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Bruner - Concepçoes de infância - Freud Piaget e Vigotski

Bruner - Concepçoes de infância - Freud Piaget e Vigotski

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CONCEPÇÕES DA INFÂNCIA:FREUD, PIAGET, VIGOTSKI
*
 
 Jerome Seimur Bruner
[As teorias como criação cultural]
Iniciemos com uma hipótese que para alguns de vocês podeparecer um tanto curiosa. As teorias sobre o desenvolvimentohumano, devido ao caráter da cultura, não são simples esfor-ços para compreender e codificar a natureza do desenvolvi-mento humano, senão que, por sua própria essência, também
criam
os mesmos processos que tentam explicar, conferindo-lhes realidade e fazendo-os conscientes à comunidade. Nestesentido, uma teoria do desenvolvimento humano constitui osconceitos e, em certo grau, os "fatos" que trata, assim comouma teoria da propriedade constitui conceitos tais como
pro-prietário
,
violação
 
de propriedade
e
herança
. Pela mera formu-lação de uma teoria da propriedade, damos uma realidade so-cial a seus conceitos constituintes, com a suficiente existência
1
 para criar também, de fato, uma realidade prática. Colocamosna cadeia aqueles, que por suas ações, mostram desconhecer
*
Traduzido, para fins didáticos, do espanhol “Concepciones de la Infancia: Freud, Piaget yVygotsky” (versão de M.ª Victoria Sebastián), por
 Achilles Delari Junior 
em agosto de 1999.Os títulos entre colchetes foram introduzidos também com finalidade didática (não estãopresentes no orginal), e as notas de rodapé são todas nossas. Esta tradução é provisória epassará por revisões futuras. Peço desculpas por erros de digitação que eu não tenha notado eaceito sugestões de correção. E-mail:delari@uol.com.brSítio:http://www.vigotski.net/casa 
1
Em espanhol “entidad”; “entidad: echo de existir, qualidad de ser” — em Silva, GuidoGómez de (1991) Breve Diccionario etimologico de la Lengua española. México: Colégio deMéxico: Fondo de Cultura Economica – p. 257.
 
estas realidades práticas, e categorizamos as pessoas que par-ticipam nelas como proprietários, herdeiros, etc. Na minha o-pinião, o significado e o uso de termos como juventude - comoa crise da adolescência, fases do desenvolvimento, etc. - umavez criados, requerem ser explicados. Não quer dizer que aque-les que se ocupam do desenvolvimento humano não contras-tem suas idéias e conceitos com provas empíricas por meio daobservação, intervenção e experimentação. Claramente o fa-zem. Freud, Piaget e Vigotski foram titãs nisso. Seria melhordizer que as "teorias de desenvolvimento", devido à natureza dacultura humana, também se convertem em prescritivas canô-nicas uma vez que são aceitas, independentemente de quãodescritivas e sujeitas a comprovação foram em sua origem.Explicarei o que quero dizer. Uma teoria do desenvolvimentohumano, pela natureza mesma de nossa espécie, não pode serexclusivamente uma teoria sobre a natureza. A plasticidade dogenoma humano é tal, que não existe uma forma única na qualo ser humano se desenvolva e que seja independente das opor-tunidades de realização proporcionadas pela cultura em quedito ser humano nasce e cresce. Como sabemos pelos traba-lhos realizados em primatologia e antropologia desde há duasdécadas, o ponto crítico na evolução do primata que produziua espécie
Homo
teve lugar no momento em que a cultura ad-quiriu um papel fundamental na transmissão de instruçõessobre a adaptação, em vez de estar inscritas exclusivamente nocódigo genético. Não quer dizer que o homem não dependa deseu genoma, o que implicaria claramente uma concepção me-galomaníaca da cultura. Melhor dizendo, o que supõe é queexiste uma grande variedade de ajustes realizados graças àplasticidade do genoma humano, e que as culturas prescre-vem/proporcionam vias de desenvolvimento entre estas possi-bilidades. O problema não é "Natureza versus Cultura", mas setrata, como Peter Medawar assinalou em certa ocasião, de quecada uma contribua com sua parte para a variância. Dizer queuma teoria de desenvolvimento humano é "independente dacultura" é fazer uma afirmação absurda. A linguagem mesmacom a que se faz esta afirmação mostra este âmbar cultural.
 
