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Marginalia-Lima Barreto

Marginalia-Lima Barreto

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01/22/2013

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text

original

 
Margin
á
lia
, de
Lima BarretoTexto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>A Escola do Futuro da Universidade de S
ã
o PauloPermitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Virtual Booksotore<http://www.vbookstore.com.brEste material pode ser redistribu
í
do livremente, desde que n
ã
o seja alterado, e que as informa
çõ
es acima sejam mantidas.Para mais informa
çõ
es, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.
 Estamos em busca de patrocinadores e volunt 
á
rios para nos ajudar a manter este projeto. Se voc
ê
quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso
é 
poss
í 
vel.
MARGIN
Á
LIALima Barreto
A QUEST
Ã
O DOS "POVEIROS"Essa quest
ã
o dos pescadores origin
á
rios de P
ó
voa do Varzim, em Portugal, que,desde muitos anos, se haviam especializado, entre n
ó
s, na pesca em alto mar, e como que atinham monopolizado, por parecer terminada, merece ser epilogada, pois muitas s
ã
o as notasque se lhe podem apor
à
margem.De parte a parte, nas afirma
çõ
es e atos de um e outro advers
á
rio, um esp
í
ritoimparcial encontra o que observar e material para reflex
õ
es.Os defensores lastimosos dos "poveiros", que n
ã
o se quiseram naturalizar brasileirose, por isso, se repatriaram, encarni
ç
aram-se contra os japoneses, entre outros motivos, porqueeles se insulam na massa da popula
çã
o nacional, com a qual parece n
ã
o quererem ter sen
ã
or
á
pidos contatos, os indispens
á
veis para os seus neg
ó
cios.Curioso
é
que encontrem, unicamente nos japoneses, essa repugn
â
ncia pela imita
çã
ocom o geral da popula
çã
o brasileira, quando os tais "poveiros" a possuem ou possu
í
amtamb
é
m, a ponto de n
ã
o permitirem que, entre eles, houvesse outra gente, empregada nas suaspescarias, sen
ã
o os naturais de P
ó
voa do Varzim.Quando menino e adolescente, devido
à
ocupa
çã
o de meu pai, na ilha doGovernador, andei enfronhado nessas coisas de pesca e sabia bem desse exclusivismo dos"poveiros", extensivo at
é
aos outros seus patr
í
cios portugueses, oriundos de outras localidadesde Portugal. Pessoa de toda a confian
ç
a, h
á
dias, informou-me que dos estatutos de umasociedade de tais pescadores naturais de P
ó
voa do Varzim constava, em letra redonda, n
ã
opoder fazerem parte dela sen
ã
o os nascidos naquele lugarejo de Portugal.Os portugueses de Outra origem, que possu
í
am canoas, redes, "currais" e outrospetrechos de pesca em escala mais ou menos desenvolvida, e a exerciam no interior da ba
í
a,empregavam na sua ind
ú
stria indiferentemente auxiliares quaisquer, fossem ou n
ã
o seuspatr
í
cios. Os "poveiros" n
ã
o; quem n
ã
o
é
de P
ó
voa n
ã
o pesca com eles; e a sua vida
é
todafeita
à
parte dos outros portugueses e dos demais de outra qualquer nacionalidade, brasileiraou n
ã
o. Por a
í
, v
ê
-se bem que eles levavam o seu isolamento do resto dos habitantes do Brasilmais longe que os japon
ê
ses. Estes fazem - estou disposto a crer - uma col
ô
nia confinada em
 
