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A lição de Juruti Velho

A lição de Juruti Velho

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09/21/2010

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A lição de Juruti Velho
a história que 
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conta no cinema é vivida pelos tradicionais da Amazônia 
Fagner Garcia Vicente 
 
A multinacional mineradora ALCOA, todos os dias, ensina muito aos moradores dasmargens do Lago Juruti Velho. Ensina sobre o valor do dinheiro. Ensina que o minériovermelho enterrado sob a floresta vale mais do que as areias brancas e as águas azuisque formam a paisagem paradisíaca habitada imemorialmente por Mundurukus eMuirapinimas. Ensina – como um dia já ensinaram os primeiros colonizadoreseuropeus – sobre a importância de eletrodomésticos, tênis americanos e outrasquinquilharias
modernas 
. Pacientemente, os tradicionais de Juruti Velho têm ouvido osespecialistas contratados pela empresa explicarem que seu modo de vida ancestral érudimentar, ultrapassado, insustentável.Realmente, não se pode subestimar a capacidade de aprendizado do cabocloamazônida. Mesmo vivendo na distante fronteira entre os maiores estados brasileiros,nesse afluente do Amazonas em que, há poucos anos, transações monetárias aindaeram raríssimas e onde as necessidades da população sempre foram supridas pelo rioe pela floresta, o povo de Juruti Velho entendeu perfeitamente a lição da ALCOA.Entendeu e contestou. E a gigante multinacional foi obrigada a retribuir a paciênciacabocla e ter, ela também, a sua lição.
Primeiro passo de uma vitória: a conquista do território
O mais novo mega-empreendimento minerário da Amazônia instalou-se há cinco anosno município de Juruti, no extremo oeste do Pará, mais precisamente na regiãoconhecida como Juruti Velho, na qual vivem mais de duas mil famílias tradicionais,distribuídas em dezenas de comunidades. A mineradora ALCOA-OMNIA explora,desde o final de 2009, as jazidas de bauxita que se estendem em grandes áreas deflorestas, na calha sul do rio Amazonas. Contudo, para que o minério começasse a serextraído, a empresa foi obrigada a entabular – pela primeira vez na história deempreendimentos desse tipo – uma longa e tensa negociação com a entidaderepresentativa dos moradores da região, obrigando-se, não apenas às compensaçõessócio-ambientais previstas na legislação, mas ao pagamento de perdas e danos eparticipação nos resultados da lavra. Um precedente inédito em se tratando exploraçãode recursos naturais em terras públicas habitadas por população tradicional.Essa vitória dos povos tradicionais é fruto de um processo iniciado antes mesmo dasprimeiras prospecções da ALCOA em Juruti Velho, quando as comunidadesMundurukus e Muirapinimas, com participação fundamental das Pastorais católicasligadas à Prelazia de Óbidos, começaram a se organizar para reivindicar a garantia dosseus territórios ancestrais. Em 2005, o objetivo é parcialmente alcançado, com adecretação do Projeto de Assentamento Agro-Extrativista Juruti Velho, pela recémcriada Superintendência Regional do INCRA no Oeste do Pará. Essa modalidade de
*
Chefe da Divisão de Desenvolvimento da Superintendência Regional do INCRA no Oeste do Pará.
 
Projeto de Reforma Agrária, voltada para a garantia de territórios tradicionais (cujohistórico é de apropriação por agentes externos), deu base para a ocorrência de doisfatores fundamentais na luta que se desenrolaria nos próximos anos: a aplicaçãomaciça de políticas públicas pelo governo federal, através do INCRA, e oreconhecimento dos moradores, mediados por suas organizações sociais, comoprotagonistas políticos inarredáveis.
Bauxita sangrenta 
: negociação, enfrentamento e a atuação do INCRA
Luciano Brunet, então Superintendente Regional do INCRA e mediador dasnegociações que precederam a instalação do empreendimento minerário, não cansavade contar a cena que presenciara numa das muitas reuniões entre empresa emoradores: Gerdeonor Pereira, presidente da Associação Comunitária do PAE JurutiVelho (ACORJUVE), ao perceber que um dos Secretários do Governo do Estado haviafaltado, antes mesmo do início da reunião, ergue-se e declara “
Não há negociação hoje 
”. Imediatamente, os outros treze membros da diretoria da entidade representativalevantam-se e acompanham o presidente para fora do recinto, deixando, boquiabertosna sala, executivos da ALCOA, Secretários e assessores do Governo do Estado doPará, diretores de órgãos do Governo Federal, imprensa e demais envolvidos noevento.Noutra oportunidade, em reunião com a cúpula do governo estadual, vi o principal líderdos Muirapinimas e Mundurukus, sem alterar seu tom de voz, avisar: “
Essa bauxita vai sair com sangue. Vai ser bauxita sangrenta.
” Gerdeonor alertava que, nos termos emque estava posta a discussão à época, a paciência do povo de Juruti Velho seesgotaria e fatos como a ocupação da mineradora, ocorrida em 2008, se repetiriam.Outro diretor da ACORJUVE, com toda tranqüilidade do mundo, me afirmou: “
Nos amarraremos aos trilhos um a um. A cada dia, o trem da ALCOA terá que passar por cima de um de nós pra sair daqui.
Foram muitos enfrentamentos até os representantes dos comunitários seremrespeitados como interlocutores principais da negociação. Não era algo habitual quegrandes empresas tratassem de seus negócios com moradores de comunidades ruraisatingidas pelo empreendimento. O diálogo sempre fora desviado. INCRA, FUNAI eoutras instâncias governamentais sempre foram a contraparte, os “representantes” doterritório afetado, enquanto que a população não passava de um ator secundário,quase um efeito colateral do empreendimento. Mesmo a instalação da usinahidrelétrica de Belo Monte está sendo conduzida nesses termos. O reconhecimento daACORJUVE foi construído aos poucos, a partir do trabalho de base das Pastorais, daatuação de assessores jurídicos populares, num processo em que a ação do INCRA foifundamental.Superintendente Regional de 2008 ao início de 2010, Luciano Brunet pregava anecessidade de “trabalharmos no sentido de
dar 
 
