Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Save to My Library
Look up keyword
Like this
49Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
JAEGER, Werner - Paidéia: A Formação do Homem Grego.

JAEGER, Werner - Paidéia: A Formação do Homem Grego.

Ratings: (0)|Views: 6,356 |Likes:
Published by kid_ota1218
Retirado de: JAEGER, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1995. pp. 61-84.)
Retirado de: JAEGER, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1995. pp. 61-84.)

More info:

Published by: kid_ota1218 on Mar 25, 2010
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF or read online from Scribd
See more
See less

08/07/2013

pdf

 
HOMERO COMO EDUCADOR (Retirado de: JAEGER, Werner. A Formação do Homem Grego. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes,1995. pp. 61-84.)Conta Platão que era opinião geral no seu tempo ter sido Homero o educador de toda a Grécia
1
.Desde então, a sua influência estendeu-se muito além das fronteiras da Hélade. Nem a apaixonada críticade Platão conseguiu abalar seu domínio, quando buscou limitar o influxo e o valor pedagógico de toda a poesia, A concepção do poeta como educador do seu povo - no sentido mais amplo e profundo da palavra – foi familiar aos Gregos desde a sua origem e manteve sempre a sua importância, Homero foi apenas oexemplo mais notável desta concepção geral e, por assim dizer, a sua manifestação clássica. Convémlevarmos a sério, o mais possível, esta concepção, e não restringirmos a nossa compreensão da poesiagrega com a substituição do juízo próprio dos Gregos pelo dogma moderno da autonomia puramenteestética da arte. Embora esta caracterize certos tipos e períodos da arte e da poesia, não deriva da poesiagrega ou de seus grandes representantes, nem
é 
 possível aplicá-la a eles.A não-separação entre a estética e a ética é característica do pensamento grego primitivo. O procedimento de separá-las surge relativamente tarde. Para Platão, ainda, a limitação do conteúdo deverdade da poesia homérica acarreta imediatamente uma diminuição no seu valor. Foi a antiga retóricaque fomentou pela primeira vez a consideração formal da arte e foi o Cristianismo que, por fim, converteua avaliação puramente estética da poesia em atitude espiritual predominante. É que isso lhe possibilitavarejeitar, como errôneo e ímpio, a maior parte do conteúdo ético e religioso dos antigos poetas e, ao mesmotempo, aceitar a forma clássica como instrumento de educação
e
fonte de prazer. A partir daí, a poesiacontinuou a conjurar do seu mundo de sombras os deuses e heróis da “mitologia” pagã; mas esse mundo passou a ser considerado como jogo irreal da pura fantasia artística. E fácil contemplar Homero por estaacanhada perspectiva, mas assim impedimo-nos o acesso à inteligência dos mitos e da poesia no seugenno sentido helênico. Repugna-nos naturalmente ver a tardia poética filosófica do helenismointerpretar a educação em Homero como uma árida e racionalista