si mesma, ferozmente isolada do grosso da nossa popula
çã
o; mas os "poveiros" s
ó
faziamuma col
ô
nia dentro da pr
ó
pria col
ô
nia de naturais do pa
í
s de origem, com os quais pouco ouquase nada se misturavam.As minhas id
é
ias e os meus princ
í
pios s
ã
o inteiramente infensos a esse prurido denacionaliza
çã
o qu
ê
anda por a
í
, e do qual os "poveiros" foram vitimas, tanto mais que, nocaso desses homens, se trata de uma profiss
ã
o humilde, tendo liga
çõ
es muito t
ê
nues e remotascom a administra
çã
o, a pol
í
tica e coisas militares do Brasil, n
ã
o exigindo, portanto, o tal "fogosagrado do patriotismo", a fim de apurar-lhe o exerc
í
cio, junto a excelentes vencimentos.A verdade, por
é
m, deve ser dita; e n
ã
o foi sen
ã
o isto que fiz. A desorienta
çã
o a esserespeito
é
tal que estamos vendo como essa quest
ã
o se vai desdobrando em lament
á
veisespet
á
culos de viol
ê
ncias inauditas.O inspetor de pesca, a quem n
ã
o atribuo m
ó
veis subalternos - longe de mim talcoisa! - n
ã
o contente de exercer draconianamente as atribui
çõ
es que as leis e os regulamentosconferem a seu cargo, sobre redes e outras coisas pr
ó
prias ao of 
í
cio de pescar, meteu-setamb
é
m a querer regular o com
é
rcio do pescado. Com a sua educa
çã
o militar, que s
ó
v
ê
solu
çã
o para os problemas que a sociedade p
õ
e na viol
ê
ncia, n
ã
o trepidou em empreg
á
-la,violando os mais elementares princ
í
pios constitucionais. Com aux
í
lio da marinhagem docruzador sob seu comando e de sequazes paisanos, talvez mais brutais e ferozes do que aspr
ó
prias pra
ç
as de marinha, apesar de estarem habituadas estas, desde tenra idade, nas Escolasde Aprendizes, a ver, num oficial de marinha, um ente
à
parte, um semideus arquipoderoso,cujas ordens s
ã
o ditames celestiais - com semelhante gente, violentamente, p
ô
s-se a apreenderas "mar
é
s" nas canoas de pescaria, para vend
ê
-las ao pre
ç
o que entendesse, deduzirpercentagem arbitrariamente calculada, e, ainda por cima, a intimar os pescadores isolados ase matricularem em umas famosas col
ô
nias de pesca, improvisadas do p
é
para a m
ã
o.Tudo isto consta de jornais insuspeitos e n
ã
o houve quem contestasse. Essasubvers
ã
o das mais comezinhas garantias constitucionais, levada a efeito por um oficial que,por mais distinto que seja, n
ã
o pode possuir autoridade para tanto, como ningu
é
m a tem,leva-nos a pensar como as nossas institui
çõ
es republicanas v
ã
o respondendo muito mal aosintuitos dos seus codificadores e legisladores.Seja qual for a emerg
ê
ncia, pouco a pouco, n
ã
o s
ó
nos Estados long
í
nquos, at
é
mesmo nos mais adiantados, e no pr
ó
prio Rio de Janeiro, capital da Rep
ú
blica, a autoridademais modesta e mais transit
ó
ria que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei erecorre
à
viol
ê
ncia, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha,
à
solit
á
ria a p
ã
o e
á
gua, eoutros processos torquemadescos e otomanos.
É
o reg
í
men de "villayet" turco em que estamos;
é
o governo de beis, pax
á
s e c
á
dis oque temos. Isto
é
um sintoma de mol
é
stia generalizada. A
é
poca que atravessamos parece serde loucura coletiva em toda a humanidade.Havia de parecer que a gente de ju
í
zo e de cora
çã
o, com responsabilidade na dire
çã
opol
í
tica e administrativa dos povos, depois dessa chacina horrorosa e in
ú
til que foi a guerra de1914, e das conseq
üê
ncias de mis
é
ria, fome e doen
ç
a que, acabada, acarretou ainda comocontrapeso procurasse afugentar, por todos os meios, dos seus pa
í
ses, os germens desseaterrador flagelo da guerra; entretanto n
ã
o
é
assim. Em vez de propugnarem uma aproxima
çã
omais fraternal entre os povos do mundo, um m
ú
tuo, sincero e leal entendimento entre todoseles, como que timbram em mostrar desejarem mais guerra, pois estabelecem in
í
quas medidasfiscais que isolam os pa
í
ses uns dos outros; tentam instalar artificialmente ind
ú
strias que s
ó
s
ã
o poss
í
veis em certas e determinadas regi
õ
es do globo, devido
à
s condi
çõ
es naturais, e istoainda no fito de prescindirem da coopera
çã
o de outra na
çã
o qualquer, amiga ou inimiga; e - oque
é
pior - todos se armam at
é
os dentes, mesmo
à
custa de empr
é
stimos oneros
í
ssimos ou dadeprecia
çã
o das respectivas moedas, originada por emiss
õ
es sucessivas e in
ú
meras, depapel-moeda. Estamos no tempo da cegueira e da viol
ê
ncia.
 
