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Lao Tse
TAO TE KING
Tradução e Introdução: Ivo StornioloCompilação, organização e digitalização:Lumensana
Nota Inicial
 No seu laconismo epigramático, o
Tao Te King 
é um livro de sabedoria tão inesgotável comoo próprio
Tao
– de cujo
 sentido
ele trata. Passados quase três mil anos do seu surgimento, o forteefeito direto que exerce sobre s resulta, ainda hoje, do fato de Lao Tse expressar seusreconhecimentos em imagens totalmente elementares e mesmo quase arquetípicas.Os comentários finais “Os Ensinamentos de Lao-Tse” são de autoria de Richard Wilhelm, publicados pela primeira vez em 1925. Por ser um importante complemento de leitura ao
Tao-Te King 
, incluímos aqui esses comentários, para nos dar um conhecimento mais exato do ambientecultural em que surgiu e atuou essa obra, ajudando-nos a compreender mais profundamente o quesignifica para a cultura chinesa o
Tao
, e o que pode significar para nós também, hoje.LAO TSE, ao lado do filósofo social Kong Fu Tse (Confúcio) é certamente uma das maioresfiguras da cultura chinesa. Sua Obra, o Tao Te King, sem dúvida é uma das colunas fundamentais dacultura chinesa. Neste pequeno livro encontramos uma concepção mística e ética que marcou profundamente a cosmovisão, a religião e os princípios de vida da China. Em estilo epigramático,encontramos uma intuição que praticamente perscruta todos os âmbitos da vida, desde a religião atéuma psicologia individual e social. A coincidência com outras tradições místico-religiosas doOriente e do Ocidente faz pensar em uma matriz comum a toda a humanidade. É a razãofundamental de este livro ter sido e continuar sendo objeto de pesquisa e meditação, dirigidas tantoà vida pessoal como social. Trata-se de uma obra sapiencial que penetra o mais profundo daexperiência humana, em qualquer tempo ou lugar.
“Livros não mudam o mundo,quem muda o mundo são as pessoas.Os livros só mudam as pessoas”.
Mário Quintana
LumensanaPublicações Eletrônicas
LIVROS PARA LER E PENSAR.
Maio, 2008
 
INTRODUÇÃO AO TAO TE KING
O
Tao Te King 
, segundo Bede Griffiths, “talvez seja o mais misterioso livro que já foiescrito... a mais profunda concepção que penetrou a mente humana”. No entanto, seu autor é maislendário que histórico, sua data precisa é desconhecida, e seu sentido é incerto. A leitura deste livrofaz ver tudo isso, mas antes de qualquer coisa nos coloca diante de um tesouro da literatura religiosae filosófica da humanidade.
O “Tao”
Como todo ideograma da língua chinesa, a palavra “Tao” pode receber inumeráveis traduçõesem nossas línguas modernas: a Divindade, o Absoluto, o Ser Supremo, o Infinito, o Eterno, oInsondável, o Uno, o Todo, a Fonte, a Causa, a Realidade Última, a Alma do Universo, o Caminho,o Sentido, a Inteligência Cósmica... e outras ainda. Como nome, ele é simplesmente uma espécie designo algébrico para designar o Mistério dos Mistérios, o Mistério supremo. Embora tenha osatributos da Divindade, não devemos logo identificá-lo com o Deus dos judeus e cristãos, pois elenão é concebível como um Deus Pessoa, mas como um Deus Cósmico, bem conhecido de místicoscomo Demócrito (filósofo grego), Francisco de Assis (místico cristão) e Spinoza (filósofo judeu), e por outros místicos, que por isso mesmo sempre levantaram suspeitas nos círculos científicos ereligiosos do tempo em que viveram.O Tao é o Uno, que é constituído pela síntese fontal dos opostos, reunindo em si ao mesmotempo o
Yang 
e o
Yin
, a Luz e a Treva, O Masculino e o Feminino, o Positivo e o Negativo, e todosos demais opostos. Diríamos que ele é um complexo ou
compositio oppositorum
, “compleição oucomposição dos opostos”, a unidade pelo perfeito equilíbrio dinâmico dos contrários, resultando noque Nicolau de Cusa chama de
coincidentia oppositorum
, a “coincidência dos opostos”. Isso leva aum profundo senso de complementaridade de tudo o que existe – uma vez que o Tao está presenteno mais fundo de toda a realidade –, assim como de uma concepção da divindade que não éexclusivamente masculina
ou
feminina, mas que transcende ambos os princípios num perfeitoequilíbrio: em seu ser e em sua ação, Deus é masculino
e
feminino, ao mesmo tempo.O Tao, portanto, é em si mesmo o Mistério que escapa a qualquer investigação lógicadiscursiva, e só é atingível pela intuição mística. ele não tem nome, e é a contragosto que o autor ochama de
Tao
. Mas a ação dele é sentida por todos os seres, que o experimentaram como a força domasculino agindo através da suavidade do feminino, a paternidade do masculino através damaternidade do feminino. Desse modo, ele é também chamado de
Mãe
de todas as coisas. Édecisiva, portanto, a concepção de uma divindade que integra o princípio feminino e age atravésdele. No Tao encontra-se também a raiz e o fundamento da receptividade do feminino.O conceito mais típico do livro é o do
wu wei
, da “atividade sem ação” ou do “não-agir”, queé um estado de passividade, mas de uma passividade totalmente ativa, no sentido de ser receptiva.Isso é a essência do feminino e também o modo de o Tao agir sem ação, porém realizando tudo. Amulher é passiva em relação ao homem, a fim de receber a semente que a torna fértil. É uma passividade ativa, dinâmica e criativa, da qual brotam a vida e seus frutos, o amor e a comunhão. Omundo necessita hoje descobrir este senso do poder feminino, que é complementar ao do poder masculino e sem o qual o homem se torna dominador, estéril e destrutivo. Há muito tempo o mundoocidental está seguindo o caminho do
Yang 
, o caminho da mente masculina, ativa, agressiva,racional e científica, levando o mundo à beira da destruição. É tempo de recuperar o caminho do
Yin
, da mente feminina, passiva, paciente, intuitiva, poética, geradora e nutridora da vida. Também étempo de redescobrir a face feminina de Deus. Este é o caminho que o
Tao Te King 
nos propõe.O Tao é
onipresente
. É a fonte e a base do ser da Natureza e do Universo, e também de cadaser em particular. Ao mesmo tempo que está presente em tudo, ele também ultrapassa tudo,
 
