristocrática, disfarçada em República,na qual vigoravam os interesses do grupo dos patrícios,em detrimento de outras camadas politicamenteirrelevantes. Entre estas foram crescentes asmanifestações de descontentamento, sobretudo entre ogrupo dos enriquecidos com o comércio, que, mesmopodendo exercer funções públicas, não conseguiamchegar ao Senado.A partir dessas informações, podemos concluirque a essência política do conceito de cidadania narealidade greco-romana revestia-se de uma discrepânciaentre Democracia real e ideal. Defendia-se, portanto,uma igualdade de direitos políticos que, de fato, não erapraticada.Com o passar dos tempos, entretanto, o conceitode cidadania passou a se referir a outras esferas que nãoapenas à política. Assim, para entender seu significado,somos obrigados a atentar para os direitos civis e sociais,situando a cidadania também na esfera jurídica e moral(MARSHALL, 1967, p. 63-65).
AS ESTRUTURAS POLÍTICAS NA IDADEMÉDIA E A CIDADANIA
A Idade Média foi, em termos sociais,econômicos e políticos, um período de transformações eadaptações a uma nova realidade organizacional dasociedade. Assim, durante o processo de formação dofeudalismo, muitas mudanças ocorreram nas atitudesmentais e nas relações entre o saber e a política. Estasalterações permitem-nos visualizar duas realidadesdistintas em termos sociais, mas muito parecidas naesfera política. Desse modo, devemos pensar,igualmente, em dois tipos de cidadania.
 
Num primeiro período, que se sucedeu à quedado Império Romano (séc. V), notamos uma perda nosignificado de cidadania, tal como herdado daAntigüidade. Uma nova organização social, baseada emideais de fidelidade, tornou a participação política umassunto secundário. Nesse contexto, não são poucos osautores que, ao abordar o tema, referem-se à IdadeMédia como um período no qual as questões relativas àpolítica cederam espaço à preocupação com outrasquestões, como, por exemplo, o plano religioso(ARENDT, 1995, p. 43).Isso se deve, em parte, às constantes invasõesque fizeram da Europa um território no qualcontrastavam instituições e costumes provenientes dosmundos bárbaro e romano. Como resultado disso surgiuum tipo peculiar de organização social (nobreza, clero ecamponeses), cujos reflexos foram sentidos até os finaisda Idade Moderna.Além disso, devemos considerar o quadro dedependência, herdado das organizações bárbaras. Oscamponeses subordinavam-se à nobreza, responsávelpela redenção de todos. Nesse sentido, bem oportunassão as palavras de Marc Bloch, quando indaga:
 Ninguém pensava que este (o povo) tivesse que ser consultado, directamente ou por intermédio dos seuseleitos. Não tinha ele como seus representantesnaturais, segundo o plano divino, os poderosos e osricos?
” (BLOCH, 1982, p. 450).A esse tipo de poder aliou-se um regime judiciário, refletindo uma distinção social e de
status
.Verificou-se, portanto, uma justiça diferenciada porestamentos, na qual apenas os estamentos superiorespossuíam o direito de ser julgados por um semelhante(BLOCH, 1982, p. 397-405). Assim, o acesso à justiça,além de constituir-se de elementos consuetudinários,impedia o julgamento entre “iguais”, pelo menos no quetangia às camadas menos favorecidas da sociedade.Era, portanto, uma sociedade de ordens,diferenciadas tanto política quanto juridicamente. Cleroe Nobreza detinham, respectivamente, saber e poder e,conseqüentemente, os direitos advindos do termocidadania. Servos permaneciam alheios aos privilégiosdos “cidadãos”, não podendo acessar o poder público,sem a mediação de outro estamento, detentor de maiorpoder. Submissos à justiça e à ordem estabelecida,poucos eram os que podiam ver na justiça uma fonte dedireitos (BLOCH, 1982, p. 411).Este quadro só começou a se reverter nocontexto do renascimento urbano e da formação dosEstados Nacionais. Esta fase, conhecida como BaixaIdade Média, foi a responsável pelo ressurgir da idéia deum Estado centralizado e, por conseqüência, da noçãoclássica de cidadania, ligada à concessão de direitospolíticos.Iniciava-se, assim, uma nova relaçãoentre política, economia e sociedade, dado o dinamismoque o nascente capitalismo provocava. Houve espaçopara o fortalecimento de uma burguesia mercantil queaspirava aos mesmos direitos destinados aos estamentosprivilegiados. Além disso, esse período proporcionou odesenvolvimento dos princípios teóricos queinstauraram, tanto o Absolutismo Monárquico, quanto amoderna noção de cidadania.Assim, visualizando o contexto medieval,podemos dizer que a noção de direitos políticos ecidadania tornou-se frágil demais, se comparada àsnecessidades materiais e espirituais impostas pelaruralização da economia e pela cristianização dasociedade. Por outro lado, o final desse período registrouprofundas alterações sociais, produto da crescenteurbanização. Houve, então, a necessidade dereformulação do antigo conceito de cidadania, o qualretomou o ideal de igualdade entre os cidadãos.
O ILUMINISMO E A BUSCA DA IGUALDADE
O processo de formação dos Estados Nacionaisconheceu, paralelamente às mudanças nos quadrossociopolíticos, a consolidação da burguesia como classeatuante, tanto política quanto economicamente. Mesmoassim, a centralização promovida pelo absolutismomonárquico manteve, por um longo tempo, o caráterhereditário do poder e as características estamentais daIdade Média.Com um olho nas tradições do passado e outrono progresso do futuro, esse período representou umatransição. Foi o período das revoluções sociais, dastransformações políticas e econômicas, das criaçõesartísticas, do desenvolvimento das ciências, dadisseminação do conhecimento, da busca da liberdade depensamento e da igualdade entre os indivíduos e donascimento do ideal de liberdade.A partir dessas novas diretrizes, procurou-seconstruir uma sociedade mais justa. O aparecimentodessas novas idéias foi instigado pelo desenvolvimentodo Capitalismo e pelas reformas religiosas do séculoXV. Estas plantaram novas visões sobre aespiritualidade, entre as quais podemos citar a prática daredenção, a qual valorizava o trabalho, em detrimento dacaridade e da liberdade para interpretar as escrituras.Nessa nova realidade, a burguesia lutava paraconseguir poder. Apesar de sua proeminência econômicae do apoio recebido do Mercantilismo, essa camadaainda não havia se afirmado politicamente. Dessa forma,passou a contar com as formulações de uma nova
intelligentsia
, disposta a contestar os valores e asinjustiças praticadas pelo clero e pela nobreza. Para isso,propagavam maior autonomia de pensamento aoshomens comuns. Como conseqüência disso, surgiram asidéias iluministas-liberais, produto dos avanços nasciências experimentais e de uma nova racionalidade, pormeio da qual se procurava entender o mundo.

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