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Massimo Introvigne

Massimo Introvigne

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Sacerdotes pedófilos: um pânico moral
de Maximo Introvigne - publicado em : Massimo Introvigne é sociólogo italiano. O texto original está no site do CESNUR - Centro Studi sulle Nuove
Religioni (http://www.cesnur.org/2010/mi_preti_pedofili.html).
Traduzido por Maria José Figueiredo
Sacerdotes pedófilos: um pânico moral
de Maximo Introvigne - publicado em : Massimo Introvigne é sociólogo italiano. O texto original está no site do CESNUR - Centro Studi sulle Nuove
Religioni (http://www.cesnur.org/2010/mi_preti_pedofili.html).
Traduzido por Maria José Figueiredo

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Sacerdotes pedófilos: um pânico moral
Por Massimo Introvigne
Por que motivo se volta a falar de sacerdotes pedófilos,com acusações que remontam à Alemanha, a pessoas próximasdo Papa, e talvez mesmo ao próprio Papa? A sociologia temalguma coisa a dizer sobre isto, ou deve deixar o assuntoexclusivamente ao cuidado dos jornalistas? Parece-me que asociologia tem muito a dizer, e que não deve calar-se por receiode desagradar a algumas pessoas. Do ponto de vista do sociólogo,a actual discussão sobre os sacerdotes pedófilos constitui umexemplo típico de «pânico moral». O conceito surgiu nos anos 70do século XX, para explicar a «hiperconstrução social» de quealguns problemas são objecto; mais precisamente, os pânicosmorais foram definidos como problemas socialmenteconstruídos, caracterizados por uma sistemática amplificaçãodos dados reais, quer a nível mediático, quer nas discussõespolíticas. Os pânicos morais têm ainda duas outrascaracterísticas: em primeiro lugar, problemas sociais que existemdesde há várias décadas são reconstruídos, nas narrativas mediáticas e políticas, como problemas «novos»,ou como problemas que foram objecto de um alegado crescimento, dramático e recente; em segundo lugar, asua incidência é exagerada por estatísticas folclóricas que, embora não confirmadas por estudos académicos,são repetidas pelos meios de comunicação, podendo inspirar persistentes campanhas mediáticas. Por seuturno, Philip Jenkins sublinhou o papel dos «empresários morais», pessoas cujos interesses nem sempre sãoóbvios, na criação e na gestão destes pânicos. Os pânicos morais não fazem bem a ninguém; distorcem apercepção dos problemas, comprometendo a eficácia das medidas destinadas a resolvê-los. A uma análisemal feita não pode nunca deixar de se seguir uma intervenção mal feita.Sejamos claros: na origem dos pânicos morais estão condições objectivas e perigos reais; osproblemas não são inventados, as suas dimensões estatísticas é que são exageradas. Numa série deinteressantes estudos, Philip Jenkins mostrou que a questão dos sacerdotes pedófilos é talvez o exemplomais típico de pânico moral; com efeito, estão aqui presentes os dois elementos característicos destasituação: um dado real de partida, e um exagero deste dado por obra de ambíguos «empresários morais».Comecemos pelo dado real de partida. Há sacerdotes pedófilos. Alguns casos, repugnantes eperturbadores, foram alvo de condenações peremptórias, e os próprios acusados nunca se declararaminocentes. Estes casos – passados nos Estados Unidos, na Irlanda, na Austrália – explicam as severaspalavras proferidas pelo Papa, bem como o pedido de perdão que dirigiu às vítimas. Mesmo que se tratasseapenas de dois casos – ou de um só –, seriam sempre demais; contudo, a partir do momento em que não basta pedir perdão – por muito nobre e oportuna que tal atitude seja –, sendo preciso evitar que os casos serepitam, não é indiferente saber se foram dois, ou duzentos, ou vinte mil. Como também não é irrelevantesaber se os casos são mais ou menos numerosos entre os sacerdotes e os religiosos católicos do que entreoutras categorias de pessoas. Os sociólogos são muitas vezes acusados de trabalhar com a frieza dosnúmeros, esquecendo que, por detrás dos números, se encontram pessoas; acontece porém que, emborainsuficientes, os números são necessários, porque são o fundamento de uma análise adequada.Para se compreender como é que, a partir de um dado tragicamente real, se passou a um estado depânico moral, é pois necessário perguntar quantos são os sacerdotes pedófilos. Os dados mais amplos sobreesta matéria foram recolhidos nos Estados Unidos onde, em 2004, a Conferência Episcopal encomendou umestudo independente ao John Jay College de Justiça Criminal da Universidade de Nova Iorque, que não éuma universidade católica e que é unanimemente reconhecida como a mais autorizada instituiçãoacadémica americana em criminologia. De acordo com este estudo, entre 1950 e 2002, 4392 sacerdotesamericanos (num total de 109.000) foram
acusados
de manter relações sexuais com
menores
; destes, pouco
 
