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Nº 187 AGO0940
A Crise de 1383-1385 e a Batalha de Atoleiros
O Séc XIV Europeu
O Séc. XIV traduz-se na Europa por uma cri-se profunda. As causas exactas desta apelida-da “crise” são ainda hoje difíceis de apontar comprecisão
1
.Como resultado da crise frumentária
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, ocorre-ram períodos de fome generalizada: na Europa doNorte entre 1315 e 1317
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; na Europa do Sul en-tre 1346 e 1347
4
. A sucessivos anos de colheitas����mineira, com a consequente compensação imposta��-dade
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. Por outro lado, a peste negra, entre 1346 e1350, reduziu a população europeia em cerca deum terço. Em Portugal o surto foi mais intenso em1348
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. Esta epidemia não só foi um drama sanitáriocomo assumiu dois efeitos importantíssimos. Um,no campo do místico-religioso e, portanto, moral,entendido como castigo divino e um outro, muitomais terreno, mas de repercussões prolongadasno tempo: desbaratou a mão-de-obra agrícola de����golpe na produção das décadas seguintes.���enfrentadas pelas então comunas autónomas daFlandres, em que a produção de tecidos sofreu���-mengos para Itália
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. O Séc. XIV europeu viu ocorrer frequentes revoltas localizadas, sobretudo prota-gonizadas pelo povo. As revoltas dos trabalhado-res ingleses liderados por Watt Tyler, em Françaos “Jacques”, na Flandres os “Unhas Azuis”, em
1 Monteiro, 2003: 30.2 Crise da produção de cereais.3 Entre 1315 e 1317 registou-se pluviosidade excessiva por toda a Europa.4 Na Península Ibérica registaram-se secas e más colheitas,que resultaram em fomes em 1302, 1333 e 1344-46 (Duarte,2006:15).5 Monteiro, 2003: 30-31.6 Rodrigues, 1985: 15.7 Desde 1270 que a Flandres era nominalmente pertençada coroa francesa. No entanto, as associações urbanasde tecelões nunca reconheceram verdadeiramente aquelasoberania, fazendo a situação degenerar numa série de��1304. A partir desta altura, a prosperidade flamenga foideclinando, agravada durante todo o Séc. XIV por ocorrênciascomo a peste negra e a Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453).
Florença os “Ciompi”não ocorreram emsimultâneo, nãose trataram demovimentos so-ciais combinados,nem os propósitoseram exactamenteiguais
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. Nem se-quer se pode falar de uma consciênciapopular ou nacional.Dado que não háligação entre as di-ferentes revoltas, somos orientados a concluir queestas eclodiram porque o ambiente e a situaçãosocial e económica assim o determinaram. E estedado, por sua vez, prova que o Séc. XIV foi profun-damente diferente para pior, a uma grande escala,do que os séculos que o antecederam e dos que osucederam.Em 1337 os poderosos reinos de Inglaterra eFrança envolvem-se na Guerra dos Cem Anos(1337-1453), a “primeira guerra mundial fora doMediterrâneo”
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. Logo no início, o rei Eduardo III deInglaterra, procurou aliar-se com a Flandres e como Sacro Império Romano-germânico, mas “não����estratégia e procurou antes alianças na PenínsulaIbérica”
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. As décadas seguintes foram marcadaspelo crescente envolvimento dos reinos peninsula-
O Contexto Ibérico
O Séc XIV peninsular é, em certa medida, um��monarquias portuguesa e castelhana tiveram emcomum, por diversas ocasiões, lutas internas entrea nobreza e elementos da própria família real, nor-malmente por questões sucessórias. Isto originou,��������se iam cruzando. Em Portugal, o conhecido desfe-cho da relação amorosa entre o infante D. Pedro eD. Inês de Castro (em 7 de Janeiro de 1355) acen-tuou uma clivagem já existente entre elementos da
