DO OUTRO LADO DO ESPELHO
A segunda aventura de Alice possui ainda mais referências eruditas e científicas do que a obra anterior de CharlesDodgson. Escrevendo sobre o pseudónimo de Lewis Carroll, este professor de Matemática de Oxford tinha aqui opropósito de entreter jovens e não de ensinar Matemática e Lógica. E é assim que as aventuras de Alice devemser lidas. Mas o público adulto não pode deixar de notar as subtilezas da narrativa.
O começo é profético. Ao passar pelo espelho, Alice fica igual? O leite simétrico, o leite do outro lado, é tão bomcomo o deste? O problema transcende o tratamento matemático da simetria. Geometricamente, é possívelduplicar tudo no espelho e o mundo novo irá funcionar perfeitamente. Mas, sem o saber, Dodgson põe o dedo numproblema que só seria resolvido em meados do século XX quando os físicos, nomeadamente Lee e Yang, quereceberam em 1957 o Nobel por esse seu trabalho, mostraram a existência de assimetria nas partículaselementares. Como o nota Martin Gardner ("The Annotated Alice", 1970, p. 152), o leite perfeitamente simétricoseria constituído por antimatéria, pelo que Alice e o leite explodiriam por simples contacto.Mas o trecho mais citado desta segunda aventura é, sem dúvida, a exortação da rainha à corrida. Aparece logo nocapítulo 2. "Aqui, vês, é preciso correr o mais depressa possível para ficar no mesmo sítio". Os políticos eeconomistas modernos percebem bem a profundidade do dito.Mais à frente, no capítulo 4, aparece um gigantesco corvo que escurece subitamente a cena e interrompe a lutaentre os dois caricatos irmãos. O episódio parece ter sido inspirado numa história verídica de uma batalha doséculo VI a. C. O biólogo e evolucionista britânico J. B. S. Haldane, nascido em Oxford em 1892, quando o autorde Alice ainda aí residia e trabalhava, não tem dúvidas. No seu livro de ensaios "Possible Words" (1927, p. 8), dizque "A verdadeira história é a seguinte: Aliates, rei da Lídia, estava há cinco anos em guerra com Ciaxares, rei dosMedos. No seu sexto ano, em 28 de Maio de 585 a. C., como se sabe, a batalha foi interrompida por um eclipsetotal do Sol. Os reis pararam a batalha". Nas palavras do historiador grego Heródoto, "ficaram mais que ansiosospor estabelecer a paz" ("Histórias", 1.73-4)No capítulo seguinte, Lewis Carroll retorna a um dos seus temas favoritos, o tempo. Agora, coloca-o a andar paratrás, o que surpreende Alice. Sabe-se que Dodgson gostava de rodar as caixas de música em sentido inverso,para perceber como resultavam as melodias tocadas ao contrário. Toda esta discussão poderá ter inspirado oescritor norte-americano F. Scott Fitzgerald a escrever em 1922 a novela "O Estranho Caso de Benjamim Button",adaptada com imenso sucesso ao cinema há dois anos. Com o tempo a andar para trás, a rainha de Alice temmemória nos dois sentidos: lembra-se do que passou e do que vai acontecer! Naturalmente também prevê opassado. Aliás, segundo um conhecido provérbio inglês, a previsão mais difícil é a do futuro.Deixemos o leitor com um desafio de previsão do passado que Dodgson incluiu na sua colecção de "Problemas deTravesseiro" (1893, nº 5): uma caixa tem uma única bola, preta ou branca, não se sabe; junta-se-lhe uma bolabranca e sacode-se; tira-se uma bola ao acaso, que se verifica ser branca; que é mais provável, que a caixativesse originalmente uma bola preta ou uma branca?
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