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A coluna jornalística, por José Marques de Melo

A coluna jornalística, por José Marques de Melo

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Professor mestre Artur Araujo (artur.araujo@puc-campinas.edu.br)site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/ftp: ftp://ftp-acd.puc-campinas.edu.br/pub/professores/clc/artur.araujo/
 
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINASCENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO
A coluna
MELO, J.M. Jornalismo Opinativo. Campos de Jordão: EditoraMantiqueira, 2002, p. 129-139.A caracterização do colunismo na imprensa brasileira dá margem a ambigüidades. Há umatendência geral para chamar de coluna toda seção fixa. Assim sendo, a coluna abrange, segundoessa noção, o comentário, a crônica e até mesmo a resenha.Historicamente, a coluna originou-se dentro da antiga diagramação vertical, em que as matériaseram dispostas de cima para baixo, passando, se necessário, à coluna vizinha. Hoje, com adiagramação horizontal, a coluna já não mais ocupa o espaço disposto verticalmente e se alargapelo espaço fronteiriço. Por isso, é comum o uso da palavra seção para denominar a coluna.O termo coluna é todavia o mais usado, mesmo que ocupe uma página (coluna do Cesar Giobbiou da Mônica Bergamo) ou mais de uma coluna gráfica (coluna de cinema, de televisão).Rabaça e Barbosa registram essa natureza ambígua da coluna enquanto gênero jornalístico,afigurando-se como espaço de entrecruzamento de várias formas de expressão noticiosa. Acoluna é a "seção especializada de jornal ou revista, publicada com regularidade, geralmenteassinada, e redigida em estilo mais livre e pessoal do que o noticiário comum. Compõe-se denotas, sueltos, crônicas, artigos ou textos-legendas, podendo adotar, lado a lado, várias dessasformas. As colunas mantêm um título ou cabeçalho constante, e são diagramadas geralmentenuma posição fixa e sempre na mesma página o que facilita a sua localização imediata pelosleitores".Trata-se, portanto, de um mosaico, estruturado por unidades curtíssimas de informação e deopinião, caracterizando-se pela agilidade e pela abrangência. Na verdade, a coluna cumpre hojeuma função que foi peculiar ao jornalismo impresso antes do aparecimento do rádio e datelevisão: o furo. Procura trazer fatos, idéias e julgamentos em primeira mão, antecipando-se àsua apropriação pelas outras seções dos jornais, quando não funciona como fonte deinformação.A coluna tem como espaço privilegiado os bastidores da notícia, descobrindo fatos que estão poracontecer, pinçando opiniões que ainda não se expressaram, ou exercendo um trabalho sutil deorientação da opinião pública.Explica Fraser Bond que a coluna surgiu na imprensa norte-americana, em meados do séculoXIX, quando os jornais deixaram de ser doutrinários e adquiriam feição informativa. O públicocomeçou a desejar matérias que escapassem do anonimato redatorial e tivessem personalidade.Isso deu lugar ao aparecimento de seções sob a responsabilidade de jornalistas conhecidos,superando a frieza e a impessoalidade do corpo do jornal, e originando espaços dotados de valorinformativo e de vigor pessoal.A coluna corresponde à emergência de um tipo de jornalismo pessoal, intimamente vinculado àpersonalidade do seu redator. Talvez possa ser identificado como uma sobrevivência, no jornalismo industrial, daquele padrão de jornalismo amador e eclético que caracterizou asprimeiras publicações periódicas.Originalmente a coluna é uma matéria cuja extensão não ultrapassa mil palavras, coincidindocom a medida da coluna do jornal standard. Depois começou a variar, reduzindo-se para 800 ouaté para 500 palavras.Tendo como berço o jornalismo norte-americano, a coluna aparece ali segundo quatro tipos:a)
 
Coluna padrão - dedicada aos assuntos editoriais de menor importância, reservando acada um pouco mais de um parágrafo, o que implica um tratamento superficial, apenassugerindo tendências ou propondo padrões de julgamento;b)
 
Coluna miscelânea - combinação de prosa e verso, foge ao padrão tipográficoconvencional, misturando tipos; não se prende a nenhum assunto, incluindo uma grandevariedade de temas e atribuindo uma certa dose de humor e sarcasmo aos assuntostratados;
 
 
Professor mestre Artur Araujo (artur.araujo@puc-campinas.edu.br)site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/ftp: ftp://ftp-acd.puc-campinas.edu.br/pub/professores/clc/artur.araujo/
 