 fábula docet 
ou, de acordo com omodelo dos sofistas, fazer da epopéia uma enciclopédia de todas as artes e ciências. Mas esta quimera daescolástica não é senão a degenerescência de um pensamento em si mesmo correto, o qual, como tudoquanto é belo e verdadeiro, se torna grosseiro em mãos grosseiras. Por mais que esse utilitarismo repugne,com razão, nosso sentido estético, não deixa de ser evidente que Homero, e com ele todos os grandes poetas da Grécia, deve ser considerado, não como simples objeto da história formal da literatura, mascomo o primeiro e maior criador e modelador da humanidade grega.Impõem-se aqui algumas observações sobre a ação educadora da poesia grega em geral e da poesia de Homero, em particular, A poesia só pode exercer uma tal ação se faz valer todas as forçasestéticas e éticas do homem. Porém a relação entre os aspectos ético e estético não consiste só no fato de oético nos ser dado como “matéria” acidental, alheia ao desígnio essencial propriamente artístico, mas simno fato de o conteúdo normativo e a forma artística da obra de arte estarem em interação e terem até nasua parte mais íntima uma raiz comum. Mostremos como o estilo, a composição, a forma se encontram, nosentido da sua qualidade estética específica, condicionados e inspirados pela figura espiritual queencarnam. Não é possível, sem dúvida, fazer desta concepção uma lei estética geral. Existe e existiusempre uma arte que prescinde dos problemas centrais do homem e tem de ser compreendida apenas pelasua idéia formal. E mais: existe uma arte que despreza os chamados assuntos elevados ou fica indiferente perante o conteúdo do seu objeto. É claro que esta frivolidade artística deliberada tem por sua vez efeitos“éticos”, pois desmascara sem qualquer consideração os valores falsos e convencionais, e atua como umacrítica purificadora. Mas só pode ser propriamente educativa uma poesia cujas raízes mergulhem nascamadas mais profundas do ser humano e na qual viva um
ethos,
um anseio espiritual, uma imagem dohumano capaz de se tornar uma obrigação e um dever. A poesia grega nas suas formas mais elevadas nãonos dá apenas um fragmento qualquer da realidade; ela nos dá um trecho da existência, escolhido econsiderado em relação a um ideal determinado.Por outro lado, os valores mais elevados ganham, em geral, por meio da expressão artística,significado permanente e força emocional capaz de mover os homens. A arte tem um poder ilimitado de
1
Nota do autor [doravante NT do A]: Platão,
 Rep.,
606 E, pensa nos "adoradores de Homero", que o enaltecem não só comofonte de prazer artístico, mas também como guia da vida. Idêntica visão em XENÓFANES, frag. 9 Diehl.
1
 
