INTRODUÇÃO AO TAO TE KING
O
Tao Te King
, segundo Bede Griffiths, “talvez seja o mais misterioso livro que já foiescrito... a mais profunda concepção que penetrou a mente humana”. No entanto, seu autor é maislendário que histórico, sua data precisa é desconhecida, e seu sentido é incerto. A leitura deste livrofaz ver tudo isso, mas antes de qualquer coisa nos coloca diante de um tesouro da literatura religiosae filosófica da humanidade.
O “Tao”
Como todo ideograma da língua chinesa, a palavra “Tao” pode receber inumeráveis traduçõesem nossas línguas modernas: a Divindade, o Absoluto, o Ser Supremo, o Infinito, o Eterno, oInsondável, o Uno, o Todo, a Fonte, a Causa, a Realidade Última, a Alma do Universo, o Caminho,o Sentido, a Inteligência Cósmica... e outras ainda. Como nome, ele é simplesmente uma espécie designo algébrico para designar o Mistério dos Mistérios, o Mistério supremo. Embora tenha osatributos da Divindade, não devemos logo identificá-lo com o Deus dos judeus e cristãos, pois elenão é concebível como um Deus Pessoa, mas como um Deus Cósmico, bem conhecido de místicoscomo Demócrito (filósofo grego), Francisco de Assis (místico cristão) e Spinoza (filósofo judeu), e por outros místicos, que por isso mesmo sempre levantaram suspeitas nos círculos científicos ereligiosos do tempo em que viveram.O Tao é o Uno, que é constituído pela síntese fontal dos opostos, reunindo em si ao mesmotempo o
Yang
e o
Yin
, a Luz e a Treva, O Masculino e o Feminino, o Positivo e o Negativo, e todosos demais opostos. Diríamos que ele é um complexo ou
compositio oppositorum
, “compleição oucomposição dos opostos”, a unidade pelo perfeito equilíbrio dinâmico dos contrários, resultando noque Nicolau de Cusa chama de
coincidentia oppositorum
, a “coincidência dos opostos”. Isso leva aum profundo senso de complementaridade de tudo o que existe – uma vez que o Tao está presenteno mais fundo de toda a realidade –, assim como de uma concepção da divindade que não éexclusivamente masculina
ou
feminina, mas que transcende ambos os princípios num perfeitoequilíbrio: em seu ser e em sua ação, Deus é masculino
e
feminino, ao mesmo tempo.O Tao, portanto, é em si mesmo o Mistério que escapa a qualquer investigação lógicadiscursiva, e só é atingível pela intuição mística. ele não tem nome, e é a contragosto que o autor ochama de
Tao
. Mas a ação dele é sentida por todos os seres, que o experimentaram como a força domasculino agindo através da suavidade do feminino, a paternidade do masculino através damaternidade do feminino. Desse modo, ele é também chamado de
Mãe
de todas as coisas. Édecisiva, portanto, a concepção de uma divindade que integra o princípio feminino e age atravésdele. No Tao encontra-se também a raiz e o fundamento da receptividade do feminino.O conceito mais típico do livro é o do
wu wei
, da “atividade sem ação” ou do “não-agir”, queé um estado de passividade, mas de uma passividade totalmente ativa, no sentido de ser receptiva.Isso é a essência do feminino e também o modo de o Tao agir sem ação, porém realizando tudo. Amulher é passiva em relação ao homem, a fim de receber a semente que a torna fértil. É uma passividade ativa, dinâmica e criativa, da qual brotam a vida e seus frutos, o amor e a comunhão. Omundo necessita hoje descobrir este senso do poder feminino, que é complementar ao do poder masculino e sem o qual o homem se torna dominador, estéril e destrutivo. Há muito tempo o mundoocidental está seguindo o caminho do
Yang
, o caminho da mente masculina, ativa, agressiva,racional e científica, levando o mundo à beira da destruição. É tempo de recuperar o caminho do
Yin
, da mente feminina, passiva, paciente, intuitiva, poética, geradora e nutridora da vida. Também étempo de redescobrir a face feminina de Deus. Este é o caminho que o
Tao Te King
nos propõe.O Tao é
onipresente
. É a fonte e a base do ser da Natureza e do Universo, e também de cadaser em particular. Ao mesmo tempo que está presente em tudo, ele também ultrapassa tudo,
Add a Comment
Ariel Cardeal Malveiraleft a comment