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A vida dos estudantes - Walter Benjamin

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A vida dos estudantes, Walter Benjamin
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05/12/2014

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A VIDA DOS ESTUDANTES
Há uma concepção da história que, confiando na eternidade do tempo, sódistingue o ritmo dos homens e das épocas que correm rápida oulentamente na esteira do progresso. A isso corresponde a ausência de nexo,a falta de precisão e de rigor que ela coloca em relação ao presente. Asconsiderações que se seguem visam, porém, a um determinado estado decoisas no qual a história repousa concentrada em um foco, tal como desdesempre nas imagens utópicas dos pensadores. Os elementos do estado finalnão estão presentes como tendência amorfa do progresso, mas encontram-se profundamente engastados em todo presente, como as criações e ospensamentos mais ameaçados, difamados e desprezados. Transformar oestado imanente de plenitude de forma pura em estado absoluto, torná-lovisível e soberano no presente
 
 
eis a tarefa histórica. Contudo, esseestado não pode ser expresso através da descrição pragmática depormenores –
 
(instituições, costumes etc.), da qual ele se furta, mas só podeser compreendido em sua estrutura metafísica, como o reino messiânico oua idéia da Revolução Francesa. A significação histórica atual dosestudantes e da universidade, a forma de sua existência no presente merece,portanto, ser descrita apenas como parábola, como imagem de ummomento mais elevado e metafísico da história. Só assim ela se tomacompreensível e possível. Tal descrição não é apelo ou manifesto, formasque permaneceram ineficazes, mas aponta para a crise que, encontrando-sena essência das coisas, leva a uma decisão à qual os covardes sucumbem eos corajosos se subordinam. O único caminho para tratar do lugar históricodo estudantado e da universidade é o sistema. Enquanto para isso faltamainda várias condições, resta apenas libertar o futuro de sua forma presentedesfigurada, através de um ato de conhecimento. Somente para isso serve acrítica.A vida dos estudantes é abordada a partir da pergunta se ela tem unidadeconsciente. Essa pergunta é o ponto de partida, pois não leva a nadadistinguir problemas na vida do estudante —
 
ciência, Estado, virtude —quando lhe falta coragem e disposição de se submeter. É notável, de fato,na vida estudantil, a aversão de se submeter a um princípio, de se imbuir deuma idéia. O nome da ciência presta-se por excelência a ocultar umaarraigada indiferença burguesa. Medir a vida estudantil com a idéia daciência não significa, de modo algum, panlogismo ou intelectualismo —como se possa temer —, mas é uma critica legítima, já que na maioria dasvezes a ciência é evocada como o baluarte dos estudantes contrareivindicações “estranhas”. Trata-se portanto de uma unidade interior, nãode uma crítica de fora. Aqui pode-se objetar que, para a grande maioria dosestudantes, a ciência é uma escola profissional. Já que “a ciência não temnada a ver com a vida”, ela deve reger exclusivamente a vida de quem a
 
segue. Dentre as objeções mais inocentes e mentirosas está a expectativa deque ela deva ajudar fulano ou beltrano a se prepararem para uma profissão.A profissão resulta tão pouco da ciência que esta pode até exclui-la. Pois aciência, pela sua própria essência, não admite que o pesquisador se desliguedela: obriga-o, de certa maneira, a ser sempre professor, nunca, a exercer asprofissões públicas de médico, jurista ou docente universitário. Não leva anada, quando instituições onde se pode conseguir títulos e certificados,profissão e emprego, se autodenominam centros da ciência. A objeção decomo o Estado atual deve recrutar seus médicos, juristas e professores nãoserve de prova contrária. Mostra apenas o tamanho revolucionário datarefa: fundar uma comunidade de pesquisadores no lugar da corporação defuncionários públicos e portadores de diploma acadêmico. Mostra apenasaté que ponto as ciências atuais, através do desenvolvimento de seu aparatoprofissionalizante (e do seu
know how
), foram desviadas de sua origemcomum, fundada na idéia do saber, a qual agora se transformou para elasem mistério, quando não em ficção. Quem considera o Estado atual umacoisa estabelecida de uma vez para todas, a cuja linha de desenvolvimentotudo se subordina, deve repudiar essa idéia; contanto que não ouse exigirdo Estado proteção e amparo da “ciência”. Pois o que testemunha adegradação, não é a conformidade da universidade com o Estado — o quenão combinaria mal com a franca barbárie —, mas a garantia e a doutrinada liberdade de uma ciência, da qual se espera, com naturalidade brutal,que conduza seus adeptos à individualidade social e ao serviço público. Atolerância das concepções e das doutrinas mais livres não é de nenhumproveito, enquanto não for garantida a vida que elas — tanto quanto asmais austeras — trazem em seu bojo e se negue ingenuamente a existênciadesse abismo pela ligação da universidade com o Estado. É um equívocodesenvolver exigências isoladas, enquanto cada uma delas, em suarealização, ficar privada do espírito de totalidade; mas apenas um fato deveser destacado como notável e espantoso: na instituição da universidade, àsemelhança de um gigantesco jogo de esconde-esconde, professores ealunos passam uns pelos outros sem nunca se enxergarem. O estudantado,que não tem o
status
do funcionalismo público, fica sempre atrás doprofessorado, e a base jurídica da Universidade, personificada no Ministroda Cultura — nomeado não pela universidade mas pelo soberano — é umacorrespondência semivelada da instituição acadêmica com os órgãosestatais, por cima das cabeças dos estudantes (e, em casos raros e felizes,também dos professores).A submissão acrítica e sem resistência a esse estado de coisas é um traçoessencial na vida dos estudantes. É verdade que as assim chamadasorganizações de Estudantes Livres (freistudentische Organisationen) eoutras de tendência social empreenderam uma aparente tentativa desolução. Esta, em última instância, leva a um completo aburguesamento da
 