aplicando-se a ele a apresentação que são Boaventura faz de Deus:
 Deus est circulus cuius centrumubique, circunferentia vero nusquam
(“Deus é um círculo cujo centro está em todo lugar e cujacircunferência não se encontra em lugar nenhum”). Não se trata de
 panteísmo
(=Deus é tudo), masde
 panenteísmo
(=Deus em tudo). A realidade visível seria o testemunho do Tao, que faz tudoevoluir para o ponto em que, como diz o apóstolo Paulo, Deus será “tudo em todos” (1Coríntios15,28). O místico é capaz de ver esse projeto em andamento, e procura harmonizar-se com ele, tantoem si mesmo como na sua ação em favor dos outros.
O “Te”
O Tao é o Uno infinito e invisível, porém, manifesta-se de forma finita e visível através doTe, a Natureza, que inclui a dualidade oposta formada pelo Céu (princípio masculino espiritual) e pela Terra (princípio feminino material). Da união entre o Céu e a Terra nascem todos os seres ecoisas, levando no mais profundo de si mesmos a imagem e a semelhança do Tao, e de seu perfeitoequilíbrio entre os opostos. Em outras palavras, cada ser leva na sua base mais íntima a presença doTao que preside à sua realização enquanto ser. O Te seria, portanto, a Virtude, ou seja, a força ouimpulso vital do Tao presente na Natureza e em todo o Universo.Isso nos conduz seja ao ser humano em si, tomado como indivíduo, e à sua realização psicofísica, desde que o pequeno Eu consciente se volte para o Si-mesmo, espelho do Tao no seuinterior mais profundo, entregando-se ao impulso que vem do Tao e se manifesta no Si-mesmo,levando o indivíduo à consecução da sua mais elevada individualidade (in-divíduo = não divisível).Em outras palavras, o impulso que vem do Tao leva o indivíduo a tornar-se “imagem e semelhança”do próprio Tao. A esse processo C. G. Jung deu o nome de “individuação”.Também a vida social pode ser focalizada segundo a percepção do Tao. Já dissemos que oTao é o perfeito e infinito equilíbrio entre os opostos. Isso também pode ser chamado de “equilíbrioinfinito da justiça”. Na vida social, cheia de desigualdades e conflitos por causa das pretensões eambições dos pequenos Eus agrupados, a busca do Tao é, em última análise, uma contínua busca da justiça que leva à vida em equilíbrio, evitando qualquer excesso para mais ou para menos. Daí oideal da moderação e da frugalidade: todos com igual direito à
vida
(isto é, aos bens necessários para mantê-la) e à
liberdade
(a possibilidade de participar na organização da sociedade e nos rumosda história). Portanto, nem isso nem aquilo: nem a pobreza nem a riqueza; nem o poder nem aimpotência.Quanto à autoridade política, o ideal que deve reger o governante é o modo de agir do Tao: aforça do masculino através da suavidade do feminino, ou a ação da não-ação. O governante ideal éo que representa (torna presente) de tal modo a presença do Tao e de sua ação, que o povo nem percebe a presença do próprio governante, vivendo com a sensação de se autogovernar a partir desua própria liberdade, que nasce do Si-mesmo e do governo do Tao.O Tao é também comparado à água, que beneficia todas as coisas, e sempre ocupa o lugar mais baixo. Encontramos aqui a virtude da humildade, a pobreza de espírito do Sermão daMontanha (Mateus 5,3). Isso leva ao valor paradoxal do
vazio
: “Modelais a argila para fazer um pote, mas a utilidade do pote vem do vazio” (cf. 11). Traduzido em termos pessoais, isso significaque a utilidade da pessoa supõe o esvaziamento do seu pequeno Eu, a fim de que o Tao a preenchacom sua presença e ação. Todo seguidor do Tao é, portanto, uma pessoa que deixou as pretensões ouambições pessoais: quando ele se esvazia, o Tao tudo preenche e, através da não-ação do seu pequeno Eu, o Tao tudo realiza. Dessa forma, o Sábio, ou seja, todo seguidor do Tao, se torna sinale sacramento da presença e da ação do Tao.

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Ariel Cardeal Malveiraleft a comment

O Tao é a sabedoria da incompletude mais completa que conheço. Recomendo