conversão espiritual. É o que os Gregos chamaram
 psicagogia.
Só ela possui ao mesmo tempo a validadeuniversal e a plenitude imediata e viva, que são as condições mais importantes da ação educativa. Pelaunião destas duas modalidades de ação espiritual, ela supera ao mesmo tempo a vida real e a reflexãofilosófica. A vida possui a plenitude de sentido, mas as suas experiências carecem de valor universal.Sofrem demais a interferência dos sucessos acidentais para que a sua impressão possa alcançar sempre ograu máximo de profundidade. A filosofia e a reflexão atingem a universalidade e penetram na essênciadas coisas. Mas atuam somente naqueles cujos pensamentos chegam a adquirir a intensidade de umavivência pessoal. Daqui resulta que a poesia tem vantagem sobre qualquer ensino intelectual e verdaderacional, assim como sobre as meras experiências acidentais da vida do indivíduo. É mais filosófica que avida real (se nos é lícito ampliar o sentido de uma conhecida frase de Aristóteles), mas é, ao mesmotempo, pela concentração de sua realidade espiritual, mais vital que o conhecimento filosófico.Estas considerações não são, de modo nenhum, válidas para a poesia de todas as épocas, nemsequer, sem exceção, para a dos Gregos. Tampouco se limitam a esta. Mas aplicam-se a ela mais que anenhuma outra, pois dela derivam, quanto ao fundamental. Reproduzimos com elas os pontos de vista aque chegou o sentimento artístico grego, ao ser elaborado filosoficamente nos tempos de Platão eAristóteles, com base na grande poesia do seu próprio povo. Apesar de algumas variações de detalhe, aconcepção grega da arte permaneceu, a este propósito, idêntica em tempos posteriores. E dado que nasceunuma época em que existia um sentido mais vivo da poesia, e especificamente da poesia helênica, énecessário e correto perguntarmos qual a sua validade nos tempos de Homero. Em tempo algum aquelesideais alcançaram uma validade tão vasta sob a forma artística, e por ela na formação da posteridade,como nos poemas homéricos. Na epopéia manifesta-se a peculiaridade da educação helênica como em ne-nhum outro poema. Nenhum outro povo criou por si mesmo formas de espírito comparáveis àquelas daliteratura grega posterior. Dela nos vêm a tragédia, a comédia, o tratado filosófico, o diálogo, o tratadocientífico sistemático, a história crítica, a biografia, a oratória jurídica e panegírica
2
, a descrição de viagense as memórias, as coleções de cartas, as confissões e os ensaios. Em contrapartida, deparamos em outros povos, em igual estágio de desenvolvimento, com uma organização das classes sociais – nobres e povo —,um ideal aristocrático do Homem e uma arte popular que traduz a concepção dominante da vida em cantosheróicos análogos àqueles dos Gregos primitivos. E, como sucedeu entre os Gregos, também entre osIndianos, Germanos, Romanos, Finlandeses e alguns povos nômades da Ásia Central nasceu dos cantosheróicos uma epopéia. Encontramo-nos em condições de comparar a poesia épica das mais diversas etnias,raças e culturas, e chegar assim a um melhor conhecimento da épica grega.Com frequência observaram-se as semelhanças intensas de todos aqueles poemas, nascidos domesmo grau de desenvolvimento antropológico. A poesia heróica dos mais antigos tempos da Hélade
3
 partilha os traços primitivos da poesia de outros povos. Mas essa semelhança reside apenas em caracteresexteriores condicionados pelo tempo, não na riqueza da sua substância humana, nem na força da suaforma artística. Nenhuma épica de povo nenhum exprimiu de modo tão completo e tão sublime como ados Gregos aquilo que, apesar de todos os “progressos” burgueses, há de imperecível na fase heróica daexistência humana: o seu sentido universal do destino e verdade permanente da vida. Nem mesmo poemascomo os dos povos germânicos, tio profundamente humanos e tão próximos de nós, podem equiparar-seaos de Homero, na amplitude
e
 permanência da ação. A diferença entre o seu significado histórico na vidado seu povo e o da épica medieval, alemã ou francesa, torna-se manifesta no fato de a influência deHomero ter-se estendido, sem interrupção, por mais de um milhar de anos, ao passo que a época medievalcortês foi esquecida logo após a decadência do mundo cavalheiresco. A força vital da época homérica produziu ainda na época helenística, em que para tudo se buscava fundamento científico, uma nova ciên-cia consagrada à investigação da sua tradição e forma original - a filologia -, que viveu exclusivamente daforça imorredoura daqueles poemas. Em contrapartida, os poeirentos manuscritos da épica medieval, da
Canção de Rolando, do Beowulf e
dos
 Nibelungos,
dormitavam nas bibliotecas e foi preciso que umaerudição prévia os redescobrisse e trouxesse à luz. A
 Divina Comédia
de Dante é o único poema da IdadeMédia que desempenhou papel análogo ao de Homero, não só na vida da sua própria nação, mas até detoda a humanidade. E isto por uma razão semelhante. O poema de Dante, embora condicionado pelotempo, eleva-se, pela profundidade e universalidade da sua concepção do Homem e da existência, a uma
2
Discurso público em louvor a alguém ou a um ser.
3
Relativo aos antigos helenos, pequena tribo que viveu na região do Epiro (Noroeste da Grécia) e que deu origem ao povogrego.
2
 
