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Resenha: "Ortodoxia", C. K. Chesterton

Resenha: "Ortodoxia", C. K. Chesterton

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Published by Eliel Vieira
Resenha do livro "Ortodoxia", de C. K. Chesterton.
Resenha do livro "Ortodoxia", de C. K. Chesterton.

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05/08/2013

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Página | 1
- www.
ElielVieira
.org -
RESENHA: “ORTODOXIA”, C. K. CHESTERTON
Por Eliel Vieira
Resumindo tudo o que eu teria a dizer sobre este livro em poucas palavras,
Ortodoxia
é umlivro único. Mas não tome “único” aqui apenas como aquele recurso lingüístico comumente usado porescritores cujo sinônimo mais próximo seria “ótimo”. Não! Ortodoxia é de fato ótimo, porém aindaassim é “único” – apenas
Ortodoxia
é do jeito que ele é.Desde os primeiros séculos os cristãos sentem-se impelidos a responder a aqueles que levantamobjeções à sua fé. Os pais apostólicos também eram chamados de pais apologistas. Após sofrer ataquesracionais por todos os lados possíveis a partir do Iluminismo, os cristãos em resposta começaram adeixar a defesa de sua fé cada vez mais sofisticada e abrangente.Atualmente existem vários livros de defesa da fé disponíveis. No Brasil, onde apenas umamicro parcela dos livros de apologética traduzidos, existem dezenas de livros nesta área disponíveis. Oproblema é que após lermos três ou quatro destes livros percebemos que são todos, em suma, muitoiguais entre si. Quando muito temos apenas elaborações mais requintadas dos mesmos argumentosescritos por Tomás de Aquino no século XIII.
Ortodoxia
, apesar de não ter sido concebidooriginalmente como um livro de apologética (Chesterton chega a dizer que a “apologética” dava-lhepreguiça), em minha opinião
Ortodoxia
é a maior defesa da fé cristã já escrita.Ao pensar na relação de Chesterton com a defesa da fé, me lembrei de um ditado indiano muitointeressante contado certa vez por Ravi Zacharias
1
. Ele diz que existem duas maneiras de se colocar amão no nariz: a primeira é a simples e usual, flexionando seu braço e levando sua mão até ele; a outraé a complicada, dando uma volta por traz da cabeça com uma das mãos e tocando o nariz pelo outrolado. A moral deste ditado é que as pessoas as vezes preferem o caminho mais complicado ao simples.De acordo com Chesterton,
Ortodoxia
é sua autobiografia, conta a história de sua peregrinação emrelação à ortodoxia cristã – não pelo caminho mais curto e usual, mas pelo caminho mais longo.
1
STROBEL, Lee.
Em Defesa da Fé
. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 202.
 