musculatura 
aos movimentos daregião”. O caso de Juruti Velho é exemplar. Para que os comunitários pudessem fazerfrente às pressões econômicas da ALCOA, o INCRA priorizou a aplicação de políticaspúblicas no PAE. Enquanto a mineradora acenava com 3 milhões como compensaçãopelos impactos de sua instalação, a Superintendência Regional destinou, por meio da
 
ACORJUVE, quase 35 milhões, em alimento, instrumentos de trabalho, equipamentosprodutivos e habitações. Ao passo que o “trabalho social” da empresaconvenientemente apregoa a necessidade de abandonar as “atrasadas” atividadeseconômicas extrativistas (as quais são extremamente impactadas pela mineração), oINCRA estimula o desenvolvimento de alternativas econômicas baseadas na própriacultura produtiva sustentável dos povos amazônidas e nessa direção são orientadas aAssessoria Técnica e a aplicação dos Créditos.Todavia, além das ações de desenvolvimento, importante foi a agilidade do INCRA ememitir – vencendo os entraves burocráticos internos – o Contrato de Concessão deDireito Real de Uso (CCDRU) em nome da ARCOJUVE e legitimando-o frente àsinúmeras contestações que recebeu. Pela primeira vez um título coletivo foi emitidopelo INCRA, garantindo aos tradicionais, não só o domínio sobre seu território, mas aparticipação nos resultados da lavra. A Autarquia não estava preparada à época paralidar com situações como essa. O então Superintendente Substituto, Dilton Tapajós,elaborou a minuta de contrato, a qual, mais tarde viria a ser adotada nacionalmentepelo Instituto. Em setembro de 2009, uma vitória fundamental: o governo do Estado doPará condicionava o licenciamento ambiental do empreendimento à observância dostermos do CCDRU. A mineradora era obrigada a reconhecer os tradicionais comolegítimos proprietários daquelas terras.
Desafios do futuro imediato: mudanças e desenvolvimento
Quanto vale o último olhar para uma paisagem à qual se está costumado desde onascimento? Quanto vale a perda de laços ancestrais com a natureza? Como sequantifica, como se paga em dinheiro a extinção do modo de vida de um povo? Pareceo argumento do filme hollywoodiano
Avatar 
, mas são questionamentos levantados noestudo que visa calcular as perdas e danos da população de Juruti Velho.Quem já viu o tamanho do desmatamento provocado pela extração de bauxita(“
Garimpo é garimpo. Quando acaba, deixa um buraco 
”, lembrava um diretor doINCRA durante a ocupação da ALCOA), não acredita no discurso dos engenheiros damultinacional, segundo o qual “em 20 anos, está tudo bem de novo”. A relação entre apopulação amazônida e a natureza é complexa em sua sustentabilidade. O peixe tiradodo rio, o fruto da floresta, o animal caçado, os detritos gerados, as áreas desmatadas,as áreas recuperadas, tudo isso faz parte de um frágil equilíbrio alcançado emcentenas de anos de sobrevivência da população tradicional, na preservação e noresgate da cultura indígena ancestral. Essa sustentabilidade ainda não foi alcançadapor nenhuma das avançadas técnicas produtivas que tanto a apregoam.Nessa simbiose homem-floresta estão contidas as relações produtivas e sociais. É ummodo de viver cujos valores não encontram uma equivalência monetária tão facilmente.Mas o
progresso 
, a
modernização 
, a
civilização 
são implacáveis. Os grandesempreendimentos – eterna fórmula de desenvolvimento para a Amazônia – estão,irremediavelmente, extinguindo esse modo de vida, como o sistema colonial extinguiu omodo de vida dos povos pré-colombianos.

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