instituição, e em parte alguma se mostrou com maior evidência que osestudantes de hoje, enquanto comunidade, não são capazes nem mesmo deformular a questão da vida científica e de compreender até que ponto elaimplica um protesto insolúvel contra a vida profissional de seu tempo. Jáque essa questão esclarece agudamente a noção caótica que os estudantestêm da vida científica, faz-se necessária a crítica das idéias do MovimentoEstudantil Livre e de outras afins, o que será feito com palavras de umdiscurso proferido pelo autor diante de estudantes, quando pretendia atuarem favor da renovação.“Existe um critério muito simples e seguro para testar o valor espiritual deuma comunidade. É só colocar estas perguntas: expressa-se nela o serhumano com a totalidade de suas atuações? Há um compromisso entre ela eo ser humano inteiro? Ele lhe é imprescindível? Ou a comunidade éprescindível para cada um na mesma medida que ele a ela? É muito simplesformular tais perguntas, muito simples respondê-las com relação aos tiposatuais de comunidade social, e as respostas são decisivas. Todo indivíduoatuante aspira à totalidade, e o valor de uma realização está justamente ali,no fato de que possa se expressar a essência total e indivisível de um serhumano. No entanto, o desempenho socialmente fundamentado, tal como oencontramos hoje em dia, não abrange a totalidade, mas é algocompletamente fragmentário e postiço. Não raramente a comunidade socialé o lugar onde se luta, sorrateiramente e em cumplicidade com outros,contra desejos mais elevados e metas próprias, e onde o desenvolvimentogenuíno e mais profundo é encoberto. Na maioria dos casos, o desempenhosocial do homem comum serve para recalcar as aspirações originais eautênticas do homem interior. Aqui, trata-se de universitários, pessoas que,devido a sua profissão, têm alguma ligação interior com lutas espirituais,com o ceticismo e criticismo do estudioso. Essas pessoas apoderam-se,como local de trabalho, de um meio muito distante do seu e que lhes étotalmente estranho, e ali, longe do mundo, criam para si uma atividadelimitada, e a totalidade dessa ação se restringe a beneficiar umacomunidade freqüentemente abstrata. Não existe qualquer ligação interior eoriginal entre a existência espiritual de um estudante e seu interesse em darassistência social a filhos de operários ou, mesmo, a outros estudantes.Nenhuma ligação a não ser um conceito de dever desvinculado do seutrabalho pessoal e específico, que instaura uma oposição mecanicista: ‘cá obolsista do povo — lá o desempenho social’. Aqui o sentimento de dever écalculado, postiço e distorcido, não resultando do próprio trabalho. E essedever se cumpre: não no sofrimento por uma verdade descoberta pelopensamento, não na aceitação de todos os escrúpulos de um pesquisador e,de alguma maneira, num modo de pensar ligado à própria vida intelectual;mas numa oposição crassa e ao mesmo tempo superficial, do tipo: ideal-material, teórico-prático. Em suma: aquele trabalho social não é a elevação

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