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Nas palavras do autor, logo na introdução da obra: “
 Não consigo imaginar como este livro podeconseguir não ser egoísta; e, para dizer a verdade, não consigo absolutamente imaginar como ele pode conseguir não ser chato. A chatice, todavia, me livra da acusação que mais lamento; a acusaçãode ser superficial.
(...)
Pois se este livro é uma brincadeira, ele é uma brincadeira contra mim mesmo. Eu sou o homem que com a máxima ousadia descobriu o que já fora descoberto antes.
(...)
 Ele relataas minhas obtusas aventuras em busca do óbvio. Ninguém pode considerar o meu caso mais ridículodo que eu mesmo o considero; nenhum leitor pode aqui acusar-me de tentar fazê-lo de bobo; o bobodesta história sou eu, e nenhum rebelde pode roubar-me o trono.
(...)
Tentei fundar uma heresia sóminha; e, quando lhe de o último acabamento descobri que era a ortodoxia
2
.A capacidade de Chesterton de escrever coisas sérias na forma de piadas sem deixar a seriedadeda questão de lado é impressionante. Fazendo uso (principalmente) do paradoxo, Chesterton nos deixaboquiabertos com suas idéias, e não raro arranca de nós um pequeno sorriso enquanto lemos oscapítulos de
Ortodoxia
. Ficamos ainda mais absurdados sobre
Ortodoxia
quando descobrimos comoesta obra foi composta. Diz-se que Chesterton ditava os textos a uma assistente de forma ininterrupta, eque ele raramente fazia revisões do que escreveu.Chesterton influenciou não poucos brilhantes do último século. Ghandi e Lutherking o liamavidamente; C. S. Lewis o considerava seu pai espiritual e também é citado por vários escritorescristãos mais contemporâneos. Philip Yancey, por exemplo, disse que se ele estivesse numa situaçãode ter que escolher apenas um livro para levar para uma ilha deserta na qual ele permaneceria peloresto da vida, à parte da Bíblia, provavelmente sua escolha seria
Ortodoxia
3
.Não vou detalhar muito menos resumir nenhuma argumentação, crítica ou conclusão destaobra. Cometerei um crime se fizer um mau resumo e se, a julgar pelo mau resumo, você decidir não leresta obra. Posso adiantar aqueles pontos que são cutucados pela vara curta de Chesterton nessa obra:ateísmo, materialismo, calvinismo, algumas posições políticas e, principalmente, a teologia liberal.Chesterton os critica, mas não como um ortodoxo que sempre esteve firme e restrito à sua posição eque considera as demais posições heresias, mas como alguém, como ele disse, que vasculhou todas asáreas, pensou, questionou, criticou e, por fim, encontrou a ortodoxia.Eu não recomendo este livro a qualquer cristão; apesar de evitar o uso de um vocabuláriorobusto, Chesterton lida neste livro com assuntos que não comuns à vida cristã cotidiana, além doautor fazer uso constante do paradoxo para apontar as incoerências das criticas a fé. Quem não foi ao
2
CHESTERTON, C. K.
Ortodoxia
. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 20-22.
3
Ibid. p. 7.
 
Página | 3
menos introduzido a estas questões mais “complicadas”, vai se sentir lendo algo em um idiomacompletamente desconhecido. Recomendo este livro a todos os que estão ligados de alguma forma àapologética. Certamente a carapuça das críticas de Chesterton vai se encaixar em sua cabeça, como seencaixou na minha algumas vezes. Também o recomendo aos meus amigos ateus, mas com pesar, poisseria interessante ver as reações faciais ante argumentações tão brilhantes que expõem o, antes oculto,óbvio.Para terminar esta resenha vou deixar logo abaixo um trecho de
Ortodoxia
. Sim, eu disse quenão ia deixar resumo algum, de argumentação alguma, mas não resisti. Para evitar cortar seupensamento e deixá-lo incompleto, digitei o trecho a seguir, um pouco longo:
A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Ospoetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. (...) Como se verá, não estouaqui, em nenhum sentido, atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, nãona imaginação.Em todas as partes vemos que os homens não enlouquecem sonhando. Os críticos sãomuito mais loucos que os poetas. Homero é completo e bastante calmo; os críticos é que orasgam em trapos extravagantes. Shakespeare é exatamente Shakespeare; apenas algunsde seus críticos é que descobriram que ele era alguma outra pessoa. E embora João, oevangelista, tenha visto monstros estranhos em sua visão, ele não viu nenhuma criaturatão louca como um de seus comentários. O fato geral é simples. A poesia mantém asanidade porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o marinfinito, e assim torná-lo finito. O resultado é a exaustão mental, como a exaustão físicado Sr. Holbein.Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tentação. O poeta apenas deseja aexaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pedepara pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E éa cabeça que se estilhaça. (...)A última coisa que se pode dizer de um lunático é que suas ações são sem causa (...),pois o louco (como o determinista) em geral vê causa demais em tudo. (...) Se vocêdiscutir com um louco, é extremamente provável que leve a pior; pois sob muitosaspectos a mente dele se move muito mais rápido por não se atrapalhar com coisas quecostumam acompanhar o bom juízo. Ele não é embaraçado pelo senso de humor ou pelacaridade, ou pelas tolas certezas da experiência. Ele é muito mais lógico por perder certosafetos da sanidade. De fato, a explicação comum para a insanidade nesse respeito é

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