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Coluna de mexericos - centralizada em pessoas, principalmente as figuras da altasociedade, as personalidades famosas, ou mesmo, no caso dos pequenos jornais, àspessoas de destaque na comunidade. Divulga confidências, indiscrições, faz elogios,impõe sanções comportamentais. Inicialmente voltado para o high society, esse tipo decoluna subdivide-se depois por ramos de atividades: cinema, teatro, música, esporte,economia;d)
 
Coluna sobre os bastidores da política - variante da coluna de mexericos, mas semadotar a sua "tagarelice", situa o leitor no mundo do poder, mostrando-o na suaintimidade.Além desses tipos, Fraser Bond faz referência a outros: coluna editorial assinada (que no Brasilchamamos de comunitário); coluna de versos (aqui não praticada) e coluna dos leitores (que, nonosso entender, é um gênero jornalístico autônomo, marcado pela feição epistolar).Do ponto de vista estrutural, a coluna é um complexo de mini-informações. Fatos relatados commuita brevidade. Comentários rápidos sobre situações emergentes. Ponto de vista apreendido depersonalidades do mundo noticioso. Trata-se de uma colcha de retalhos, com unidadesinformativas e opinativas que se articulam. São pílulas, flashes, dicas.Aparentemente a coluna tem caráter informativo, registrando apenas o que está ocorrendo nasociedade. Mas, na prática, é uma seção que emite juízos de valor, com sutileza ou de modoostensivo. O próprio ato de selecionar os fatos e os personagens a merecerem registro já revelao seu caráter opinativo.A coluna tem fisionomia levemente persuasiva. Não se limita a emitir uma simples opinião. Vaimais longe: conduz os que formam a opinião pública veiculando versões dos fatos que lhe darãocontorno definitivo.Por isso existe uma íntima ligação, para não dizer dependência, da coluna com os serviços derelações públicas. Como os profissionais de relações públicas visam projetar a imagem dos seusclientes (empresas/políticos/artistas/marcas/ produtos etc.), é compreensível que procurem sevaler das colunas para criar evidência. Quanto mais vezes um nome é registrado nas colunas,repetido, mais legitimação social ele adquire.Essa utilização da coluna pelas relações públicas, resultado de um pacto não explícito entre ocolunista e suas fontes de informação, fundamenta-se naquele princípio enunciado porLazarsfeld e Merton - o de que os meios de comunicação, particularmente a imprensa, conferemstatus. Aparecer em letra de forma significa ganhar projeção pública e obter simpatia.O colunismo funciona psicologicamente como câmara de eco dos rumores que circulam nasociedade. Não sem razão o slogan de um dos maiores colunistas brasileiros foi o seguinte: "emsociedade tudo se sabe".Gilberto Freyre identifica no colunismo o cultivo de traços brasileiros - a vaidade e a frivolidade.
Sou dos que vêem crônica social um registro de fatos ou de ocorrências que constituem expressãode convívio humano numa de suas formas mais sutilmente significativas dentro de um contexto davida brasileira que, já sendo pós-burguês numas coisas, noutras continua burguês. Pode esseregistro ser, por vezes, uma carícia à vaidade de convivas de todo frívolos. Mas quem nega serpróprio do ser humano, burguês ou pós-burguês, o pecado da vaidade? Nunca vi tantas medalhasa enfeitarem peitos de homens como nos generais russo-soviéticos que tenho conhecido. Quemnão sofre da vaidade, ainda burguesa, de ter noticiado, no Brasil de hoje, em jornal, o batizado deum filho ou o noivado de uma filha ou um jantar oferecido a um amigo? São fatos que constituemum burguesíssimo ramerrame
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, é certo. Mas esse ramerrame parte da história, da vida, doconvívio de uma comunidade do feitio da brasileira dos nossos dias, tanto dos dias de nossos paise de nossos avós.
Como explicar essa sobrevivência do colunismo na imprensa brasileira? Alimentar a vaidade daspessoas noticiadas - colunáveis - não é argumento suficiente. Existem outras razões que, nanossa maneira de ver, fazem parte dos mecanismos de reprodução social e de controle políticona sociedade burguesa. Vamos enumerá-las:
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Ramerame: modo de vida caracterizado pela invariabilidade de ocorrências, que serepetem tediosamente dia a dia; rotina.
 