mais de uma centena foram
condenados
pelos tribunais civis. O reduzido número de condenações por partedo Estado deriva de vários factores. Em alguns casos, as vítimas – efectivas ou presumidas – acusaramsacerdotes que já tinham morrido, ou cujos alegados crimes já tinham prescrito; noutros casos, a acusação ea condenação canónica não corresponde à violação de nenhuma lei civil, como acontece, por exemplo, emdiversos estados americanos em que o sacerdote tenha tido relações com uma – ou mesmo com um – menorcom mais de dezasseis anos que tenha consentido no acto. Mas também houve muitos casos clamorosos desacerdotes inocentes que foram acusados, casos que se multiplicaram na década de 1990, quando algunsescritórios de advogados perceberam que podiam arrancar indemnizações milionárias na base de simplessuspeitas. Os apelos à «tolerância zero» justificam-se, mas também não deve haver tolerância relativamenteà calúnia de sacerdotes inocentes. Acrescento que, relativamente aos Estados Unidos, os números nãomudariam de forma significativa se lhes juntássemos o período de 2002 a 2010, porque o estudo do JohnJay College já fazia notar o «notável declínio» do número de casos observado no ano 2000. As novasinvestigações foram muito poucas, e as condenações pouquíssimas, devido às rigorosas medidasintroduzidas, quer pelos bispos americanos, quer pela Santa Sé.O estudo do John Jay College afirma, como muitas vezes se lê, que 4% dos sacerdotes americanos são«pedófilos»? Nem pensar. De acordo com o referido estudo, 78,2% das
acusações
referem-se a menores
que já ultrapassaram a puberdade.
Ter relações sexuais com uma rapariga de dezassete anos não é certamenteum acto de virtude, muito menos para um sacerdote; mas também não é um acto de pedofilia. Assim, ossacerdotes acusados de
 pedofilia efectiva
nos Estados Unidos foram 958 em cinquenta e dois anos, ou seja,dezoito por ano; as condenações foram 54, ou seja,
 pouco mais de uma por ano
.O número de condenações penais de sacerdotes e religiosos noutros países é semelhante ao dosEstados Unidos, ainda que não exista, relativamente a nenhum país, um estudo completo como o do JohnJay College. Na Irlanda, são frequentemente citados relatórios governamentais, que definem como«endémica» a presença de abusos nos colégios e orfanatos (masculinos) geridos por algumas dioceses eordens religiosas, e não há dúvida de que houve casos de gravíssimos abusos sexuais de menores neste país.Uma análise sistemática destes relatórios permite contudo perceber que muitas das acusações dizemrespeito à utilização de meios correctivos excessivos ou violentos. O chamado Relatório Ryan, de 2009, querecorre a uma linguagem muito dura no que diz respeito à Igreja Católica, assinala, em 25.000 alunos decolégios, reformatórios e orfanatos, no período analisado, 253
acusações
de abusos sexuais por parte derapazes e 128 por parte de raparigas (e nem todas são atribuídas a sacerdotes, religiosos ou religiosas), denatureza e gravidade diversas, raramente referidas a crianças pré-púberes e que ainda mais raramenteconduziram a condenações. As polémicas das últimas semanas, relativas à Alemanha e à Áustria, expõem uma característica típicados pânicos morais: apresentar como «novos» factos ocorridos há muitos anos ou, como em alguns casos,conhecidos parcialmente há mais trinta anos. O facto de eventos ocorridos em 1980 terem chegado àprimeira página dos jornais apresentados como se tivessem acontecido ontem – e com particular insistênciano que diz respeito à Bavária, a área geográfica de onde o Papa é originário –, e de deles resultarem violentaspolémicas, com ataques concentrados, que todos os dias anunciam, em estilo gritante, novas «descobertas»,mostra claramente que o pânico moral é promovido por «empresários morais» de forma organizada esistemática. O caso que – de acordo com os títulos de alguns jornais – «envolve o Papa» é um caso demanual; refere-se a um episódio de abusos que teve lugar na Arquidiocese de Munique da Baviera eFreising, da qual era Arcebispo o actual Pontífice, e que remonta a 1980. O caso veio à luz em 1985 e foi julgado por um tribunal alemão em 1986, estabelecendo, entre outras coisas, que a decisão de instalar osacerdote em questão na diocese não tinha sido tomada pelo Cardeal Ratzinger, nem era sequer do seuconhecimento, circunstância que não é propriamente de estranhar numa diocese grande, com uma burocracia complexa. A verdadeira questão deve ser, pois: o que leva um jornal alemão a decidir recuperar ocaso, e trazê-lo à primeira página vinte e quatro anos depois?Uma pergunta desagradável – porque o simples facto de a colocar parece uma atitude defensiva, etambém não consola as vítimas –, mas importante, é a de saber se um sacerdote católico corre, pelo facto deo ser, mais riscos de vir a ser pedófilo ou de abusar sexualmente de menores do que a maioria da população,
 