8 Duarte, 2006: 17.9 Martins, 2006: 33.10 Martins, 2006:10.
Cap Inf Carlos Afonso
 
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alta nobreza. Por outro lado, a corte portuguesa pu-lulava de linhagens castelhanas exiladas, ao mes-mo tempo que inúmeros nobres portugueses foramacolhidos em Castela.Do lado castelhano, a subida�de Afonso XI, D. Pedro I, o “Cruel”,provocou uma luta com um conjun-to de herdeiros ilegítimos, fomen-tando a guerra civil
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. Henrique deTrastâmara, meio-irmão de D. PedroI, foi o pretendente que congregouem redor de si a mais poderosa fac-ção, constituída pela parte da nobre-za ansiosa de mais representativida-de e pelos comerciantes das cidadesda Galiza e Astúrias. Os reinos de Aragão, Navarra, Portugal e até o rei-no mouro de Granada viram-se envol-vidos na contenda. Aragão e Navarra,movidos por interesses próprios, alinha-ram com Henrique e com os franceses. D. Pedro Ide Castela e D. Fernando de Portugal procuraramo apoio de Inglaterra
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. Granada, embora opositor natural de todos os reinos cristãos da Península,nas vésperas da Primeira Guerra Fernandina, em1369
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.Do ponto de vista social, a segunda metade doséculo XIV é caracterizada pela drástica reduçãodos rendimentos senhoriais, situação que não é es-tranha à Península Ibérica. Isto veio a acentuar as������-tados do acesso ao património familiar por regras���
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.Foi este o quadro que o rei D. Fernando (1367-1383) encontrou quando ascendeu ao trono. EmCastela, a guerra civil prolongava-se. Em 1369, D.Pedro I de Castela foi morto em Montiel, fechandoum ciclo que durava desde 1350. Apesar da tentati-va inicial de manter a neutralidade, D. Fernando de�Muitas cidades castelhanas, não se querendo sub-meter a Henrique de Trastâmara, invocaram o pa-rentesco do rei português com o falecido D. PedroI, pressionando-o. Foram esta exigência política e ofacto de ainda não ser ter casado, os dois factoresque mais terão condicionado o início do reinado deD. Fernando
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. Embora sob o motivo aparente daquestão do direito ao trono de Castela, era já clara,
���europeu era de certo modo análoga à de Portugal, negociar alianças com os opositores do reino vizinho (naquele caso,alianças com a França que se opunha a Inglaterra) permitiaaguardar um balanço de forças favorável (Gomes, 2009: 32).13 Gomes, 2009: 91.14 Monteiro, 2003: 14.15 Martins, 2006: 51.
�nova nobreza. Após a subida ao trono de Castelade Henrique de Trastâmara, em 1369, o problema,como interpreta Borges de Macedo, “não era o dasucessão, mas o facto de ter sido colocado no tronoum rei com o apoio da França e o perigo que issorepresentava para todos os reinos independentesda Península”
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. D. Fernando viu-se então obrigadoa entrar em guerra com Castela, numa sucessão����-nhecidos como as três Guerras Fernandinas (1369-1371, 1372-1373, 1381-1382).Casou com D. Leonor Teles de Menezes (1350-1386), em 1372, no mosteiro de Leça do Bailio,sede da Ordem do Hospital. D. Leonor pertencia à��muito querida pelo povo tendo recebido o epítetode “
a Aleivosa
” porque foi considerada responsávelpor um conjunto de conspirações, entre elas o damorte da sua própria irmã (no episódio que se des-creve a seguir), pelo aprisionamento de D. João,Mestre de Avis e pelo seu relacionamento conheci-������galego, o conde João Fernandes Andeiro.Encontramo-nos agora já na década de 70 doagregar em sua volta um conjunto de desconten-��velho de Pedro e Inês. Casado com Maria Teles, airmã da rainha, foi vítima de uma intriga que o levoua assassinar a própria mulher, vindo a refugiar-sedepois em Castela
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, onde foi aprisionado. Destemodo, um dos principais pretendentes à sucessãode D. Fernando,
�colocado “fora de campo”.
Na sequência da Terceira Guerra Fernandina, oTratado de Salvaterra de Magos, celebrado em 2 de Abril de 1383, promoveu o casamento da princesa
16 Idem.17 Crê-se que a fomentadora da intriga terá sido a própriarainha, D. Leonor Teles.
 
 
Os reis D. Fernando de Portugal e D. Juan I de Castela
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�com o monarca de Castela, D. Juan I
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em 1383. D.Fernando morreu em Outubro desse mesmo ano,aos 38 anos de idade, sem deixar nenhum herdei-ro directo masculino. Pelo tratado de Salvaterra, D.Leonor Teles assumiria a regência do reino até que��-gisse a maioridade de 14 anos
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. D. Beatriz contava,ao tempo da boda, com 10 ou 11 anos de idade.
Dado que o infante D. João de Castro se encon-trava aprisionado em Castela, as famílias relega-das para segundo plano na corte durante o reinadode D. Fernando apressaram-se a organizar-se em����e de uma outra dama, D. Teresa Lourenço. Era D.João, Mestre da Ordem Militar de Avis, que viria aser o rei D. João I.��duas facções principais em oposição: o partido deD. Beatriz, que defendia que o trono de Portugalpertencia, por direito, ao monarca de Castela, seumarido, e o partido de D. João Mestre de Avis. A���-gente do reino, a rainha viúva, D. Leonor Teles, coma sua conhecida relação amorosa com o CondeJoão Fernandes Andeiro, ideólogo do partido queapoiava Juan I de Castela e D. Beatriz.Em torno de D. Beatriz encontrava-se boa par-��-deiros, senhores de vastas possessões. Em torno���-cundogénitos, boa parte deles com carreiras mi-litares nas Ordens de Avis, de Cristo, Santiago edo Hospital. Era uma elite militar. Prova-o a formacomo foi conduzida a campanha de 1383-1390 ecomo se avançou para Ceuta em 1415. O próprioD. João era precisamente o Mestre de uma dasOrdens. A crise de 1383-1385 teve também uma di-mensão popular muito importante explicável pe-las circunstâncias sociais e económicas anterior-mente descritas. Resta ainda referir que D. JuanI de Castela apoiava um papa, Clemente VII, de Avinhão. Os portugueses eram partidários do papade Roma, Urbano VI
20
. Este aspecto religioso as-sume alguma relevância quando pensamos nasmotivações e argumentos para a mobilização daspopulações rurais
21
.