 
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É inevitável, pois, que qualquer teoria concreta sobre o de-senvolvimento seja, necessariamente, tanto uma teoria naturalcomo uma "ciência do artificial", como Herbert Simon o deno-minou.Ao propor uma "trajetória" concreta de crescimento como"normal", especifica algo canônico e prescritivo sobre dito cres-cimento. Estas especificações ficam quase sempre implícitas.Mas se alguém lê os teóricos do desenvolvimento com o mesmoespírito que um antropólogo lê, por exemplo, os mitos da cul-tura que está estudando, estas especificações podem fazer-seexplícitas ou, ao menos, notoriamente implícitas.
[Exemplos da constituição cultural das teorias]
Vou ocupar-me inicialmente deste aspecto constituinte da teo-ria de desenvolvimento de nossos três titãs - Freud, Piaget eVigotski. Mas necessito um ponto de partida para ilustrar esteempreendimento.Uma boa maneira de começar, como forma de buscar esseponto de partida, é examinar o papel histórico das teorias damente e do pensamento humano em nossa cultura. Três histo-riadores famosos nos proporcionam bons exemplos sobre isto;Crane Brinton no que diz respeito a John Locke, Eticure Gib-son no que diz respeito ao conflito entre Razão e Revelação, e J. B. Bury em seu estudo clássico sobre a idéia de Progresso.Brinton assinala que o poder revolucionário de John Locke nãoradicava simplesmente na extensão dos princípios do determi-nismo de Newton à descrição da mente, começando com as
sensações
primárias e secundárias como básicas, mas no fatode propor que qualquer um poderia aprender diretamente daexperiência e sem a intervenção de uma autoridade superior.Argumentando que não há nada na mente exceto o que che-ga através dos sentidos, instaurou ao mesmo tempo a base deuma democracia da experiência e do pensamento. Foram pos-tas à prova, ou inclusive completamente descartadas, teoriascontrárias a esta como a do direito divino e a de privilégios es-peciais. Não é surpreendente que exista uma contínua preocu-pação que vai de Hobbes a Locke, e deste a Hume, durante operíodo em que a democracia mercantilista estava em ascen-ção na Inglaterra, ainda que seja sempre difícil precisar se éuma questão de causa-efeito. Ademais, a história tem umaforma de legitimar sucessos prévios para dar-lhes um statuscausal retrospectivamente. Em todo caso, John Locke não sópropôs uma
teoria
do conhecimento como também um ideal euma prática do saber que logo puderam ser cultivados pelasela sociedade.O mesmo acontece com o conflito entre Razão e Revelação. Aconcepção Patrística de um Tertuliano, por exemplo, na qual oconhecimento da verdade deriva de uma relação privilegiadacom a divindade, acessível só àqueles que tenham sido orde-nados sacerdotes, foi posta em perigo com princípios como ode razão suficiente ou o de dúvida cartesiana. As novas dou-trinas criaram novas realidades, inclusive novos “satatus” enovas instituições. Não é provável, por exemplo, que a idéia daUniversidade houvesse surgido sem eles, e menos ainda seusladrilhos, cimentos ou as instituições que as formam.Relacionado com tudo isto estaria o conceito de Progresso.Bury resume a doutrina antiga grega, segundo a qual o futurodo homem seria um contínuo declinar da Idade de Ouro dosDeuses à decadência da Idade de Latão. Foi Francis Bacon, emseu
Novum Organon
, quem propôs a nova idéia de progresso,de que o homem pode indagar sobre a verdade e atuar sobreela mediante sua própria observação. O futuro está, pois, aber-to e o progresso não só está assegurado mas também é inevi-tável. Assim, Jonathan Edwards, havendo lido nas Atlas daRoyal Society sobre a teoria de Newton de que a luz branca erauma mescla espectral, pregava aos seus fiéis de Northampton,Massachusets, no século XVII, que o Homem havia resolvidoos mistérios de Deus e podia aspirar outros descobrimentos.Ademais a idéia era tão poderosa que um distinto pós-graduado do M.I.T.
2
me confessou no jardim de um “pub”
3
do
2
Sigla para Massachusets Institute of Technology – Instituto Tecnológico de Massachusets.
 