Max-Nordau, em artigo que uma revista desta cidade traduziu, cujo t
í
tulo
é
LoucuraColetiva, - observa muito bem, ap
ó
s examinar os desprop
ó
sitos de toda a sorte que seseguiram
à
termina
çã
o oficial da grande guerra:"Dizia-se antigamente: "Todo o homem tem duas p
á
trias, a pr
ó
pria e depois aFran
ç
a". Pois esta mesma Fran
ç
a, t
ã
o hospitaleira, t
ã
o carinhosa, mostra agora a todos osestrangeiros um semblante hostil e, durante a maior parte do tempo, torna-se imposs
í
vel aestada em seu solo. As rela
çõ
es entre, povo e povo, entre homem e homem, quebraram-seviolentamente e cada pa
í
s encerra-se por detr
á
s das suas fronteiras, opondo-se a t
ô
da a,infiltra
çã
o humana do exterior."Esperava-se que
à
guerra sucedesse a reconcilia
çã
o. Pelo contr
á
rio, procura-se portodos os lados ati
ç
ar os
ó
dios, exasperar os rancores, excitar a sede de vingan
ç
a.Mais adiante, ele acrescenta esta observa
çã
o que pode ser verificada por qualquer:"Tamb
é
m se esperava um desarmamento geral, mas em toda a parte se reorganizamos ex
é
rcitos e as marinhas, com mais impetuosidade que nunca. O militarismo torna-se maisforte e vai imperando em pa
í
ses onde anteriormente era desconhecido."Essa mania militar que se apossou de quase todos os pa
í
ses do globo, inclusive onosso, levou todos eles a examinar e a imitar a poderosa m
á
quina guerreira alem
ã
.Os seus c
ó
digos e regulamentos militares v
ã
o sendo mais ou menos estudados eimitados, quando n
ã
o s
ã
o copiados. N
ã
o se fica s
ó
nisso. A tend
ê
ncia alem
ã
, ou melhor,prussiana, de militarizar tudo, os mais elementares atos da nossa vida civil, por meio dec
ó
digos, regulamentos, penas e multas, vai-se tamb
é
m apossando dos c
é
rebros dosgovernantes que, com af 
ã
, adotam t
ã
o nociva pr
á
tica de asfixiar o indiv
í
duo num "batras"legislativo.O ideal dos militares atuais n
ã
o
é
ser um grande general, ao jeito dos passados, que,aos seus predicados guerreiros, sabiam unir vistas pr
á
ticas de soci
ó
logo e de pol
í
tico.O ideal deles
é
o cabe
ç
udo Ludendorff, cujas mem
ó
rias denunciam uma curiosadeforma
çã
o mental, obtida pelo ensino de uma multid
ã
o de escolas militares que omilitarismo prussiano inventou, as quais t
ê
m de ser freq
ü
entadas pelos oficiais queambicionam altos postos. Tais escolas tiram-lhes toda e qualquer faculdade cr
í
tica, todo opoder de observa
çã
o pessoal, fazendo-os perder de vista as rela
çõ
es que tem a guerra comoutras manifesta
çõ
es de atividade social, para s
ó
ver a guerra, s
ó
a guerra com os seuspetrechos, suas divis
õ
es, seus corpos, etc., citados pelo "Cabe
ç
udo", cabalisticamente, pelasiniciais de suas denomina
çõ
es. Esqueceu-se ele que seu livro era destinado, por sua natureza,a ser lido pelo mundo inteiro, e o mundo inteiro n
ã
o podia viver enfronhado nas coisaspasmosas da burocracia militar alem
ã
, para decifrar tais hier
ó
glifos.Ludendorff n
ã
o
é
um general;
é
uma consolida
çã
o viva das leis e regulamentosmilitares da Alemanha.N
ã
o foi
à
toa que o c
é
lebre jornalista alem
ã
o Maximiliano Harden, falando do livrodo general franc
ê
s Buat sobre esse famigerado Ludendorff, a mais alta express
ã
o dalament
á
vel limita
çã
o do esp
í
rito militar em todos os tempos, disse: "...
é
uma obra -prima, declara psicologia latina, dominada em toda sua extens
ã
o por um esp
í
rito cavalheiresco e umaforte consci
ê
ncia de justi
ç
a, que fornecer
á
ao leitor alem
ã
o uma rela
çã
o maior de verdadesque as execr
á
veis e copiosas banalidades editadas por quase todos os generais alem
ã
es".Houve quem chamasse o Sr. general Ludendorff, autor tamb
é
m de "execr
á
veis ecopiosas banalidades", de C
é
sar. Sim, ele pode ser C
é
sar; mas um C
é
sar que n
ã
o escrever
á
nunca a Guerra das G
á
lias e n
ã
o transformar
á
nenhuma sociedade.O mundo todo, por
é
m, est
á
fascinado pelos m
é
todos alem
ã
es.Pode-se dizer que a Alemanha, depois de vencida,
é
vencedora pela for
ç
a hipn
ó
ticade sua mania organizadora, at
é
as menores min
ú
cias.

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