18 Filho de Henrique de Trastâmara.19 Lei “sálica” – costume antigo, passado a escrito no tempode Clóvis, rei dos Francos, em 490, e depois sucessivamentereinterpretado. Destinava-se a regular o acesso a terras por parte dos herdeiros. No Séc. XIV o conceito encontrava-se�����mulheres ao trono (Duarte, 2006: 7).20 Tavares, 1985: 21. Em 1379, em Évora, D. Fernandodeclarara o apoio ao papa de Avinhão, mas esta opção nãofoi duradoura (Gomes, 2009: 121).21 É sabido que, entre os apoiantes do Mestre de Avis, seencontravam as massas urbanas comerciantes e elementos dabaixa nobreza. No entanto, o argumento religioso deve bem ter 
A caminho dos Atoleiros
 Atoleiros (6 de Abril de 1384), Trancoso (29de Maio de 1385) e Aljubarrota (14 de Agosto de1385), foram as três grandes batalhas entre 1383e 1385 dignas desse nome. Houve inúmeros con-frontos durante todo o tempo, mas os efectivospresentes raramente ultrapassaram as escassascentenas. Atoleiros foi essencial como catalisa-dor moral, positivo para os partidários do Mestrede Avis e negativo para Juan I. Demonstrou clara-mente que Castela não era invencível em campoaberto, representando o maior revés sofrido peloscastelhanos até então e um reforço extremamenteconsistente da causa de D. João de Avis.Em 8 de Fevereiro de 1384, estando já estacio-nado em Santarém, o rei de Castela colocou forçasem Lisboa, na zona do Lumiar, dando assim início�com a chegada de uma frota castelhana ao Tejo.O Mestre d’Avis, ocupado com a defesa deLisboa, foi informado de que Juan I tinha solicitadoreforços para o cerco, que se dirigiam de Castelapelo eixo mais directo – o Alto Alentejo. Em Marçode 1384 nomeou D. Nuno fronteiro da comarca deEntre Tejo e Guadiana. Esta decisão teve algumaoposição inicial de João das Regras, dado que estealegava que os irmãos de D. Nuno vinham na hostecastelhana. D. João manteve a sua intenção e au-torizou D. Nuno a escolher, em Lisboa, 200 cava-leiros, dos quais 40 da primeira nobreza
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. Deu-lhetambém autorização para juntar à sua hoste cercade 1.000 homens a pé. Nuno Álvares Pereira partiuentão para o Alentejo, em meados de Março, sen-do acompanhado por D. João até Coina, onde sedespediram.No mesmo dia, as gentes de Setúbal negaram-lhe a entrada e a força acabou por bivacar emPalmela. Naquela altura, D. Nuno, recém-nome-ado, acalentava dúvidas acerca das convicçõesdaqueles que o acompanhavam. Ao mesmo tempotinha verdadeira consciência do pouco grau de trei-no da força. Na noite de Palmela terá aproveitadoa detecção à distância das fogueiras de um acam-pamento de almocreves para levantar a suspeitade que se poderiam tratar de cerca de 300 lançascastelhanas
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. D. Nuno e os seus prepararam ocombate, mas a manhã veio a esclarecer o engano.
servido de instrumento na mobilização das populações rurais,dada a religiosidade medieval e o receio de excomunhão.22 Entre os escolhidos encontravam-se bastantes homensoriundos de Évora e Beja, cidades que tinham dado o seu apoioà causa de D. João [Martins,(?): 4]. Este pormenor é importanteporque revela dois aspectos. Por um lado, a intenção destescombatentes de estarem presentes junto das suas terras,contribuindo para a sua defesa. Por outro lado, a decisão deter na hoste verdadeiros conhecedores da área de operaçõesque, para além de relevantes ao nível táctico, teriam um papelimportante no recrutamento da hoste ao longo do percurso.23 Correu o rumor de que Pedro Sarmento tinha vindo deSantarém, por Coruche, para barrar o caminho à hoste que sedirigia para o Alentejo (Crónica do Condestável, 53).
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