altura que o espírito inglês só alcança em Shakespeare, e o alemão em Goethe. É certo que os estágios primitivos da expressão poética de um povo encontram-se condicionados do modo mais intenso pelas particularidades nacionais. A compreensão, por outros povos e tempos, do que lhe é peculiar ficanecessariamente restringida. A poesia arraigada no solo — e não há nenhuma verdadeira poesia que não oseja - só se eleva a uma validade universal na medida em que atinge o mais alto grau da universalidadehumana. O fato de Homero, o primeiro que entra na história da poesia grega, ter-se tornado o mestre dahumanidade inteira demonstra a capacidade única do povo grego para chegar ao conhecimento e àformulação daquilo que une e move todos nós.Homero é o representante da cultura grega primitiva. Já apreciamos o seu valor como “fonte” donosso conhecimento histórico da sociedade grega mais antiga. Mas a sua descrição imortal do mundocavalheiresco é algo mais do que um reflexo involuntário da realidade na arte. Este mundo de grandestradições e exigências é a esfera mais elevada da vida, na qual a poesia homérica triunfou e da qual senutriu. O
 Pathos
do sublime destino heróico do homem lutador é o sopro espiritual da
 Ilíada.
O
ethos
dacultura e da moral aristocrática encontra na
Odisséia o
 poema da sua vida. A sociedade que produziuaquela forma de vida desapareceu sem deixar qualquer testemunho para o conhecimento histórico, mas asua representação ideal, incorporada na poesia homérica, converteu-se no fundamento vivo de toda a cul-tura helênica. Hölderlin disse:
O que permanece é obra dos poetas.
Este verso exprime a lei fundamentalda história da educação helênica. As suas pedras fundamentais estão na obra dos poetas. A poesia gregadesenvolve, com plena consciência, de degrau em degrau e em crescente medida, o seu espírito educador.Talvez pudéssemos perguntar como a atitude plenamente objetiva da epopéia é compatível com estaintenção. Já mostramos por meio de exemplos concretos, na análise precedente da
 Embaixada a Aquiles
eda
Telemaquia,
a intenção educadora daqueles cantos. Mas a importância educadora de Homero éevidentemente mais vasta. Não se limita à formulação expressa de problemas pedagógicos nem a algumas passagens que aspirem a produzir um determinado efeito moral. A poesia homérica é uma vasta ecomplexa obra do espírito, que não se pode reduzir a uma fórmula única. Ao lado de fragmentosrelativamente recentes que revelam um interesse pedagógico expresso, aparecem outras passagens nasquais o interesse pelos objetos descritos afasta a possibilidade de pensar numa segunda intenção moral do poeta. O Canto IX da
 Ilíada
ou a
Telemaquia
revelam na sua atitude espiritual uma vontade tão decididade produzir um efeito consciente, que já se aproximam da elegia. Ternos de distinguir, destes, outros frag-mentos, nos quais se revela, por assim dizer, uma educação objetiva que nada tem a ver com o propósitodo poeta, mas se baseia na própria essência do canto épico. Isto nos conduz aos tempos relativamente primitivos onde se encontra a origem do gênero.Homero oferece-nos múltiplas descrições dos antigos aedos
4
, de cuja tradição artística nasceu aépica. O propósito desses cantores é manter vivos na memória do mundo futuro os “feitos dos homens edos deuses”
5
. A glória e a sua manutenção e aumento constituem o sentido próprio dos cantos épicos. Asantigas canções heróicas eram freqüentemente denominadas “glórias dos homens”
6
. O cantor do Canto Ida
Odisséia
recebe do poeta, que ama os nomes significativos, o nome de Fêmio, isto é, portador da fama,anunciador da glória. O nome do cantor feace Demódoco contém a referência à publicidade da sua profissão. O cantor, como mantenedor da glória, tem uma posição firme na sociedade dos homens. Platãoenumera o êxtase poético entre as belas ações do delírio divino e descreve em conexão com ele ofenômeno original que se manifesta no poeta
7
. 
 A possessão e o delírio das musas apoderam-se de umaalma sensível e consagrada, despertam-na e extasiam-na em cantos e em toda sorte de criações poéticas;e ela enquanto glorifica os inúmeros feitos do passado, educa a posteridade.
Tal é a concepção helênicaoriginal. Parte da união necessária
e
inseparável de toda a poesia com o mito - o conhecimento das gran-des ações do passado - e daí deriva a função social e educadora do poeta. Para Platão, esta função nãoconsiste em nenhuma espécie de desígnio consciente de influenciar os ouvintes. O simples fato de manter viva a glória através do canto é, por si só, uma ação educadora.Devemos recordar aqui o que já dissemos antes sobre o significado do exemplo para a éticaaristocrática de Homero. Falamos então do valor educativo dos exemplos criados pelo mito – por exemplo, as advertências ou estímulos de Fênix a Aquiles
e
de Atena a Telêmaco. O mito contém em si
4
Cantor que apresentava suas composições religiosas ou épicas, acompanhando-se ao som da cítara [Orfeu, considerado ummúsico sublime, é o mais conhecido dos aedos.
5
NT do A: α 337.
6
NT do A: κλέα νδωρν, I 189, 524; Θ 73.
7
NT do A: PLATÃO,
 Fedro
, 245 A.
3

You're Reading a Free Preview

Download
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->