3
Pub – palavra britânica, que se refere uma determinada construção aonde pessoas vão parabeber e encontrar seus amigos.
 
 
 
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século XVII, que aquele dia era o décimo aniversário de suaperda de fé na inevitabilidade do progresso. A idéia de Baconhavia sido poderosa! A vida deste estudante havia mudado a-penas há dez anos pelo declive da idéia de progresso de Bacon.Igual declive havia sofrido sua grande instituição de investiga-ção, e o mesmo ocorreria com aqueles que viessem atrás. Masas conseqüências não permaneceriam por séculos.Atualmente todos estes temas - a aprendizagem pela experi-ência, o poder da inevitabilidade da razão, o progresso - sãosusceptíveis, em alguma medida, mesmo que seja indiretamen-te, de investigação empírica. Seu impacto, entretanto, não sedeve à possibilidade de experimentação nem ao êxito do expe-rimento, mas à sua incorporação à cultura como
possibilida-des
. Abriram possibilidades de tal envergadura que o mundoocidental mudou de forma crítica, não tanto para
validá-las
,quanto para produzi-las. Aqueles familiarizados com a lógicamodal reconhecerão o sentido comum deste enfoque de seusteoremas, contido nos movimentos históricos. Os teoremas bá-sicos na lógica modal proporcionam meios para traduzir pro-posições de possíveis em necessárias e vice-versa. De umaforma voluntarista, o senso comum nos força a esta mesmatradução. Se é possível que o homem
possa
aprender da expe-riência, então nossa conduta poderá estar organizada de talforma que seja
necessário
que se aprenda da experiência. Umbom exemplo deste tipo de conversão ativa é a Carta-Régia daescola de Germantowns Friends na Philadelphia, praticamentederivada por Ben Franklin dos escritos de John Locke. Eu arecomendo, realmente!
[Principais contribuições das teorias de Freud, Piaget e Vigotski]
Agora voltemos a nossos três grandes titãs - Freud, Piaget eVigotski. Como uma primeira aproximação, gostaria de fincaras principais contribuições do trabalho de cada um. Freud es-tava fundamentalmente preocupado com o passado e com osmeios pelos quais podemos liberar o homem dos abusos deseu passado histórico e daqueles produzidos no passado maisíntimo da vida familiar. Foi um reformador, e inclusive suasdramáticas metáforas se inspiraram diretamente nas obras daReforma. Sua missão foi explicar a anatomia do irracional deforma que pudesse ser vencida, arrancar as raízes das neuro-ses escravizadoras, encontrar as formas de evitar ou desman-telar as defesas, interpretar as terríveis mensagens dos sonhospara burlar o inconsciente. "Onde estava o Isto
4
, devemos ins-taurar o Eu
5
. Era um personagem do século XIX, um judeucéptico no mundo senhorial e dogmático de Viena. Como assi-nalou Louis Berger em seu novo livro sobre a obra inacabadade Freud: “Era essencialmente masculino, dedicado à objetivi-dade e razão científicas, e social e politicamente convencional”.A influência de Freud, sem lugar a dúvidas, ultrapassou suasformulações explícitas. Entre seus seguidores, Freud não foium Reformador, mas um Libertador, pois a imagem de desen-volvimento que legou ao mundo foi de Libertação: afasta ostiranos de cima de ti e a pequena voz da razão ainda prevale-cerá. Entretanto, a libertação, tal e como Freud a concebia,consistia em um assunto totalmente privado: uma análise de-talhada do passado com o outro, o analista, em uma relaçãode transferência que permitia que o passado se projetasse so-bre o presente, e assim exorcizá-lo. O médico, o outro, é o re-formador, o agente de mudança no jargão contemporâneo.Proporciona, através da transferência, o encrave por meio doqual o passado se analisa para que chegue a estabelecer umequilíbrio entre o princípio do prazer e o de realidade. (Inclusi-ve nos escritos de Freud sobre "metapsicologia", o termo estra-nho que usa para descrever sua teoria do conhecimento, insis-te-se mais em como o passado interfere no sistema cognitivomediante alucinações e realização de desejos, do que em comoo presente trata de impor-se a si mesmo).Piaget não estava preocupado nem com o passado nem como futuro, mas fundamentalmente com o presente. Estruturalis-ta, como seu grande conterrâneo, o lingüista Saussure, pôs aênfase em processos sincrônicos mais do que nos diacrônicos.
4
No vocabulário freudiano, “Id”.
5
No vocabulário freudiano, “Ego”.

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