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Do mito de Dioniso à visão dionisíaca do mundo - Clademir Luís Araldi

Do mito de Dioniso à visão dionisíaca do mundo - Clademir Luís Araldi

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Published by: Túlio Madson Galvão on Mar 28, 2010
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 NIETZSCHE: Do mito de Dioniso à visão dionisíaca de mundo
Clademir Luís Araldi
*
 
(UFPel, 1998)‘Dioniso’ ocupa um lugar central nos escritos de juventude de Nietzsche,principalmente na obra publicada
O Nascimento da Tragédia (NT)
e no escrito nãopublicado
 A Visão Dionisíaca de Mundo
1
(VD)
. O filósofo alemão, além deressaltar a importância de Dioniso em sua obra, afirma ser o primeiro a tercompreendido o “fenômeno dionisíaco” entre os gregos. Ele não foi o primeiro ater abordado com profundidade o mito de Dioniso. Entretanto, até então Dionisonunca ocupou uma posição filosófica de destaque.O que motivou Nietzsche a aproximar-se do fenômeno dionisíaco não foisomente a busca de um novo sentido da existência, para além dos valores da moralcristã, mas também a busca de um sentido para o sofrimento constitutivo da vida.Por isso, sua relação com o
 fenômeno dionisíaco
e com a
divindade mitológica Dioniso
não é a de um crente que se relaciona com um deus através de rituais, nema de um erudito que investiga um fenômeno mitológico antigo por pura motivaçãointelectual, mas a de um pensador que quer compreender e mergulhar naprofundidade da visão de mundo grega para apreender o valor do mito e dofenômeno dionisíaco e transpô-lo ao horizonte de
sua
filosofia e de
sua
vida. Énesse sentido que analisaremos a compreensão de Dioniso nos seus escritos de juventude.A primeira dificuldade que surge é quanto à delimitação do mito de Dioniso.Não há um mito único, que mostre univocamente a personalidade, a gênese, as
*
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pelotas. Doutor em Filosofia pelaUniversidade de São Paulo.
1
O escrito
 A Visão Dionisíaca de Mundo (die dionysiche Weltanschauung)
consta nas obras completas deNietzsche (ver bibliografia ) organizadas por G. Colli e M. Montinari, no volume I desta edição.
 
2
paixões, o sofrimento e a trajetória dessa figura singular. Inicialmente,apresentaremos distintas versões do mito, bem como algumas ponderações a quechegou a pesquisa erudita nos últimos séculos.
Dioniso, deus antigo
. A pesquisa das origens revela que Dioniso é um deusmuito antigo. Já na Grécia arcaica é afirmada sua epifania: é nesse sentido queTirésias fala de “tradições que vêm de nossos pais, mais antigas que o própriotempo” (Eurípides.
 As Bacantes,
201-202). Confirmando isso, as festas ateniensesmais antigas (Antestérias, Apartúrias e Oscofórias) são de algum modo dedicadas aele
2
.A
epifania
de Dioniso não se dá somente em terras gregas. Dioniso apareceligado a divindades vegetais, como Cibele, Réia, Ariadne (deusa cretense davegetação, sua esposa) e Deméter, deusa da fecundidade, que também seria suaesposa, segundo Píndaro. Ao deus são ligadas duas plantas: a hera, com a qual ele écoroado e a videira, que ele introduz o cultivo, para a produção do vinho. Enquanto
 Baco
, o deus proporciona vigor às plantas; o vinho produzido a partir da videiraserve tanto para alegrar a vida e acalmar as inquietações, como também paraprecipitar os homens na
manía
3
.
O modo pelo qual Dioniso se revela faz dele uma divindade única eincomparável. O deus se revela no ocultamento de uma máscara. Quase sempreassume a máscara do estranho e do estrangeiro, oscilando entre a presença e aausência. Esse aspecto de estrangeiro é mostrado por Eurípides, na tragédia
 As Bacantes
, em que Dioniso é visto como divindade recente (filho de Zeus eSêmele), ou como filho da mortal Sêmele, ocultando assim a essência de suadivindade
4
. Heródoto afirma que Dioniso foi o último deus reconhecido pelosgregos (
 Histórias,
II, 52). Alguns relatos afirmam que Dioniso teria vindo da ÁsiaMenor, da Trácia, em meio a uma experiência religiosa marcada pela selvageria.
2
Cf. Brunel 1, p. 239.
3
Cf. Brunel 1, p. 234. Cf. também Detienne, p. 84ss.
4
Cf. Detienne, p. 27 ss.; cf. também Vernant e Naquet 19, p. 51 ss.
 
3
Os antigos afirmam ainda que Dioniso teve origem numa terra distante, seja ela aEtiópia, o Cáucaso, a Índia. (Brunel 1, 235-237).Dioniso não ocupa no panteão olímpico uma posição privilegiada. Por serfilho de um deus e de uma mortal, ele é visto como herói ou semideus que passapor sofrimentos, morrendo e renascendo deles. Os sofrimentos de sua infância sãorelatados de diversos modos: Hera, a esposa ciumenta de Zeus, faz com queSêmele morra, pelos raios de Zeus, antes de seu nascimento; Hermes entrega acriança a Ino, irmã de Sêmele. Após ser perseguido, Zeus transporta a criança àsninfas de Nisa, onde novamente é perseguido, desta vez por Licurgo. Dioniso évisto também como
 Zagreus
(termo que significa, em trácio ou frígio, desfeito empedaços). Perseguido, despedaçado e devorado pelos Titãs, somente seu coração ésalvo por Atena, que o entrega a Zeus, ocasionando, assim, seu segundonascimento
5
.No que concerne ao mito, à tradição e às festas dionisíacas, a pesquisa dosúltimos séculos permite que cheguemos a alguns esclarecimentos, sem esgotar,contudo, a ambivalência e a complexidade dessa figura mítica única. A descobertade documentos micenianos em linear B esclarece que Dioniso é um deus muitoantigo na religiosidade grega. Pesquisadores como E. Rohde procuraram provarque há uma diferença entre o Dioniso trácio (o autêntico, segundo ele) e o Dionisogrego, que seria “aculturado”. Autores como Vernant e Naquet enfocam aspectosfundamentais, como a relação de Dioniso com a máscara e a possível ligação entreo universo religioso do dionisismo e a representação trágica. M. Detienne procura,de modo original, ressaltar que há um modelo de ação comum em todas asmanifestações de Dioniso, qual seja, a potência capaz de retirar de si mesmo a sualiberação violenta de energia.O que interessava e interessa aos pesquisadores de Dioniso é apreendertraços comuns entre as várias aflorações do mito. A este trabalho Nietzsche
5
Brunel 1, p. 240 ss. Cf. também Detienne 4, p. 27 ss.

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