 
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O colunismo atende a uma necessidade de satisfação substitutiva existente no públicoleitor. Já que a maioria das pessoas está excluída do círculo reduzido dos colunáveis(poder/estrelato), dá-se-lhe a sensação de participar desse mundo, através doscolunistas. Trata-se de uma forma de participação artificial, abstrata. Participam semfazer parte. Acompanham à distância.2)
 
O colunismo tem a função de "balão de ensaio". Insinua fatos, lança idéias, sugeresituações, com a finalidade de avaliar as repercussões. Isso se chama, em linguagem jornalística, "plantar notícia". Da reação do público, estimulada por essas informaçõessutis, depende muitas vezes a tomada de decisões empresariais, políticas. Passado oimpacto, refeito o susto, o público as aceita com tranqüilidade. Ou se as rejeita,fortemente, é o caso de adiá-las, transferi-las para ocasião mais oportuna.3)
 
Alimentando a vaidade das pessoas importantes (do mundo da arte, do espetáculo e dapolítica), o colunismo oferece ao mesmo tempo "modelos" de comportamento. Estimulao modismo, incrementa o consumo, alimenta a esperança dos que pretendem ingressarno "paraíso burguês".O colunismo nutre-se de um fenômeno social que Edgar Morin chama de "olimpismo moderno".É o traço da cultura de massa que dá sentido a esse gênero jornalístico onde a futilidade, afrivolidade e o mau gosto se entrelaçam.O olimpismo moderno significa aquele universo de novos deuses criado pela indústria cultural.Cantores, atores, escritores, desportistas, governantes, etc. são convertidos em estrelas. Seusmodos de agir são sugeridos à imitação de toda a sociedade. Como disse Paulo Francis:"Sociedade virou show business. Isso afeta tudo, de roupas a maneiras e hábitos alimentares".Privilegiando os olimpianos, os colunistas oferecem artifícios para alimentar o mecanismopsicossocial da "projeção", compensando assim as frustrações cotidianas da maioria dapopulação. Como nem todos têm oportunidades e condições para atingir o cume da pirâmidesocial, os cidadãos barrados economicamente no portão do "paraíso burguês" contentam-se emidolatrar seus mitos, projetando-se nas suas realizações.Pesquisando a estrutura simbólica das colunas sociais dos jornais do Rio de Janeiro, AnamariaKovacs constatou duas funções principais: a) colocar em evidência os personagens-paradigmas,ou seja, os olimpianos de Edgar Morin; b) promover, através destes personagens, todo um setorda indústria de consumo e de lazer. Confirmou também aquela função psicoterapêutica: relaxaras tensões e frustrações da vida real.Qual a identidade da coluna? Em relação à coluna social, Kovacs define da seguinte maneira:trata-se de uma "montagem de notícias que interessam aos leitores que são notícia (membrosda classe A), àqueles que gostariam de ser notícia (a massa) e àqueles que se interessam poroutros assuntos divulgados pela coluna - culturais, econômicos, políticos - e que servem depretexto para que leiam, também, a parte dos mexericos".Na "montagem" da coluna, Kovacs encontrou vários elementos expressivos: a nota mundana, anota crítica, a nota cultural, a nota política e econômica, o apelo (ao público e às autoridades) eos rumores.Para realizar um trabalho tão vasto que implica em captar a dinâmica da vida social e cultural daclasse dominante, o colunista necessita contar com um amplo relacionamento e facilidades paraperceber e registrar os fatos que estão acontecendo. O segredo desse desempenho profissionalestá no manejo das fontes que informam com rapidez o que ocorreu ou está para se concretizar.Se originalmente o colunista trabalhava sozinho, hoje ele conta com equipes de repórteres que oajudam a cobrir os últimos acontecimentos e saber o que divulgar.No jornalismo norte-americano, os grandes colunistas deixaram de ser profissionais assalariadospor uma determinada empresa e criaram seus próprios escritórios de informação (espécies deagências noticiosas de futilidades), que vendem as colunas para jornais e revistas de diferentescidades e regiões onde são produzidas simultaneamente.O colunismo floresce no Brasil na década de 50. É verdade que, antes disso, os jornais sempretiveram suas seções dedicadas à vida social - ao ambiente da alta sociedade - mas sem odinamismo e a importância que assumiria depois. A figura dinamizadora do colunismo socialbrasileiro foi sem dúvida Ibrahim Sued, que atualizou a cobertura da vida mundana dando-lheuma certa sofisticação.

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