duas situações que, como se viu, não são idênticas, porque abusar de uma rapariga de dezasseis anos não éser pedófilo. É fundamental responder a esta pergunta, para descobrir as causas do fenómeno, e portantopara poder evitá-lo. De acordo com os estudos de Philip Jenkins, comparando a Igreja Católica dos EstadosUnidos com as principais denominações protestantes, a presença de pedófilos é, dependendo dasdenominações,
duas a dez vezes superior 
entre os pastores protestantes. A questão é relevante, porquemostra que o problema não é o celibato, dado que, na sua maioria, os pastores protestantes são casados. Nomesmo período em que uma centena de sacerdotes católicos eram condenados por abusos sexuais demenores, o número de professores de educação física e de treinadores de equipas desportivas jovens,também quase todos casados, considerados culpados do mesmo delito nos tribunais americanos atingia os
seis mil 
. Os exemplos podem multiplicar-se, e não só nos Estados Unidos. E o principal dado a ter em conta,de acordo com os relatórios periódicos do governo americano, é o de que dois terços dos abusos sexuais amenores não são feitos por estranhos, ou por educadores – incluindo os sacerdotes católicos e os pastoresprotestantes –, mas por membros da família: padrastos, tios, primos, irmãos e pelos próprios pais. Eexistem dados semelhantes relativamente a muitos outros países.E há um dado ainda mais significativo, mesmo que politicamente incorrecto: 80% dos pedófilos sãohomossexuais, são homens que abusam de outros homens. E – voltando a citar Philip Jenkins – 90% dossacerdotes católicos condenados por abusos sexuais de menores e pedofilia são homossexuais. Se a IgrejaCatólica tem efectivamente um problema, não é o do celibato, mas o de uma certa tolerância dahomossexualidade nos seminários, que teve particular incidência nos anos 70, a época em que foi ordenadaa grande maioria dos sacerdotes que foram posteriormente condenados por abusos. Um problema queBento XVI está a corrigir com todo o vigor. De forma mais geral, o regresso à moral, à disciplina ascética, àmeditação sobre a verdadeira e grandiosa natureza do sacerdócio, são os melhores antídotos contra a verdadeira tragédia que é a pedofilia; e o Ano Sacerdotal também deve ter esse objectivo.Relativamente a 2006 – altura em a BBC emitiu o documentário de Colm O’Gorman, deputadoirlandês e activista homossexual – e a 2007 – altura em que Santoro apresentou a respectiva versão italianaem
 Annozero
–, não há, na realidade, grandes novidades, à excepção de uma crescente severidade e vigilância por parte da Igreja. Os casos dolorosos dos quais se tem falado nas últimas semanas não são todosinventados, mas sucederam há vinte ou trinta anos.Ou talvez haja uma novidade. Como se explica esta recuperação, em 2010, de casos antigos e muitosdeles já conhecidos, ao ritmo de um por dia, atacando de forma sempre mais directa o Papa, um ataque aliásparadoxal, tendo em consideração a enorme severidade, primeiro do Cardeal Ratzinger, e depois de BentoXVI, relativamente a este tema? Os «empresários morais» que organizam o pânico têm objectivosespecíficos, objectivos esses que se vão tornando cada vez mais claros, e que não são a protecção dascrianças. A leitura de certos artigos permite compreender que – na véspera de escolhas políticas, jurídicas emesmo eleitorais que, um pouco por toda a Europa e pelo mundo, põem em questão a administração dapílula RU486, a eutanásia, o reconhecimento das uniões homossexuais, temas em que a voz da Igreja e doPapa é quase a única que se ergue a defender a vida e a família – poderosos grupos de pressão se esforçampor desqualificar preventivamente esta voz com a acusação mais infamante, que é também, hoje em dia, amais fácil de fazer: a acusação de favorecer ou tolerar a pedofilia. Estes grupos de pressão mais ou menosmaçónicos são uma prova do sinistro poder da tecnocracia, evocado pelo mesmo Bento XVI na encíclica
Caritas in Veritate
e denunciado por João Paulo II na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1985 (de08.12.1984), quando se referia aos «desígnios ocultos», a par de outros «abertamente propagandeados»,«com vista a subjugar os povos a regimes em que Deus não conta». Vivemos realmente numa hora de trevas, que traz à mente a profecia de um grande pensador católicodo século XIX, o piemontês Emiliano Avogadro della Motta (1798-1865), que afirmava que das ruínasprovocadas pelas ideologias laicistas nasceria uma verdadeira «demonolatria», que se manifestaria de modoespecial no ataque à família e à verdadeira noção do matrimónio. Restabelecer a verdade sociológica sobreos pânicos morais relativamente aos sacerdotes e à pedofilia não permitirá travar este grupo de pressão, maspoderá constituir, pelo menos, uma pequena e devida homenagem à grandeza de um Pontífice e de umaIgreja feridos e caluniados porque se recusam a calar-se nas matérias que dizem respeito à vida e à família.

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